Sete faixas, um só destino: o trio norte-americano RUSSIAN CIRCLES continua a construir, álbum após álbum, um dos catálogos mais consistentes do rock instrumental pesado contemporâneo, e «Nine», que chega no final de Agosto, promete ser mais um capítulo dessa disciplina silenciosa.
Os RUSSIAN CIRCLES apresentaram esta semana o vídeo-clip oficial de «Eluvial», segundo tema a ser conhecido do próximo álbum de originais da banda, intitulado «Nine», que tem edição marcada para o dia 28 de Agosto via Sargent House. A faixa surge já na sequência de «Empath», o single de abertura que já tinha dado o mote — mais feroz e comprimido — para o que aí vem.
Sem comentário directo da banda sobre o tema em particular, o comunicado de imprensa que acompanha o lançamento do single descreve «Eluvial» como “o grande centro e coração de «Nine»“, construído a partir de vários padrões de guitarra com delay em ricochete, na linha do trabalho que Brian Eno e The Edge desenvolveram para o álbum «The Joshua Tree», dos U2. Sobre essa base, o guitarrista Mike Sullivan desenrola lentamente uma melodia linear e algo sinuosa, enquanto o baterista Dave Turncrantz impõe um groove de inspiração latina e o baixista Brian Cook cruza linhas abrasivas com electrónica entrecortada.
O resultado, lê-se ainda no comunicado, é “uma canção que se ergue pacientemente até um clímax, deixando apenas uns vestígios difusos de motivos percussivos e melódicos até à tempestade final que a encerra“.
Já «Empath», o tema que serviu de apresentação a «Nine» e cujo vídeo foi realizado por Madeline Hampton, segue um caminho oposto: uma síntese quase telegráfica de tácticas de metal, com um riff de baixo à la GODFLESH e uma sirene em modo drone a abrir portas para guitarras de inspiração thrash, investidas de pós-black metal, incursões d-beat, um breakdown propositadamente rudimentar e um riff final bem pesado, tudo isto em pouco menos de cinco minutos.
«Nine» chega numa fase em que os três elementos dos RUSSIAN CIRCLES vivem geograficamente afastados — Mike Sullivan radicado em Los Angeles, Dave Turncrantz em Chicago e Brian Cook na ilha de Vashon, junto a Seattle —, uma dispersão que a própria banda assume ter moldado o processo criativo deste LP. “A música que fazemos é um processo colectivo de reconciliação, de navegação e também de reflexão sobre o envelhecimento, quer como indivíduos quer como entidade criativa“, diz o trio num comunicado. “A vida criou distâncias muito reais entre nós, mas a banda continua a ser o centro, e esta colaboração criativa é uma forma de traçar a passagem do tempo, ao mesmo tempo que nos dá uma razão para olhar para o futuro.“
As sete faixas do álbum funcionam, segundo a própria banda, como bandas sonoras de longo alento para as provações e tragédias da vida contemporânea — território que os RUSSIAN CIRCLES dizem cartografar a partir de uma confluência de influências: os artistas da Touch & Go do midwest norte-americano, os gigantes do progressivo inglês do final dos anos 60 e início dos anos 70, o groove hipnótico do motorik e da kosmische alemã, e as vertentes mais corrosivas do underground metálico internacional. Ainda assim, é justo dizer que essa diversidade se cristalizou, ao longo dos anos, num som que é hoje inconfundivelmente seu.
Para «Nine», os RUSSIAN CIRCLES mantiveram a estratégia adotada em «Blood Year», de 2019, e «Gnosis», de 2022, sendo que voltaram a associar-se ao engenheiro de som Kurt Ballou, conhecido pelo trabalho com bandas como os seus CONVERGE, os MASTODON ou os HIGH ON FIRE. A gravação de base decorreu nos Electrical Audio, em Chicago, o mesmo estúdio onde a banda gravou o seu álbum de estreia, «Enter», de 2006, enquanto os acabamentos foram feitos no GodCity Studio, em Salem, no Massachusetts, propriedade do próprio Ballou.
A relação entre a banda e o produtor remonta a «Guidance», sexto álbum de originais dos RUSSIAN CIRCLES, motivada pela capacidade de Ballou em preservar o peso e a entropia próprios do metal e do hardcore, sem sacrificar a clareza e a articulação que tantas vezes se perdem em paredes de distorção.
Percorrer a discografia dos RUSSIAN CIRCLES é encontrar uma amplitude considerável de atmosferas, mudanças estilísticas e de experiências tímbricas, ainda que sob uma progressão perfeitamente identificável. Se os álbuns iniciais revelavam uma banda quase lúdica na forma como atravessava diferentes territórios sonoros, «Nine» surge agora como o documento de um grupo que já conhece bem o terreno que pisa e que agora reforça o seu domínio sobre ele.
Verdade seja dita, não há, nos RUSSIAN CIRCLES, um single de sucesso nem um consenso entre fãs sobre qual é o seu melhor álbum — apenas uma reputação de enorme consistência e qualidade que os transformou, ao longo de quase duas décadas, numa das maiores bandas de rock instrumental pesado à escala mundial. Este Outono, os RUSSIAN CIRCLES vão apresentar «Nine» em digressão pela América do Norte.

01. Borehole | 02. Empath | 03. Eluvial | 04. E2 | 05. Meridian | 06. Arletta | 07. Seventh Seal


