TONY IOMMI

METAL GONZO | TONY IOMMI: 79 anos, e nós ajoelhados perante o RIFF original

«From The Dark» prova que IOMMI continua a escrever riffs melhores do que a maioria de nós consegue sonhar.

Já passa outra vez das três da manhã, mas desta vez há qualquer coisa de diferente no ar — uma espécie de reverência que não costumo trazer para o chão da sala. Ainda menos numa sexta à noite. A garrafa está ali, claro, fiel como sempre, desta vez cheia de um whisky que comprei especialmente para a ocasião, porque algumas noites exigem um mínimo de cerimónia. Ponho «From The Dark» a tocar e penso, antes sequer da primeira nota soar: isto não é só mais um disco.

Isto é Tony Iommi. O homem que, com um acidente de fábrica que lhe afectou dois dedos, decidiu inventar um género musical inteiro só para provar que a dor também pode ter groove. Sinto-me quase indigno de estar aqui sentado no chão a ouvir isto meio embriagado. Mas sigo em frente; «Over The Violent Sun» abre o disco e eu, instintivamente, endireito-me — o corpo todo se recompõe, como se estivesse na presença de alguém importante, o que, convenhamos, é exatamente o caso.

O riff chega pesado, pendular, de alta definição, e por cima dele a voz do norueguês Jørn Lande paira com uma soberania que me faz pousar o copo devagar, com cuidado, como quem não quer interromper a missa. Percebo rapidamente que este não vai ser o LP fuzzy e sujo a remeter para a era Ozzy que talvez estivesse à espera lá no fundo da memória.

Na verdade, isto aproxima-se mais da grandiosidade operática da era Dio — e faz sentido, percebo entre um gole e outro, porque Jørn chegou a Iommi precisamente através dos HEAVEN & HELL, a substituir o insubstituível depois da morte de RJD. Há ali uma genealogia de peso a tocar nesta sala, e eu, no chão, sinto-me um elo demasiado pequeno e demasiado bêbado dessa corrente.

«Black Times» abranda o passo, torna-se mais dramática, mais tristonha nas melodias, e há um solo de guitarra do próprio Iommi que emerge de um nevoeiro de psicadelismo bruto como se estivesse a sair de dentro da terra. Fico siderado — não é modo de dizer, fico mesmo siderado, copo parado a meio caminho, outra vez, coisa que já devia ter deixado de ser surpresa nestas crónicas, mas continua a sê-lo sempre que a música merece.

Pesquiso no telemóvel, com aquela urgência típica de quem bebeu o suficiente para achar tudo fascinante, “Karl Brazil baterista Robbie Williams”. Confirma-se — o homem que agora martela os tambores atrás de Iommi vem de uma tradição pop improvável, James Blunt incluído, e ainda assim, já em «Over The Violent Sun», ficou claro que percebe exatamente a quantidade certa de aço rítmico que estas canções exigem.

Há qualquer coisa de poético nisto, penso eu, já com a lógica a ficar porosa: às vezes o talento vem de sítios que não esperamos, tipo eu próprio a escrever crítica musical no chão de uma sala.

«World Alone» chega como um murro negro e infeccioso, um groove irresistível que me obriga a levantar — outra vez, já é hábito, o meu pescoço amanhã vai apresentar queixa formal — e a abanar a cabeça com aquele entusiasmo descoordenado que só o vinho, ou neste caso o whisky, consegue produzir com honestidade. Logo a seguir, «Beyond The Dead» leva-me por um passeio nocturno e assombrado por entre campas sombrias, com Lande a rasgar a tensão com um urro teatral que soa a machete bem manejada.

A vizinha do terceiro direito bate na parede. Desta vez não me sinto culpado. Desta vez, sinto que devia estar grata por ouvir, ainda que contra vontade, um pedaço de história em movimento.

Chega «Stormwatcher», e aqui, confesso, atinjo um pico de felicidade etílica quase embaraçoso. É uma colagem refinada de riffs clássicos de Iommi, entregues com entusiasmo carismático por toda a gente envolvida, e amarrada à parede por outro desempenho vocal extraordinário de Jørn Lande. Tento explicar a mim mesmo, em voz alta, sozinho na sala, por que razão aquele acorde específico me faz sentir desta maneira. Não consigo. A explicação dissolve-se a meio da frase, como sempre acontece quando se tenta verbalizar algo que só o corpo entende.

«Death Wake» torce os blues para fins decididamente perversos, com sequências de acordes que só podiam vir de um único homem no mundo, e crescendos vastos e esmagadores que explodem como detonações infernais vindas de criptas subterrâneas. Nessa altura já nem tento manter a compostura. Ergo o copo sozinho, num brinde que ninguém vê, a um septuagenário que continua a produzir riffs capazes de me pôr de pé a meio da noite.

Preciso de pesquisar o que é um “arbalist”. Descubro que é um homem armado com uma besta medieval, e sinto-me mais culto e mais ridículo do que estava há cinco minutos — uma combinação que só acontece a estas horas. «Return Of The Arbalist» bate e retumba como um leftover perdido de «Cross Purposes», com doses enormes e sufocantes de ADN diabólico tecidas no seu tecido áspero. Lisboa continua lá fora, silenciosa, completamente alheia ao facto de que, nesta sala, um homem embriagado está a ter uma espécie de experiência quase religiosa por causa de um disco de heavy metal.

E depois chega «Legacy», a faixa final, e o título não podia ser mais apropriado, mais cirurgicamente colocado. É uma peça soberba, lânguida, carregada de tensão, linda e cheia de alma, com Jørn Lande a escalar oitavas com a facilidade de um mestre, enquanto sinos de igreja distantes acrescentam uma camada extra de intriga sinistra. Fico sentado, completamente imóvel, pela primeira vez esta noite. Não bebo. Não me mexo. Só oiço.

Há uma frase que me ocorre, confusa mas sincera, algures entre o álcool e a reverência: Tony Iommi inventou o heavy metal, e eu, aqui, não sou ninguém para duvidar disso. Ele vai fazer 79 anos para o ano. Continua a produzir riffs capazes de esmagar crânios, melodias das mais sombrias, e mais energia do que qualquer um de nós tem o direito de esperar de um homem com a idade dele — e mais do que eu, honestamente, tenho esta noite, depois de tudo o que bebi.

Quando a música acaba, fico ali, no chão, a olhar para o tecto outra vez, só que desta vez não é vergonha que sinto. É qualquer coisa parecida com gratidão. Porque há noites que são só trabalho, e há esta — em que um velho guitarrista de Birmingham me lembrou, já perto das quatro da manhã, porque é que comecei a ouvir isto tudo em primeiro lugar.

Hail Iommi. Sempre.