A SONY reinventou um dos leitores portáteis mais emblemáticos da história da música para a era digital.
Para muita gente houve uma altura em que ouvir música em movimento significava colocar uma cassete num pequeno aparelho, ligar os auscultadores e carregar no botão de reprodução. O Walkman, da Sony, transformou esse gesto numa imagem de marca dos 80s e ajudou a mudar para sempre a relação entre as pessoas e a música. Em 2026, o nome continua vivo, mas a experiência está longe daquela que tornou o equipamento famoso: a versão mais recente custa 5899,99 dólares, cerca de 5100 euros à taxa de câmbio aproximada, e já não permite ouvir cassetes.
Apresentado pela Sony como uma recuperação de um legado icónico, o novo Walkman WM1ZM3 é um leitor de música digital concebido para um público que coloca a qualidade sonora acima da conveniência e, aparentemente, não se importa de pagar um valor considerável por isso. Disponível através do site da companhia japonesa, o equipamento representa uma abordagem muito diferente daquela que acompanhou o lançamento do primeiro modelo, em 1979.
A mudança mais evidente está no próprio conceito. Em vez do mecanismo de leitura de cassetes que definiu as primeiras gerações, o Walkman WM1ZM3 integra um ecrã táctil de alta definição, conectividade Wi-Fi e compatibilidade com Bluetooth. É, portanto, um dispositivo pensado para o consumo de música na era digital, com funcionalidades que o aproximam dos leitores portáteis de alta fidelidade contemporâneos, em vez de reproduzir a experiência analógica que lhe deu origem.





Segundo a Sony, o equipamento foi aperfeiçoado em vários aspectos, com especial atenção à qualidade de som. A marca descreve o processo de desenvolvimento como uma evolução meticulosa de diferentes componentes e elementos do aparelho, tendo como objectivo proporcionar uma reprodução sonora de excelência. É precisamente essa aposta no áudio de alta qualidade que ajuda a explicar o posicionamento de preço do novo modelo, embora o valor de quase 6000 dólares o coloque muito longe do alcance da maioria dos consumidores.
A ironia é difícil de ignorar: o nome Walkman nasceu associado à liberdade de levar as cassetes para qualquer lado, enquanto a versão de 2026 abandona o suporte físico que esteve na origem do fenómeno. A nostalgia continua presente na designação e na identidade visual, mas a tecnologia que tornou o produto revolucionário foi substituída por uma plataforma digital muito mais sofisticada.
A diferença de preço torna-se ainda mais evidente quando se olha para a história do equipamento. O primeiro Walkman, o TPS-L2, chegou ao mercado japonês no dia 1 de Julho de 1979 e teve um papel decisivo na popularização da música portátil. A Sony tinha identificado uma possibilidade muito simples, mas com enorme potencial: permitir que cada pessoa ouvisse a música que quisesse enquanto caminhava, viajava ou se deslocava para o trabalho, sem depender de um rádio ou de um sistema de som fixo.
Na altura, a proposta representou uma mudança significativa nos hábitos de consumo musical. O Walkman não inventou a cassete, mas tornou-a parte de uma experiência individual, associada à mobilidade e à liberdade de escolher o que ouvir. O sucesso foi tal que a marca se tornou uma referência cultural, muito para além do universo da electrónica de consumo.
Segundo os dados históricos da Sony, foram vendidos mais de 200 milhões de leitores Walkman de cassetes em todo o mundo. A produção deste formato chegou ao fim em 2010, depois de três décadas em que o equipamento acompanhou a evolução da música popular e se tornou um dos símbolos tecnológicos mais reconhecíveis dos anos 80. Entretanto, a marca passou pelos leitores de CD, pelos MiniDisc e pelos modelos digitais, adaptando-se às sucessivas mudanças nos formatos de reprodução.


Nesse sentido, o novo WM1ZM3 representa o lado mais exclusivo dessa evolução. O chassis em cobre isento de oxigénio, com acabamento dourado, e a cablagem interna de elevada qualidade fazem parte da aposta da Sony em componentes destinados a reduzir interferências e preservar a integridade do sinal áudio. O aparelho suporta ficheiros de alta resolução e inclui tecnologias de processamento sonoro desenvolvidas pela marca para melhorar a reprodução musical.
O preço anunciado nos Estados Unidos é de 5899,99 dólares, enquanto a Sony aponta para um preço recomendado de 4999 euros no mercado europeu. O modelo deverá chegar às lojas em Novembro de 2026. A fabricante apresentou também o NW-WM1AM3, uma alternativa da mesma família, com um preço europeu recomendado de 2499 euros, destinada a quem procura uma experiência semelhante sem chegar ao valor do modelo de topo.
Há, por isso, uma diferença fundamental entre o Walkman que conquistou uma geração e aquele que a Sony apresenta agora. O original tornou a música portátil mais acessível e ajudou a democratizar uma forma de ouvir discos longe de casa. O WM1ZM3 procura responder a outro mercado: o dos audiófilos dispostos a investir milhares de euros em equipamento dedicado à reprodução sonora de alta qualidade.
Para quem guarda boas recordações das cassetes, dos álbuns gravados de um amigo e da possibilidade de rebobinar uma música com uma caneta quando as pilhas estavam fracas, o nome continua a despertar nostalgia. Mas, por quase 5000 euros, a viagem ao passado terá de ser feita apenas através das memórias. O novo Walkman pode recuperar o prestígio da marca, mas não recupera a cassete que a tornou lendária.





