«The Great Satan» confirma um reencontro deliberado com as origens de ROB ZOMBIE, mas também expõe as tensões entre nostalgia, consistência e excesso num formato mais extenso do que o ideal.
Há regressos que não se anunciam só com nostalgia, mas com peso. «The Great Satan», o mais recente capítulo na discografia de ROB ZOMBIE, não representa tanto uma reinvenção, mas mais a reafirmação de algo que todos conhecemos bem — um reforço da identidade sonora e estética que sempre definiu o músico norte-americano.
Com a saída de John 5 para os MÖTLEY CRÜE e o regresso de Mike Riggs, o guitarrista original de Rob a solo, acompanhado por Blasko no baixo e Ginger Fish na bateria, o que se nos apresenta aqui é a natural recuperação de uma química que remete directamente para o período mais formativo da carreira Zombie
O reencontro não é, de resto, apenas simbólico: o próprio ADN de «The Great Satan» aproxima-se mais de «Hellbilly Deluxe» e até do legado dos WHITE ZOMBIE em «Astro-Creep: 2000» que do mais recente «The Lunar Injection Kool Aid Eclipse Conspiracy», de 2021. Ainda assim, não abandona por completo as texturas mais dançáveis e até dissonantes que marcaram essa fase recente. O resultado é um LP que trata de acentuar o peso industrial, mantendo intacta toda a teatralidade grotesca e a estranheza que sempre caracterizaram o universo de ROB ZOMBIE.
O primeiro impacto surge com «WTF 84», um arranque marcado por uma pulsação niilista, onde samples cinematográficos e drones industriais estabelecem imediatamente o ambiente. A ligação ao imaginário do terror clássico é evidente, não só na construção sonora, mas também na iconografia do álbum, cuja capa monocromática apresenta um ROB ZOMBIE triunfante, numa imagem que evoca os seus próprios mitos visuais.
Essa dimensão cinematográfica prolonga-se ao longo do disco, reforçada por pequenos interlúdios que contribuem para a fluidez narrativa e atmosférica. De resto, os singles antecipados já deixavam antever esta direcção. «Punks And Demons» assenta numa repetição deliberada e hipnótica, construída sobre um ritmo minimalista que se fixa na memória com insistência mecânica. Esta abordagem directa reflete uma estética que privilegia o impacto físico e a persistência sonora, em detrimento de estruturas complexas.
Tematicamente, «The Great Satan» mantém-se fiel ao território que ROB ZOMBIE domina há décadas. Assassinos em série, criaturas grotescas e arquétipos de horror povoam temas como a «Tarantula», ou a «The Black Scorpion», que acelera o pulso com uma agressividade mais próxima do metal tradicional. Em «Sir Lord Acid Wolfman», a bateria de Ginger Fish introduz uma subtileza rítmica inesperada, enquanto «The Devilman» abranda o ritmo para enfatizar um groove pesado e deliberado, que demonstra bem a eficácia de uma fórmula que continua a funcionar quando executada com convicção.
É, no entanto, na força mais directa que o disco revela alguns dos seus momentos mais eficazes. «(I’m A) Rock n Roller» e «Heathen Days» destacam-se como afirmações claras de agressividade e intensidade, evocando o impacto das fases mais celebradas da discografia de Zombie. Outro ponto alto surge em «Revolution Motherfuckers», uma homenagem à contracultura que combina refrões memoráveis com um trabalho de bateria particularmente expressivo.
Há por aqui muita energia, e muitas vezes imediata e contagiante, algo que reforça a capacidade de ROB ZOMBIE para criar momentos que se fixam rapidamente na memória. E sim, pese tudo isso, não é um LP isento de fragilidades. A decisão de manter um alinhamento extenso, com quinze faixas, dilui parte do impacto. Ao contrário dos seus trabalhos mais icónicos, onde a concisão reforçava a eficácia, «The Great Satan» prolonga a experiência para além do necessário. Temas como «Unclean Animals», com uma abordagem mais repetitiva, contribuem para uma sensação de uniformidade que, embora coerente com a estética, reduz a diversidade dinâmica do todo.
E sim, também se nota uma redução do humor absurdo que marcou fases anteriores algo que pode ser bom ou mau, dependendo do vosso nível de tolerância ao azeite. A irreverência psicadélica e o nonsense que definiram temas como «Well, Everybody’s Fucking in a U.F.O.» ou «Ging Gang Gong De Do Gong De Laga Raga» dão aqui lugar a uma abordagem mais austera, centrada numa violência estética mais directa, menos caricatural; quiçá daptada aos tempos em que vivemos. Essa mudança confere ao disco uma gravidade acrescida, embora sacrifique uma boa parte da imprevisibilidade da sua personalidade.
Ainda assim, seria incorreto interpretar «The Great Satan» apenas como uma tentativa desesperada de recuperação. ROB ZOMBIE nunca abandonou verdadeiramente o território que ajudou a moldar. O que este LP oferece é uma reafirmação desse domínio, agora com uma intensidade que não se manifestava de forma tão clara há duas décadas. Mais pesado e mais directo, não redefine o percurso de Zombie, mas reforça a sua relevância.







