Quinze anos depois de «Satanic Royalty», os MIDNIGHT continuam a provar que a sujidade também pode ser uma forma de rigor.
MIDNIGHT! Desta vez não começo no chão da sala. Começo no WC, de joelhos, por motivos que vou explicar já a seguir, e que não têm nada a ver com devoção religiosa apesar do disco de hoje insistir nessa linguagem. A garrafa de cerveja barata — porque hoje não é noite de espirituosas, hoje é noite de cerveja quente e suja, à imagem e semelhança do que vou ouvir — está pousada na borda da minha banheira, perigosamente perto de cair, tal como eu.
Ponho «Satanic Attack Live!» a tocar através de uma coluna bluetooth que, surpreendentemente, ainda tem bateria, e a primeira coisa que penso, antes mesmo de «Unholy And Rotten» acabar de abrir os portões do inferno, é: isto não devia soar bem através de um altifalante de plástico barato dentro de uma casa de banho com eco. E, no entanto, soa. Soa perfeitamente mal, que é como os MIDNIGHT sempre quiseram soar.
Saio da casa de banho a cambalear, cerveja em punho, assim que «Evil Like A Knife» entra com aquele ritmo punk inconfundível que desagua naturalmente em «Satanic Royalty» — o hino, a canção mais importante da carreira desta gente, pura atitude sem um travão. Atiro-me ao chão da sala com um entusiasmo que não é propriamente elegante, derramando um terço da cerveja no tapete, e penso: há quinze anos que o disco original existe e eu só agora o estou a celebrar devidamente, de barriga no chão, como manda a tradição do género.
A vizinha do terceiro direito bate na parede com uma força que hoje até parece ritmicamente sincronizada com a bateria. Por instantes, considero seriamente convidá-la a entrar. Decido que não, porque esta noite é uma celebração estritamente pessoal, quase monástica na sua devoção ao caos.
«You Can’t Stop Steel» chega como um rolo compressor de riffs à boa maneira da NWOBHM, mas encharcado em blasfémia e em agressão, e eu, já sem grande controlo sobre os meus próprios movimentos, começo a bater com os pés no chão num padrão que só faz sentido dentro da minha cabeça. Segue-se «Rip This Hell», do tipo de canção que torna quase inevitável encontrar-se no meio de um mosh pit — e aqui, sozinho num apartamento de Lisboa, crio o meu próprio pit pessoal, que consiste em rodopiar perigosamente perto da mesa de centro.
«Necromania» escurece tudo ainda mais, um dos momentos mais pesados e sombrios do disco, e eu aproveito a ligeira quebra de ritmo que chega a seguir com «Black Damnation» para recuperar o fôlego e ir buscar mais uma cerveja — desta vez da cozinha, e não da banheira, porque até eu tenho limites, só que esses limites chegam tarde.
A segunda metade do disco/concerto abre com «Lust Filth And Sleaze», que cumpre tudo o que promete no título, tem um groove porco e agressivo que combina incomodamente bem com o estado em que a minha sala se encontra — latas vazias, uma almofada no chão sem razão aparente, e eu a cantar mal por cima de tudo isto.
«Violence On Violence» dispara logo a seguir, dois minutos de pura fúria black’n’roll, e «Savage Dominance» mantém essa mesma energia, esse mesmo ruído, essa mesma violência a correr sem travão, até eu próprio me sentir em estado de frenesim absoluto — um estado que partilho, imagino, com o público que esteve fisicamente presente nestas duas noites esgotadas em Los Angeles e que eu, aqui, tento recriar sozinho com resultados mistos.
«Holocausting Deafening» ataca de forma curta e viciosa, com mudanças de tempo que me obrigam a prestar atenção real, coisa rara a esta hora, antes de «Shock Til Blood» chegar como uma dose legítima de speed metal oitentista. E depois temos «T.A.P.», apresentada pelo próprio Athenar, uma versão dos Black Ax que os MIDNIGHT tornam completamente sua através de um riff tão pesado e direto que sinto o impacto fisicamente, mesmo sem estar presente naquela sala de Hollywood.
Pesquiso no telemóvel “voos Lisboa Los Angeles outubro” com a convicção passageira de que ainda vou a tempo de apanhar uma destas noites. Lembro-me, com alívio e desilusão em partes iguais, que o concerto já aconteceu há meses. A cerveja, mais uma vez, concorda comigo sobre tudo, mesmo quando a lógica discorda.
«Fucking Speed And Darkness» chega frenética e brilhante, um momento feito especialmente para quem gosta de NWOBHM, e eu já nem finjo estar sentado — estou deitado de costas no chão, cerveja equilibrada precariamente sobre o peito, a olhar para o teto como se ele fosse uma espécie de ecrã onde projeto mentalmente o concerto que nunca vi ao vivo. «F.O.A.L.» fecha tudo da forma mais caoticamente apropriada possível: speed metal de manual, atitude a mais, sujidade que se recusa a pedir desculpa por existir.
Lisboa, lá fora, continua a sua rotina silenciosa, sem fazer ideia de que, algures num apartamento qualquer, um homem acabou de recriar, com recursos limitados e dignidade ainda mais limitada, uma celebração de quinze anos de black’n’roll suado e sem filtros. Levanto-me, finalmente, cambaleante, e penso que talvez esta não tenha sido a noite mais digna da rubrica até agora.
Mas também — e isto parece-me importante dizer — talvez seja exactamente essa falta de dignidade o tributo mais honesto que podia prestar a um disco que nunca quis ser outra coisa senão sujo, alto e sem desculpas.






