Trinta e três anos depois do seu lançamento, o «Covenant» continua a ser o disco que define tudo o que veio antes e tudo o que veio depois nos MORBID ANGEL — e também no death metal.
Há datas que só ganham o seu verdadeiro peso com o passar dos anos. O dia 22 de Junho de 1993 foi, à superfície, apenas mais um dia de lançamentos discográficos num Verão americano abafado. Mas quando as agulhas tocaram pela primeira vez os sulcos de dois discos que saíram em simultâneo — o «Individual Thought Patterns», dos DEATH, e o «Covenant», dos conterrâneos MORBID ANGEL — algo se deslocou, irreversivelmente, no eixo do metal extremo.
Vamos focar-nos no segundo: trinta e três anos passados, o «Covenant», dos MORBID ANGEL, continua a ser um dos LPs mais implacáveis e, paradoxalmente, mais elegantes que a cena de Tampa alguma vez produziu nos anos 90. Não envelheceu. Acomodou-se, isso sim, numa posição de absoluta autoridade.
Para compreendermos o que «Covenant» representou, é preciso recuar ao clima cultural de 1992, o ano anterior. As majors estavam em êxtase com a descoberta de que o metal vendia — mas apenas quando se comportava face ao mainstream. Os METALLICA do «Black Album» e os MEGADETH do «Countdown to Extinction» tinham mostrado que era possível engordar as faturas ao custo de aparar algumas arestas. Até os IRON MAIDEN, outrora incendiários, pareciam resignados a uma certa suavidade com o seu «Fear Of The Dark».
A Earache e a Giant Records — parceria improvável que colocou os MORBID ANGEL nas prateleiras das grandes superfícies — apostaram em algo radicalmente diferente. Não porque ignorassem o mercado, mas porque a banda de Trey Azagthoth nunca demonstrou qualquer inclinação para a conciliação com essas massas. O «Covenant» foi, nesse sentido, um acto de teimosia produtiva: death metal floridiano a entrar pela porta principal da indústria, sem concessões, sem baladas, sem o menor desejo de agradar a quem não estivesse preparado para o receber.
A «Rapture» funcionou como a abertura que definiu tudo. Foi a primeira canção que os MORBID ANGEL compuseram para o álbum, e a escolha para abrir o disco não poderia ter sido mais acertada. Sim, porque há riffs que se transformam em propriedade colectiva da memória de uma geração, e o que Azagthoth e companhia forjaram nessa faixa pertence a esse grupo restrito de criações que, ao segundo de audição, já fazem parte de quem as ouve.
Não é apenas a velocidade — é a precisão cirúrgica de um guitarrista que pensa as escalas de uma forma oblíqua, fora dos lugares comuns do género. Os bombos de Pete Sandoval funcionam como um motor a quatro tempos que nunca revelam a sua temperatura real, sempre à beira de explodir mas sempre sob um controlo milimétrico. E David Vincent, com a sua presença física bastante singular — o cabelo louro a contrastar com a imagética sombria da banda —, trouxe ao death metal uma dimensão de carisma frontal que o género raramente soube cultivar. Em suma, os MORBID ANGEL tinham encontrado uma fórmula à prova de bala.
O segundo single, a arrastada «God Of Emptiness», apresentou-se como algo diferente. Onde «Rapture» atacava, este tema colossal envolvia o ouvinte — lentamente, com uma dissonância quase ritualista que, a espaços, criava desconforto por razões difusas de definir por palavras. Verdade seja dita, não havia outra canção de death metal, naquele momento, que funcionasse assim: nem brutal por impulso, nem melódica por cálculo, mas perturbadora por convicção.
A forma como Azagthoth dobra as cordas em conjunção com a voz de Vincent cria uma textura que não tem equivalente óbvio no catálogo do género. É metal que parece emanar de um lugar físico concreto — húmido, escuro, subterrâneo —, e o vídeo-clip que o acompanhou, apesar das gargalhadas que Beavis e Butt-Head lhe dedicaram na MTV, resistiu ao tempo com uma dignidade que muitas produção ditas mais respeitáveis de 1993 nunca tiveram.
Por tudo isso, seria demasiado redutor descrever o «Covenant» apenas como um exercício de velocidade e brutalidade. Temas como «Sworn To The Black» ou «Vengeance Is Mine» demonstram que os MORBID ANGEL entendiam perfeitamente a diferença entre o peso e profundidade. A primeira é uma coisa que se conquista com decibéis; a segunda exige arquitectura.
«Vengeance Is Mine», em particular, é um caso de estudo. Podia perfeitamente ter sido uma canção de death metal convencional construída sobre a rapidez como fim em si mesmo — e ninguém estranharia. Em vez disso, a velocidade surge apenas como uma das ferramentas disponíveis, mas é o teor de groove, o espaço entre as notas, o peso de cada pausa, que a sustenta. E sim, há uma dimensão rítmica neste LP dos MORBID ANGEL que raramente se associa ao género e que, em retrospectiva, explica uma boa parte da sua longevidade.
Por detrás da mesa estava Flemming Rasmussen, o produtor dinamarquês responsável por três dos mais aplaudidos álbuns dos METALLICA — «Ride The Lightning», «Master Of Puppets» e o «…And Justice For All». A sua presença não foi acidental. Rasmussen gravou toda a bateria em fita de duas polegadas, com um mínimo de processamento e sem recurso a triggers. O resultado é um som de caixa e de bombo com uma corpulência analógica que o digital de época jamais conseguiria replicar — e «Pain Divine» é talvez a prova mais eloquente do que Pete Sandoval era capaz de fazer quando alguém registava o instrumento sem o dissecar.
Hoje, mais de três décadas depois, percebe-se que o «Covenant» pavimentou o caminho para uma fase de visibilidade mainstream que o death metal jamais tinha conhecido. E sim, é um dos discos que tornam difícil explicar o death metal a quem está de fora — não porque seja um disco inacessível, mas porque é demasiado bom para caber nos estereótipos com que o género costuma ser descrito… É técnico sem ser frio. É brutal sem ser rudimentar. É obscuro sem ser vazio. É MORBID ANGEL no seu melhor.
Para muitos que o encontraram nos anos 90, foi a prova de que a música extrema poderia ter a mesma grandiosidade estrutural que qualquer outra forma de expressão artística. Para quem o descobre hoje, é um ponto de chegada que rapidamente se torna ponto de partida. Trinta e três anos é tempo suficiente para perceber que não foi um acidente. Foi um pacto, como o próprio título sugeria.


