MINISTRY

MINISTRY: Novo (e último!) álbum, «Hate To Go (Take Out Or Delivery)», para ouvir na íntegra [review + streaming]

Os MINISTRY despedem-se de mau humor, e ainda bem. Em «Hate To Go (Take Out Or Delivery)», Al Jourgensen fecha a porta com a mesma fúria com que a abriu, desta vez a sério, garante ele

Já o tínhamos ouvido jurar que era o fim, e mais do que uma vez. Em 2007, «The Last Sucker» vinha anunciado com o epitáfio no título. Seis anos depois, «From Beer To Eternity» foi apresentado como o derradeiro capítulo, um disco marcado pela morte em palco do guitarrista Mike Scaccia, em 2012. Ambas as despedidas foram desmentidas pelo calendário. Quem aposta contra o regresso de Al Jourgensen costuma perder dinheiro.

Desta vez, porém, o próprio parece ter fechado todas as saídas. Ao declarar o fim do projecto, não deixa qualquer margem para as interpretações generosas que vos possam estar a passar agora pela cabeça: “Acabei, porra.” É difícil encontrar na afirmação uma zona cinzenta. E é nesta conjuntura que chega o 17.º álbum dos MINISTRY, «Hate To Go (Take Out Or Delivery)», título que ironiza com o balcão de takeaway e com a entrega ao domicílio, como se o fim da banda fosse mais um serviço despachado com urgência.

Convém dizê-lo sem rodeios: os MINISTRY nunca foram uma banda de meios-tons, e este disco não pretende emendar-lhes a mão. A ira, que há quatro décadas serve de combustível a Al Jourgensen, continua apontada aos mesmíssimos alvos, mas agora com a actualidade a servir-lhe munições em abundância. Os títulos dizem quase tudo. «Voices Of Hate» e «We Hate» dispensam interpretação, e é na soma de ambos que o álbum encontra o seu tom dominante.

Há também retratos de alvos concretos: «Clown Car» e «Grifter» dirigem-se ao actual líder do país de Al Jourgensen, enquanto «Delete» olha para as redes sociais e «Singularity» para o pesadelo distópico da inteligência artificial. O catálogo de agravos mais denso surge em «Burned Out», que enumera a guerra, os ficheiros Epstein, a ICE e a crise climática, como quem passa em revista o noticiário de uma semana má.

O tema podia soar a rendição, a lista de quem se cansou de gritar, mas não soa. Tem pulso, tem riff e, acima de tudo, tem andamento. É um tema que se ouve a querer bater em alguma coisa, o que, vindo de uma banda com esta história, é a melhor forma de resistência.

Musicalmente, «Hate To Go» recorre a tudo o que sempre definiu os MINISTRY: samples de discursos a servir de contraponto, riffs de matriz thrash e o latido inconfundível de Al Jourgensen, que continua a parecer menos um cantor do que um orador de comício no limite da rouquidão. Nada disto é novidade, e seria desonesto fingir o contrário. A virtude do disco está na convicção com que estes elementos são rearrumados.

«Voices Of Hate»» caberia sem esforço em discos como «The Mind Is A Terrible Thing To Taste» ou «Psalm 69», aqueles que são os dois pilares de uma discografia que, entre 1989 e 1992, reconfigurou aquilo a que se chamava metal industrial. Já «Clown Car» cruza linhagens que sempre conviveram bem no universo dos MINISTRY: o pós-punk sombrio dos KILLING JOKE, influência assumida de longa data, e a velocidade dos SLAYER, com uma pitada de hardcore clássico a dar nervo ao conjunto.

Mesmo num disco que é, por princípio, território sem convidados, há, no entanto, uma excepção, e é daquelas que valem a pena. Em «We’re Still Here», surge Paul Barker, baixista e figura central da formação nos anos de ouro do grupo, aqueles em que os MINISTRY se tornaram uma referência incontornável. A participação funciona como uma passagem de testemunho às avessas, em que o passado regressa para ajudar a fechar o presente.

O resultado é um dos momentos mais surpreendentes do LP. Concebido como um último gesto de desafio, o tema acaba por ser surpreendentemente comovente, um adeus sem lágrimas fáceis a 45 anos de uma carreira muito turbulenta e, para quem a seguiu de perto, brilhante. É raro uma banda que faz música tão ruídosa e furiosa conseguir despedir-se com dignidade, e mais raro ainda fazê-lo sem sentimentalismo como é o caso dos MINISTRY.

Os discos de despedida têm uma estranha tradição: ou chegam demasiado cedo, quando a banda ainda tinha para algo para dar, ou demasiado tarde, quando os músicos já só repetem o que fizeram melhor. Nesse aspecto, os MINISTRY até são um caso raro, o de uma banda que se despediu duas vezes e voltou outras tantas, e que só agora parece ter chegado por fim a um ponto de equilíbrio entre o desgaste e a inspiração.

Há ainda uma questão menos óbvia. Num tempo em que as despedidas se transformaram facilmente em produtos de marketing, com digressões que se prolongam durante anos, a opção de Jourgensen por um disco seco, sem convidados e sem concessões soa quase a recusa de dar espectáculo. Pode ser, de facto, a última vez. Pode não ser. Mas, se for, o homem que em 1981 começou por fazer pop sintético em Chicago e acabou por inventar uma das linguagens mais agressivas do rock sai de cena a fazer aquilo que sempre fez melhor: incomodar.

MINISTRY, «Hate To Go (Take Out Or Delivery)»