DARKTHRONE

NOCTURNO CULTO revisita 40 anos de DARKTHRONE: “Podemos culpar os SLAYER por isto tudo”

O vocalista e guitarrista dos DARKTHRONE recorda o impacto inicial dos SLAYER, os primórdios isolados no underground norueguês e a filosofia que levou a banda a manter-se afastada dos palcos durante décadas.

Com quatro décadas de história no underground, os DARKTHRONE assinalam o seu 40.º aniversário com o lançamento de uma nova caixa retrospectiva, intitulada «The Fist In The Face Of God», que se afirma como uma edição abrangente que revisita um dos catálogos mais influentes da história do black metal. A ocasião motivou também uma rara reflexão pública de Nocturno Culto — nome artístico de Ted Skjellum — que, numa entrevista recente, recordou os momentos decisivos que moldaram a trajectória da banda norueguesa.

Coincidindo com o seu 54.º aniversário, o vocalista e guitarrista olhou para trás e descreveu os anos de formação dos DARKTHRONE num contexto onde o interesse pela música extrema era, na melhor das hipóteses, incompreendido. Crescer na Noruega dos anos 80 como fã de metal mais pesado significava, muitas vezes, enfrentar um certo isolamento social.

“Era um pouco solitário. Na escola havia talvez mais uma pessoa interessada nisso. Os KISS eram sempre populares, mas quando se tratava de metal a sério, era algo mais solitário para um miúdo, porque as pessoas não entendiam aquele tipo de música.” Para Nocturno Culto, essa sensação de estar à margem acabou por influenciar também a própria forma como a banda via o seu lugar no mundo musical. “Era exactamente a mesma mentalidade que tínhamos com os DARKTHRONE, porque nunca considerámos a Noruega como algum tipo de epicentro do interesse pelo metal.”

Um momento específico acabaria, no entanto, por alterar radicalmente o rumo da sua vida. Em meados dos anos 80, um programa televisivo dedicado ao heavy metal apresentou-lhe uma banda que o deixou desconcertado. “Acho que foi em 1985 ou por aí. Havia um programa chamado Monsters Of Rock na Sky TV, apresentado pelo Mick Wall. Passaram um vídeo ao vivo da «Hell Awaits» dos SLAYER e eu não percebi o que raio tinha acabado de acontecer.”

Até então, o jovem músico conhecia nomes como METALLICA ou BLACK SABBATH, mas a experiência de ouvir os SLAYER pela primeira revelou algo diferente. “Os SLAYER eram como um grande comboio de som a passar por cima de ti. Fiquei sentado depois a pensar: ‘E agora, o que é que vai acontecer?’ Percebi que a minha vida ia tomar um rumo um pouco mais sinistro depois de ver aquele vídeo. Portanto, podemos culpar os SLAYER por isto tudo.”

Três anos mais tarde, em 1988, Nocturno Culto juntou-se oficialmente aos DARKTHRONE, iniciando a parceria criativa com o baterista Fenriz que viria a tornar-se central para o desenvolvimento do black metal norueguês. O primeiro encontro entre os dois permanece uma memória particularmente vívida. “Naquela altura eu já tinha tudo uma banda antes, com alguns primos, mas eles não tinham exactamente a mesma vontade de fazer algo mais sério”, recordou o músico.

A oportunidade surgiu quando alguém lhe deu o número de telefone de Fenriz. “Falámos ao telefone durante cerca de uma hora, sobretudo sobre música — em especial sobre a «Orion», dos METALLICA.” Os dois decidiram então encontrar-se na estação de Kolbotn, e a descrição que o baterista fez de si mesmo tornava improvável qualquer confusão. “Perguntei-lhe como é que o ia reconhecer. Ele disse que tinha um corte de cabelo tipo tigela e, atrás, uma espécie de rabo de rato, além de um lenço palestiniano… Não foi difícil encontrá-lo, digamos assim!”

Pouco depois, em Maio de 1988, Nocturno Culto assistiu a um concerto dos DARTHRONE num concurso de bandas locais para decidir se queria juntar-se ao grupo. A sua decisão foi tomada rapidamente, mas as ambições eram, na altura, surpreendentemente modestas. “É pelo menos 80% verdade que, quando entrei e começámos a fazer música mais a sério, a nossa única ambição era gravar um álbum. Era mesmo só isso.”

