QUEENS OF THE STONE AGE

QUEENS OF THE STONE AGE: «Perfecth», ou a arte de tocar com a máquina avariada [review + streaming]

Em «Perfecth», os QUEENS OF THE STONE AGE fazem da falha um método e encontram, depois de anos de desgaste, uma luz que não é complacente

A máquina pára, arranca, volta a parar, arranca de novo, volta a parar, arranca. É essa a imagem que Josh Homme associa ao título «Perfecth»: a marca de uma imperfeição, de algo ligeiramente fora do eixo que impede o mecanismo de funcionar sem atrito. Não é uma metáfora distante, convenhamos. Nos últimos anos, o líder dos QUEENS OF THE STONE AGE atravessou um divórcio doloroso e exposto ao público, uma luta contra o cancro e uma cirurgia de urgência cujos contornos nunca esclareceu.

É exactamente por isso que este disco se ouve melhor como documento de reparação do que como simples regresso e, antes de o pormos a tocar, convém lembrar de onde se parte. «…Like Clockwork» ficou como obra maior da discografia da banda, e o que veio depois não esteve à sua altura. «Villains» soava a rock de brilho glam, mas pouco convincente, e «In Times New Roman…» tentou recuperar o fôlego, mas sem encontrar foco. Quem acompanhava o grupo desde o início sabia que os primeiros seis álbuns tinham um feitiço que os dois mais recentes não conseguiam reproduzir.

A pergunta, por isso, era legítima: restava ainda alguma coisa por dizer? A resposta começou a desenhar-se num sítio improvável. Josh Homme insistiu até conseguir tocar nas Catacumbas de Paris, e a experiência parece ter-lhe deixado uma reverência quase espiritual, que contaminou tanto a escrita e os arranjos como a postura da banda em palco.

A digressão que fizeram a seguir foi assumidamente teatral: Josh Homme de fato, a brandir um cutelo de talhante como se fosse um Frank Sinatra ou um Dean Martin de coração partido e instintos homicidas, acompanhado por um grupo de jazz esfumado vindo directamente do inferno. Aquele sorriso sarcástico ao canto da boca , aquela escuridão embrulhada em veludo, era a mesma que marcara os anos mais fascinantes dos QUEENS OF THE STONE AGE.

Talvez por isso, «Perfecth» soa, em muitos aspetos, como o verdadeiro sucessor de «…Like Clockwork», apesar dos dois discos que se interpõem. A leitura faz sentido se traçarmos o percurso desde «Lullabies To Paralyze», passando por «Era Vulgaris», até ao disco de 2013. Esse arco começa na noite, com góticos vestidos de cabedal, punks e marginais a “meter” drogas psicadélicas e a dose certa de, anfetaminas, cocaína e álcool, até atingirem o pânico da máquina avariada na segunda metade de «Era Vulgaris». O «…Like Clockwork» seria a ressaca existencial, o momento em que a figura inspecciona os destroços e calcula os prejuízos.

«Perfecth», segundo esta lógica, será a madrugada do dia seguinte, aquela em que a luz entra pela janela sem pedir licença. O LP apresenta-se como um objecto mais leve, adornado por guitarras acústicas e floreados psicadélicos. Mas há nele um cansaço que o desmente. Soa menos a doçura e mais a um adulto de coração partido e em recuperação, apenas a tentar sorrir por uns segundos. E as migalhas de alegria espalhadas pelos temas parecem conquistadas à força, longe da pop barata de quem nunca conheceu a luta.

«Easy Street», o primeiro single, é a melhor porta de entrada possível. A sua psicadelia quente evoca um sol demasiado brilhante sobre relva e água, e sob ele uma figura esfarrapada pela noite longa murmura, meio a brincar, que depois de uma noite assim nada mais poderá ser difícil, ou pelo menos assim lhe parece. Há, nas canções ditas acústicas, uma deliberação e um cuidado de escrita que Homme já não mostrava há anos. Aqui, regressa o poeta de sarjeta e crooner de olho negro que, nos seus melhores momentos, sempre foi.

Ainda assim, seria um enorme erro pensar que o novo álbum dos QUEENS OF THE STONE AGE se resume apenas a ternura. «It’s Only Love», o tema de abertura, surpreende pela produção abrasiva e pelos cortes de som que perturbam de propósito. São rasgos de rugosidade sonora que lembram «Era Vulgaris» e, mais atrás, a fase dos primórdios, o que confere a este conjunto de canções uma unidade estética que não se perde.

Não se pense, no entanto, que há aqui alguma revolução. Homme e companhia não reinventam o som dos QUEENS OF THE STONE AGE; fazem pequenas viragens nos arranjos para deixar passar uma calidez e uma claridade que antes não estavam lá — e o resultado é um híbrido que revitaliza o grupo e o devolve aos níveis de execução dos seus melhores dias.

«Insignificant Other» talvez seja o exemplo mais claro disso mesmo. Uns blues soltos e untuosos, que parecem conter no âmago o centro nevrálgico de toda a banda, com um pouco de ZZ TOP, um pouco de David Bowie e um pouco de crooner de tempestade ali pelo meio, daqueles que chegam sem alarido quando a máfia vem cobrar. A canção é amarga mas lúcida, reconhece a confusão humana que existe em todos os intervenientes de uma ruptura, e ainda consegue soar zangada, enlutada, assustada e arrependida ao mesmo tempo. É aqui que a imperfeição do título ganha corpo.

Depois, o LP termina a baixar lentamente o volume, sem o clímax estrondoso que muitos esperariam. É a decisão certa. Um final bombástico trairia o tom sombrio e ponderado das canções, e a contenção, aqui, é uma forma de honestidade. Em «Perfecth», os QUEENS OF THE STONE AGE soam renovados e de volta ao seu poder, e deixam uma imagem luminosa do que o futuro ainda pode guardar. A máquina continua a falhar. Desta vez, o soluço faz parte da música.

QUEENS OF THE STONE AGE, «Perfecth»