KRISIUN

KRISIUN @ LX EXTREME, RCA Club, Lisboa | 12.06.2026 [reportagem]

A edição de 2026 do festival LX EXTREME arrancou em força no RCA Club com os SKINNING, TVMVLO, UNDERSAVE e KRISIUN numa noite que provou por que razão o underground nunca morre.

Lisboa, 12 de Junho. Lá fora, a cidade ardia — mas de papel colorido, cheiro a sardinha assada e o rufar distante das marchas populares. Era a noite de Santo António, o arraial maior da capital, e as ruas de Alfama, da Mouraria e do Intendente transbordavam de gente, copos de vinho e promessas de Verão. Em Alvalade, dentro do RCA Club, havia uma outra celebração a tomar forma — mais escura, mais pesada, igualmente fervorosa. Duas Lisboas, uma mesma noite.

Organizado pela Notredame Productions, o LX Extreme escolheu bem a data para o início da sua segunda edição: há qualquer coisa de apropriado em opor ao ritual popular mais enraizado da cidade um ritual de outra ordem, o do death metal, com os seus próprios códigos, a sua própria comunidade e a sua própria liturgia. Quatro bandas, quatro abordagens distintas ao género, um único fio condutor — e a convicção inabalável de que este é um género que exige tudo de quem o pratica e de quem o escuta.

Às 19:30, com a sala ainda bastante despida, soaram os primeiros acordes da noite. E Santo António que se entendesse com o que viesse a seguir.

O trio vimaranense SKINNING tinha dois problemas logo à partida: o horário, com muita gente ainda a caminho ou a comer qualquer coisa depois de ter saído do emprego, e a sala a aquecer. Problemas que resolveram da única forma que conhecem — mergulhando de cabeça numa actuação suada, mas algo inconsistente. «Sadistic Butcher» abriu o alinhamento sem cerimónia, seguida de imediato por «The Gravedigger», e o tom ficou estabelecido: sem apresentações, sem conversa, sem espaços mortos.

«Wrong Path» e «Homicidal Experimentations» fecharam uma passagem que não durou mais do que tinha de durar, com os aplausos da sala a confirmarem o óbvio: apesar de alguma falta de coesão a nível da bateria, os SKINNING continuam a ser uma referência muitíssimo respeitável no underground luso, independentemente dos calendários discográficos.

Se há banda no death metal português capaz de arrastar seguidores de norte a sul sem depender de holofotes mediáticos, essa banda chama-se TVMVLO. Os viseenses têm estabelecido uma espécie de núcleo duro de seguidores que fazem quilómetros para os ver — caras reconhecíveis que aparecem concerto após concerto, como se houvesse um pacto tácito entre eles e a banda. E o António Baptista, vocalista e figura central do grupo, não deixou passar a ocasião sem o reconhecer. O agradecimento foi genuíno, sem afectação, e a sala correspondeu com o calor que só os incondicionais oferecem.

A partir daí os TVMVLO não deram tréguas. Apoiados num OSDM irrepreensível, foi «Portals Of Terror», o álbum de 2024, que forneceu grande parte da espinha dorsal do alinhamento. O disco, aclamado desde que saiu, soa ainda mais sólido ao vivo: o material ganha mais peso e textura quando amplificado e posto a circular numa sala de espectáculos. Lisboa, como se sabe, sempre tem recebido bem os TVMVLO. E esta vez não foi uma excepção — o mosh pit animou-se e disse tudo o que havia a dizer sobre a relação entre a banda e o seu público.

Entre os TVMVLO e os KRISIUN, coube aos UNDERSAVE o papel de fazerem a ponte — e fizeram-no bem, com uma segurança que poucos quartetos nacionais conseguiriam replicar naquele contexto. O grupo de Lisboa/Loures, activo desde meados dos anos 2000, é hoje um dos exemplos mais sólidos de death metal técnico e contemporâneo em Portugal, confirmaram plenamente o seu estatudo.

De todas as bandas nacionais que subiram ao palco nesta noite, foram os que apresentaram o set mais coeso desta noite e mantiveram a sala atenta e comprometida do primeiro ao último compasso. Os fãs responderam com entusiasmo genuíno, reconhecendo numa banda que não precisa de exibicionismos para convencer: os UNDERSAVE sabem exactamente o que são e o que fazem, e isso, ao vivo, nota-se.

Há concertos em que a antecipação é ela própria uma forma de prazer. O regresso dos KRISIUN a Lisboa tinha precisamente essa qualidade — e os irmãos Moyses e Max Koslene, este último aniversariante no dia do espectáculo, juntamente com o baixista Alex Camargo, sabiam-no, claro. Bandas que regressam a determinadas cidades com a regularidade com que os KRISIUN regressam a Lisboa desenvolvem uma relação com o público que ultrapassa a mera actuação ao vivo. É quase familiar.

Como seria de esperar, o RCA Club estava bem quente — no sentido mais literal do termo — quando o trio brasileiro subiu a palco. Mas se havia desconforto físico, ficou rapidamente esquecido. O alinhamento funcionou como um exercício de arqueologia: «Kings Of Killing» e «Apocalyptic Revelation», ambas de um já longínquo 1998, abriram esta noite com a frieza calculada de quem sabe que certos temas nunca envelhecem.

«Vicious Wrath», do álbum «Assasination», de 2006, surgiu a meio como um bloco de granito — pesada, insistente, implacável. Depois, do mais recente «Mortem Solis» chegaram «Necronomical» e a «Serpent Messiah», esta antecedida por um solo de bateria e depois por um duo de solos de guitarra dos irmãos Koslene que funcionou como prelúdio ao caos controlado que se seguiu.

O momento mais intenso da noite acabou por ficar reservado para o fim: «Descending Abomination» encerrou o concerto com o público a gritar o nome da banda em uníssono, num daqueles instantes em que o death metal mais brutal se confunde, estranhamente, com algo parecido com comunhão. Durante toda a actuação, e como já vem sendo habitual, os KRISIUN não pouparam nos agradecimentos — houve discursos de irmandade entre Portugal e Brasil que poderiam soar a protocolo, mas que naquele contexto soaram a verdade.

Quarenta anos de estrada são quarenta anos de estrada. Há bandas que chegam a esse ponto e mostram os sinais de desgaste. Mas os KRISIUN não são uma delas.

Aliás, uma noite como esta — quatro bandas, sala bem composta numa das noites mais concorridas do calendário lisboeta, público comprometido, som limpo, alinhamentos sem gordura — é o retrato de uma cena underground que não precisa de validação exterior para funcionar. Enquanto a cidade festejava o seu santo padroeiro com manjericos e papel picado, outra festa acontecia à porta fechada, com outro tipo de devoção.

Fotos: João Luís | @the.goldenrush