Esse objectivo materializou-se em 1991 com «Soulside Journey», um disco profundamente enraizado no death metal da época. No entanto, o verdadeiro ponto de viragem surgiria no ano seguinte com «A Blaze In The Northern Sky», um disco que redefiniu o som da banda e se tornou um dos marcos fundamentais do black metal. Apesar de frequentemente descrita como uma mudança radical, Nocturno Culto afirma que, internamente, a transição nunca foi encarada dessa forma.

“Tenho falado ocasionalmente sobre isso com o Fenriz nos últimos cinco anos. Percebemos porque é que as pessoas veem isso como uma grande mudança, mas para nós dentro da banda não foi assim tão grande”, diz ele. Na sua perspectiva, os DARKTHRONE nunca se viram como uma banda estritamente de death metal. “Nós simplesmente ficávamos na cave da casa do Ivar a ouvir as coisas de que gostávamos, como BATHORY e MOTÖRHEAD.”

Para os álbuns seguintes — «A Blaze In The Northern Sky» e «Under A Funeral Moon» — o objectivo já era claro: criar uma atmosfera específica. “Queríamos que soasse frio. O som foi algo que tentámos planear o melhor possível, porque não queríamos acabar sem controlo sobre ele.” Também muito importante, toda a estética visual associada ao black metal, incluindo as capas a preto e branco e o uso de corpsepaint, fez parte desse período. Ainda assim, os DARKTHRONE abandonaram rapidamente esse elemento quando sentiram que estava a tornar-se excessivamente difundido.

“Lembro-me bem do momento em que decidimos deixar de usar corpsepaint. O Ivar estava a caminho da sala de ensaio num dia de Verão e viu três tipos na rua principal de Oslo com corpsepaint, todos a suar.” O episódio foi suficiente para provocar uma reacção imediata. “Quando ele nos contou, ficámos em choque. Tinha-se tornado uma coisa comercial, por isso decidimos deixar de fazê-lo.”

Nos primeiros anos dos 90s, a cena de black metal norueguesa ganhou notoriedade devido a uma série de incidentes envolvendo incêndios criminosos e violência. Nocturno Culto optou deliberadamente por afastar-se desse ambiente antes mesmo de os acontecimentos atingirem o auge mediático. “Nasci e cresci em Oslo, mas mudei-me em Dezembro de 1991, antes de todas essas coisas acontecerem, porque sabia que algo ia acontecer.”

Para o músico, o clima dessa época tornara-se cada vez mais intenso. “Foi um período mais sério… Toda a gente era jovem e estava metida em coisas loucas. Mas eu aproveitei a primeira oportunidade para sair e fui viver para longe de Oslo.” Essq distância permitiu-lhe observar os acontecimentos com clareza. “Aprendi muito sobre muitas coisas, mas era uma forma muito sombria de ver o mundo. Na verdade, parecia quase uma competição para ver quem era mais extremo.” Para os DARKTHRONE, contudo, o foco manteve-se sempre no essencial. “O nosso interesse era a música, por isso aquilo era um pouco estranho para nós.”

Esse desejo de manter a música no centro da identidade da banda acaba por explicar uma das decisões mais singulares da sua carreira: deixar de tocar ao vivo. Apesar de propostas financeiramente tentadoras ao longo dos anos, os DARKTHRONE recusaram sistematicamente regressar ao palco. “Sempre achámos que não precisávamos dessa atenção a nível pessoal”, esclarece ele.

A filosofia da banda permaneceu consistente ao longo do tempo. “A nossa ideia foi sempre deixar que a música falasse por si. Tentamos colocar a música à nossa frente em vez de todas as outras coisas, incluindo tocar ao vivo.” A conclusão, segundo o próprio músico, é simples. “Recebemos muitas ofertas excelentes e recusámo-las todas. Podemos inventar todo o tipo de razões, mas a verdade é que não queremos tocar ao vivo. Não é para nós.”

A caixa «The Fist In The Face Of God», editada hoje, 6 de Março, pela Peaceville Records, surge como uma celebração desse percurso singular. No interior, reúne nove discos essenciais do catálogo DARKTHRONE, começando com «A Blaze In The Northern Sky», lançado em 1992 e considerado o primeiro capítulo da chamada Unholy Trinity, e terminando com «Sardonic Wrath», de 2004, o último registo do grupo para a Moonfog Productions.