MARK LANEGAN

MARK LANEGAN: “Has God Seen My Shadow?” [25.11.1964 – 22.02.2022]

Perdemos o último dos grandes cantores de Seattle há dois anos. Hoje, debruçamo-nos sobre o percurso e legado do grande MARK LANEGAN.

A notícia caiu com estrondo e alguns de nós continuam a tentar processá-la dois anos depois. A forma como muitos sentimos a voz de Mark Lanegan leva-nos a dizer que, na verdade, não morreu. Não pode, é imortal e nunca morrerá. Mas é precisamente a sua mortalidade e fragilidade que tanto nos atrai, num jogo de sedução com a morte que a desafia e dela se desvia no último momento, aquele em que a cruel ceifeira lançava a sua foice.

Num pequeno passo, fugia do seu alcance e esboçava um ligeiro sorriso de troça na sua cara, mas também não lhe resistia ao ponto de ficar longe dela. Lanegan chegava-se o mais perto possível do precipício e voltava para nos contar como era estar tão perto do fim, naquele momento em que a terra e as pedras cedem por baixo dos seus pés.

E fazia-o com uma mestria ímpar, tanto na forma como no conteúdo, pois além da voz era um letrista de rara sensibilidade poética. As suas letras valem por si, despidas da música e voz que as veste, como fica demonstrado na colectânea «I Am The Wolf, Lyrics And Writings» [Da Capo Press, 2017]. Mas a voz é eterna. Até já existia antes de Mark William Lanegan ter nascido a 25 de Novembro de 1964.

É como o som das ondas a bater nas rochas da falésia, da chuva que cai na copa das árvores. Estranho como um som tão humano acaba por parecer pertencer à natureza e aos seus elementos.

Mark Lanegan foi o vocalista e um dos fundadores dos Screaming Trees em 1984, com os irmãos Gary Lee Conner e Van Conner, uma das bandas mais interessantes do movimento grunge. Nunca tendo chegado aos níveis de popularidade de outros pares, como Nirvana ou Soundgarden, cedo se tornaram num segredo bem guardado da cena, que os fãs acarinhavam como um tesouro impoluto da excessiva atenção vampírica que a imprensa e indústria deram a tudo o que surgia de Seattle e nos seus arredores.

Quando os Nirvana lançaram o «Nevermind», os Screaming Trees já tinham contrato com a Epic Records e lançado «Uncle Anesthesia» em Janeiro daquele ano de 1991 em que tudo mudou. Produzido por Terry Date e Chris Cornell, não teve o impacto esperado, mas o disco seguinte, «Sweet Oblivion», foi o grande sucesso da carreira dos Screaming Trees, com o mundo já muito mais receptivo a tudo a que fosse colada a etiqueta de grunge. O single «Nearly Lost You» apareceu na banda-sonora do filme Singles, de Cameron Crowe, que incluía ainda Alice In Chains, Soundgarden, Mudhoney e muitos outros, tendo-se tornado na mais célebre canção dos Screaming Trees.

Ainda durante o período de actividade da banda, Mark Lanegan tinha embarcado numa carreira a solo, com «The Winding Sheet» a sair pela Sub Pop em 1990. Kurt Cobain e Krist Novoselic dos Nirvana surgem como convidados e inspiraram-se neste álbum para a sua aparição no MTV Unplugged em 1993, chegando mesmo a tocar uma versão do arranjo de Lanegan para o clássico de Lead Belly «Where Did You Sleep Last Night». Dave Grohl considera até «The Winding Sheet» um dos melhores discos de sempre.

Em 1994 sai «Whiskey For The Holy Ghost», um disco que demorou quatro anos a fazer e que quase não viu a luz do dia. Depois de uma digressão europeia dos Screaming Trees, quando Mark Lanegan já era heroinómano, a sua namorada deixa-o e fica entregue aos seus vícios e à obsessão por este disco. Numa sessão de misturas com Jack Endino, Lanegan achou que faltava a uma das canções algo que tinha na primeira demo, e durante dois dias tentaram tudo que podiam para encontrar aquele espírito da canção.

Em silêncio, Lanegan começou a empilhar as caixas com rolos de fita com anos de trabalho e sai do estúdio em direcção ao rio, disposto a afogar o disco. Endino impediu-o, garantindo que estava ali um trabalho de grande beleza e que iriam encontrar o problema. Enquanto Lanegan dormia, coisa que não fazia há vários dias, ouvia a canção em repeat nos seus sonhos e Jack Endino encontrou o problema, que corrigiu, e a canção ficou como Mark Lanegan a idealizava.

Embora não identifique qual a canção, esta história e muitas outras estão contadas em detalhe no livro «Sing Backwards and Weep» [Hachette Books, 2020], um fascinante relato do seu percurso de vida, escrito de forma brutalmente honesta e cândida. Conta as suas experiências sem as glamorizar, muito pelo contrário, sentimos um arrepio na espinha a cada linha.

Uma cena em que estão na mesma casa Lanegan, Dylan Carlson (dos Earth), Layne Staley e Kurt Cobain a consumir fica-nos gravada na memória de forma trágica, com tanto talento junto e que tão cedo nos deixou, com tanto por concretizar. Nos anos 50 tivemos a geração beat, com nomes como Ginsberg, Corso, Kerouac ou Burroughs, mas esta geração fica também na história, tanto da música como da poesia.

A carreira a solo de Lanegan continuou, em nome próprio ou como Mark Lanegan Band, e destacam-se os discos «Bubblegum» (2004) e «Blues Funeral» (2012), mas a sua notoriedade foi ampliada pela colaboração com os Queens Of The Stone Age.

Josh Homme já tinha sido guitarrista de sessão numa tournée dos Screaming Trees em 1996 e mais tarde convidou-o para cantar em alguns temas de «Rated R», álbum de 2000 que foi o primeiro sucesso comercial da banda de Homme, tendo continuado a sua participação, com maior ou menor preponderância, até «…Like Clockwork» em 2013.

Mark Lanegan manteve-se sempre muito activo em colaborações com outros músicos, destacando-se The Gutter Twins na companhia de Greg Dulli, e colaborações com Isobel Campbell dos Belle & Sebastian, com os Soulsavers (onde agora está Dave Gahan, dos Depeche Mode), Moby, Earth, Cult Of Luna ou os “nossos” Dead Combo, com quem actuou no festival Paredes de Coura e no Coliseu dos Recreios.

O seu último trabalho foi Dark Mark & Skeleton Joe em 2021. Mas talvez a mais marcante colaboração, e aqui falo de uma opinião pessoal, tenha sido com os Mad Season, o ilustre colectivo de Seattle em que partilhou o lugar de vocalista com Layne Staley.

Em 2020, quando começou a pandemia, Mark Lanegan vendeu a sua casa em Los Angeles e planeava vir viver para Portugal. Contudo, com a suspensão dos voos, em Agosto de 2020 só conseguiu voar para Dublin, tendo programado cumprir lá um período de quarentena até poder voar para Portugal. O tempo foi passando e um amigo tinha uma casa vazia em Kerry, no sudoeste da Irlanda, onde o convidou a ficar. Impressionado com a beleza natural da região, decidiu ficar a viver lá.

Acabou por ficar infectado com COVID-19 e esteve nos cuidados intensivos, com um longo período de coma, estados de semiconsciência, paranoia e insónia que deixavam poucas esperanças de sobrevivência. Mas sobreviveu e contou essa experiência em «Devil In A Coma» [Hachette Books, 2021], mais um triunfo na dança que tem feito com a morte desde muito cedo. Ontem, essa dança teve outro, inevitável, desfecho e deixa-nos um vazio impreenchível.