MTV

MTV — O inevitável fim dos canais musicais… E o improvável legado no universo da música pesada

Com os canais musicais definitivamente “fora do ar”, analisamos o papel decisivo da MTV na legitimação televisiva do metal e do rock pesado.

Sim, houve uma altura em que a música pesada não vivia nos algoritmos nem dependia de cliques, muito menos da IA, de partilhas ou recomendações automáticas. Vivia na televisão. Mais precisamente, vivia na MTV. Portanto, o encerramento definitivo, e há muio ajnunciado, dos canais musicais da MTV no passado dia 31 de Dezembro de 2025 não representou apenas o fim de uma era televisiva: assinalou também um desaparecimento inevitável de um dos mais improváveis e decisivos aliados que o metal e o rock pesado alguma vez tiveram no caminho para o grande público.

A MTV nasceu em 1981 como um projecto ousado, mas nessa altura dificilmente alguém poderia prever que o nóvel canal televisivo acabaria por transformar-se numa força cultural capaz de alterar o destino de géneros musicais tradicionalmente marginais. O metal, em particular, nunca foi um candidato natural ao horário nobre da televisão generalista. A sua estética agressiva, o volume, a iconografia provocatória e a recusa de compromissos tornavam-no um corpo estranho num meio historicamente conservador.

Ainda assim, foi precisamente a MTV que abriu essa porta — e, ao fazê-lo, mudou para sempre a relação entre o metal, o rock mais pesado e o mainstream. Durante os anos 80 e 90, a MTV funcionou como um território de legitimação. Num mundo pré-internet, onde o acesso à música pesada dependia sobretudo de lojas especializadas, fanzines fotocopiadas e concertos em salas pequenas, a simples presença de uma banda de metal na grelha televisiva equivalia a um selo de existência cultural.

Ver os METALLICA, os SLAYER, os MEGADETH, os ANTHRAX ou os PANTERA no ecrã era mais do que entretenimento: era a confirmação de que aquele som, até então tratado como ruído por muitos, tinha lugar na conversa global.

Nenhum programa simbolizou melhor esse fenómeno do que o Headbangers Ball. Longe de ser apenas um espaço temático, tornou-se um ritual semanal para milhares de jovens em todo o mundo. Era ali que o thrash, o speed, o death e até os primeiros ecos do black metal ganhavam visibilidade internacional. A MTV assumia um risco editorial raro: colocava música extrema no mesmo espaço mediático que a pop e o rock alternativo, recusando de uma vez por todas a ideia de que o metal deveria permanecer confinado ao underground.

Claro, essa normalização teve efeitos profundos. O que antes parecia inacessível tornou-se uma parte do imaginário colectivo. O impacto foi, de resto, tão imediato quanto duradouro. Muitas bandas que viviam de circuitos regionais passaram a alcançar audiências globais. De um momento para o outro, o vídeo-clip transformou-se numa importantíssima arma estratégica, não tanto por vaidade estética, mas sobretudo por necessidade de sobrevivência num novo ecossistema mediático.

O heavy metal aprendeu a comunicar visualmente — e, ao fazê-lo, expandiu-se. Entranhamente, a MTV não domesticou o género; deu-lhe apenas amplificação. A agressividade sonora manteve-se, mas passou a coexistir com uma linguagem audiovisual capaz de competir num espaço dominado pela imagem.

Como é óbvio, essa relação não esteve isenta de algumas contradições. A MTV foi, o mesmo tempo, uma aliada e também em filtro. Ao mesmo tempo que abriu portas, estabeleceu limites implícitos sobre o que era televisivamente aceitável. Ainda assim, mesmo essa tensão contribuiu para o crescimento do género. O metal passou a existir em diálogo com o mundo exterior, a provocar reacções, e a gerar polémica qb. A televisão transformou-se num campo de batalha simbólico onde guitarras distorcidas e imagens extremas disputavam atenção com refrões radiofónicos.

Outro momento decisivo dessa história foi o incontornável MTV Unplugged. Num gesto aparentemente paradoxal, a MTV retirou o metal do volume máximo e expôs de uma forma nunca vista a sua estrutura emocional. As actuações acústicas de bandas associadas ao peso e à distorção revelaram uma dimensão muitas vezes ignorada pelos críticos: a força das canções, a fragilidade das letras, a intensidade contida. O caso dos NIRVANA, por exemplo, tornou-se emblemático, mas não foi único. O formato ajudou muito a desmontar o estereótipo de que o rock pesado era apenas excesso e ruído, oferecendo uma leitura mais complexa e humana do género.

Infelizmente, com o passar dos anos, a relação entre a MTV e a música pesada começou a esmorecer de uma forma inegável. A viragem do milénio trouxe uma transformação estrutural: a internet alterou para todo o sempre a forma como a música circula. O YouTube acabou por substituir a rotação televisiva dos vídeo-clips, o streaming fragmentou audiências e, inevitavelmente, os algoritmos assumiram o papel de curadores invisíveis.

A MTV respondeu com uma profunda mudança de identidade, afastando-se progressivamente da música e apostando no entretenimento de consumo rápido. O heavy metal — tal como o rock em geral, mais ou menos pesado — deixou de ter espaço regular no ecrã que outrora o acolhera. Em Outubro, o anúncio oficial feito pela Paramount Global, no contexto de cortes financeiros e da fusão com a Skydance Media, foi apenas o epílogo de um processo longo.

Nesse sentido, o encerramento dos canais MTV Music, MTV 80s, MTV 90s, Club MTV e MTV Live confirma aquilo que já era evidente: a MTV musical pertence a um outro tempo. O canal principal sobreviverá, mas desligado da missão que lhe deu nome e relevância cultural.

Ainda assim, reduzir a história da MTV a uma nota de rodapé nostálgica seria um erro… Para o metal e o rock mais pesado, a MTV representou algo extremamente raro: um ponto de encontro global. Um espaço onde a descoberta não dependia de pesquisa activa, mas do acaso e, sobretudo, da partilha. Ligava-se a televisão e esperava-se. Essa espera criava expectativa, curiosidade e, acima de tudo, comunidade. Era um ritual colectivo num mundo que hoje consome música de forma solitária e fragmentada.

Quando Simone Angel, antiga apresentadora da MTV Europe, afirmou que “a MTV não era só música, era um espaço de encontro e de cultura partilhada”, tocou no cerne da questão. O que desaparece com o fim dos canais musicais não é apenas uma grelha de programação, mas uma forma de mediação cultural. A MTV tinha identidade, tinha pessoas, tinha escolhas editoriais. Não era neutra — e foi precisamente essa não neutralidade que permitiu ao metal entrar na casa de milhões sem pedir licença.

A partir de agora, a música deixará oficialmente de ter lugar na MTV como força estruturante. O metal continuará vivo, talvez até mais saudável do que nunca, mas já sem aquele megafone televisivo que lhe deu escala global num momento decisivo da sua história. O futuro pertence ao digital, sem dúvida. Mas o passado pertence à MTV — e, dentro desse passado, o metal e o rock pesado ocupam um lugar central.