«Mið» não reinventa os ENSLAVED — apenas lembra porque é que ninguém, a esta altura, devia continuar a duvidar deles.
É de madrugada, nem sei bem que horas são e a garrafa já vai a meio, mas eu começo este texto com uma certeza rara: sei, mesmo antes de carregar no botão de play, que não vou ficar desiludido. Há bandas que nos obrigam a rezar para que o álbum novo preste. Mas os ENSLAVED não são um desses casos. Com os ENSLAVED a oração é outra: que ru tenha fígado suficiente para aguentar mais uma obra-prima sem me desfazer em lágrimas no chão da sala.
Ponho «Mið» a tocar com aquela confiança perigosa de quem perdeu a conta aos discos que esta gente lançou sem nunca tropeçar. Trinta e dois anos de carreira, dezassete álbuns, e eu aqui, sentado, a pensar: será desta que escorregam? A resposta, já adianto, é não. Nunca é.
A faixa de abertura chama-se «Non-Being», e há algo de cruelmente apropriado nisso, porque é exactamente o que sinto durante o primeiro minuto — deixo de existir enquanto pessoa funcional e transformo-me só em ouvido. Os blastbeats ferozes continuam lá, os riffs continuam a cortar como sempre cortaram, mas há qualquer coisa de novo a espreitar sorrateiramente ali por baixo — um desvio quase fantasmagórico, como se os ENSLAVED tivessem decidido atravessar planícies enluaradas e assombradas só para me confundir propositadamente.
Bebo mais um gole, tento recompor-me, falho. A vizinha do terceiro direito ainda não bateu na parede, o que é suspeito — ou está a ouvir o mesmo disco, ou desistiu definitivamente de mim. Prefiro acreditar na primeira hipótese.
«I Am Ice» toca a seguir e eu, convenientemente, sinto um arrepio que juro não ter nada a ver com o ar condicionado desligado. É que há ali linhas vocais limpas e nebulosas a flutuar por cima de acordes melancólicos que mudam de forma como o gelo a rachar debaixo dos pés, e eu começo a desconfiar que esta banda tem um pacto qualquer com o clima nórdico que lhes permite exportá-lo diretamente para a minha sala em Lisboa, sem aviso prévio.
Pesquiso no telemóvel “voos baratos para a Noruega”. Não finalizo a compra. Mas o impulso é genuíno, nascido algures entre esta canção e a seguinte, «Mountain», onde o baterista Iver Sandøy assume a voz melódica que desliza por uma paisagem bem gelada enquanto sintetizadores mutantes colidem com o que soa a placas tectónicas a ranger lá ao fundo. Quando entra um riff enorme a interromper aquela loucura hipnótica, é como mergulhar de cabeça num lago gelado — e eu, metaforicamente, mergulho com ela, copo na mão e tudo.
Chegamos a «Parting», e aqui rendo-me de vez. É bonita de uma forma que quase dói, desorientadora e serena ao mesmo tempo, como se os ENSLAVED estivessem literalmente a falar através da paisagem, ou talvez com ela — já não distingo bem, e a esta hora da noite também já não me interessa muito distinguir. Fico ali, imóvel, a ouvir percussão hipnótica e vozes que parecem vir de algum lugar anterior à própria linguagem.
É o ponto mais arrebatador do disco, e eu sei-o com a certeza turva de quem já não confia em mais nada esta noite, excepto nisto.
Segue-se «Tales Of Trees», que soa construída sobre vagas de discórdia elevada, apoiada naquela combinação já reconhecível de panache de rock progressivo e vitalidade vikingue que esta gente patenteou há muito. Há rajadas de trovão metálico a interromper o fluxo, mas sempre com uma atenção quase devota à manutenção da atmosfera — como se nada, nem mesmo o caos, pudesse ser deixado ao acaso.
E depois, no fecho, «I Miðju» traz Grutle Kjellson e Sandøy a cantar em dueto de uma forma tão natural que chega a doer um bocadinho — os acordes brandidos como foices contra os ventos uivantes, um solo breve de guitarra a explodir no meio de tudo como uma mensagem vinda de um passado distante. Lisboa continua lá fora, silenciosa, completamente alheia ao facto de que, nesta sala, alguém está a ter uma pequena crise mística por causa de uma banda norueguesa.
Acabou o disco. A garrafa está mais vazia do que devia, e eu fico ali, sentado, a tentar perceber se consegui mesmo “analisar” isto com algum rigor ou se só me deixei arrastar, mais uma vez, pela correnteza. Provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo — e talvez seja precisamente essa a única forma honesta de ouvir os ENSLAVED. Dezassete discos, e nem um deslize. Caramba, esta gente fez algo que devia ser estatisticamente impossível.






