OPETH

OPETH + HÄLLAS @ Bord Gáis Energy Theatre, Dublin, Irlanda | 02.08-2026 [reportagem]

Numa sala de teatro em Dublin, os OPETH provaram que o metal também sabe estar sentado. Perante uma casa esgotada no Bord Gáis Energy Theatre, os suecos trouxeram peso, humor e nostalgia a um palco habituado a musicais, numa noite em que Mikael Åkerfeldt se revelou tão afiado ao microfone como à guitarra.

Há salas que não foram feitas para ver concertos de metal, e o Bord Gáis Energy Theatre, em Dublin, é claramente uma delas. Há poltronas estofadas, plateia em declive suave, um pé-direito que respira musicais da Broadway em digressão. Antes deste dia 2 de Agosto, apenas os HEILUNG se tinham aventurado por ali com uma proposta remotamente próxima do género. Portanto, pode dizer-se efectivamente que os OPETH foram a primeira banda do género a ocupar aquele palco — e fizeram-no perante uma casa esgotada semanas antes da data, para cerca de 2100 pessoas sentadas a assistir a um concerto de metal como quem assiste ao “Rei Leão”.

A estranheza instalou-se logo à entrada. Muitos preferiram demorar-se no lobby, copo na mão, junto às bancas de merchandise, enquanto os suecos HÄLLAS davam início à noite. A banda liderada por Tommy Alexandersson entrou em palco ao som de «Birht / Into Darkness», oferecendo o seu hard rock de inflexões progressivas, claramente devedor dos anos 70. O som saía discreto — talvez baixo demais —, mas suficiente para que a proposta se fizesse ouvir com clareza.

Ainda assim, a sala foi-se compondo lentamente, e os HÄLLAS foram revelando, faixa a faixa, um potencial que o público ainda hesitava em recompensar com entusiasmo equivalente. A resposta chegou aos poucos, talvez mais por respeito do que por efusão, mas bastou para que o quinteto encerrasse em bom plano, com «Star Rider» e «The Astral Seer» a fecharem uma primeira parte competente.

Às nove da noite em ponto, os OPETH subiram a palco sob aplausos fechados, e «§1», retirado do mais recente «The Last Will And Testament», abriu uma noite que rapidamente se revelaria tão musical quanto cómica. Seguiu-se «Hjärtat Vet Vad Handen gör», cantada em sueco, do álbum «In Cauda Venenum» — um lembrete de como a banda nunca deixou de arriscar em território linguístico pouco óbvio para uma audiência internacional.

Entre temas, enquanto os músicos afinavam os instrumentos, Mikael Åkerfeldt foi assumindo o papel de mestre de cerimónias. Notando o público ainda contido, comentou que, apesar do teatro ser um espaço “posh“, o concerto certamente não o seria. Uns segundos depois, atirava que tudo o que soava bem em palco era, na verdade, pré-gravado — uma piada que arrancou gargalhadas generalizadas e quebrou de vez o gelo entre a banda e a plateia.

A partir daí, a noite acabou por ganhar outro ritmo, com «Godhead’s Lament», «§7» e «The Devil’s Orchard» a sucederem-se com a densidade habitual do reportório dos OPETH. Entre canções, alguém gritou da plateia a perguntar o número que Mikael calçava. A resposta — 43, 44, “não é a medida que usam na Irlanda” — veio acompanhada de um comentário autodepreciativo sobre “pé pequeno, coiso pequeno“, para nova hilaridade geral.

O concerto prosseguiu com «Windowpane», «The Grand Conjuration» e «Demon Of The Fall», três momentos que lembraram porque é que os OPETH continuam a ser uma referência incontornável do metal progressivo. Mas foi de novo entre afinações que Åkerfeldt voltou a roubar a cena, antecipando-se ao clichê de qualquer banda a tocar na Irlanda: em vez de invocar os inevitáveis THIN LIZZY, declarou-se — e à sua banda — fã confesso de Gary Moore, enumerando os discos mais marcantes do guitarrista norte-irlandês.

Seguiu-se uma história pessoal sobre ter avistado, num dos lados do palco de um concerto, uma senhora de idade que, afinal, era o próprio Moore — pretexto ideal para a observação, entre o afectuoso e o mordaz, de que quase todos os músicos, quando chegados a determinada idade, acabam por parecer senhoras velhas.

A música regressou com «§3» e uma animada versão de «You Suffer», dos NAPALM DEATH, repetida três vezes — a primeira pela banda, e as seguintes com o público a assumir as “linhas vocais”. Antes da magnífica «The Drapery Falls», o timoneiro dos OPETH ainda arriscou os acordes iniciais de «Rock You Like A Hurricane», dos SCORPIONS, confessando logo de seguida ser incapaz de cantar aquela letra por considerá-la sexista, numa alusão directa ao verso “so give her inches“.

A noite encaminhou-se para o fecho com «Hex Omega», do já longínquo «Watershed», e a banda abandonou o palco. Mas, pela primeira vez, o público ergueu-se das poltronas, exigindo mais. Os OPETH responderam com uma incontornável «Deliverance», encerrando em apoteose uma noite que começara sentada e terminou de pé. Antes de sair de palco, Mikael Åkerfeldt ainda deixou uma última nota, meio brincalhona, meio sincera: a esperança de que o público irlandês não tenha de esperar demasiados anos para ver os OPETH de novo — desta vez, talvez, numa sala onde ninguém precise de poltronas para sentir o peso da música.