Depois dos NAILS, EXODUS e CARCASS aquecerem o terreno com actuações intensas, Mille Petrozza e os seus KREATOR transformam a Sala Tejo, em Lisboa, num inferno controlado.
Não há como negá-lo, e nem vale a pena tentar. A nostalgia e a longevidade continuam a ser um dos valores mais respeitados dentro do universo do metal, e a noite desta sexta-feira na Sala Tejo da MEO Arena, em Lisboa, serviu como prova disso mesmo. Mais que um simples alinhamento de quatro bandas, o que se viveu foi uma celebração de persistência, identidade e relevância — atributos que nem todos conseguem preservar ao longo de décadas.
No topo dessa hierarquia estiveram, claro, os KREATOR, que deram início à sua nova digressão europeia com um concerto que confirmou o porquê de continuarem a ser uma força central no género. Talvez um pouco menos thrash, é certo, mas, ainda assim, uma proposta incrivelmente coesa, que acaba por revelar uma solidez só ao alcance de bandas com décadas de carreira.
Antes disso, porém, a noite construiu-se de forma gradual, com três actuações de abertura que, longe de cumprirem apenas um papel funcional, ajudaram a definir o tom do que viria a seguir. Coube aos NAILS a difícil tarefa de inaugurar a noite — e fizeram-no com a intensidade crua que os caracteriza, beneficiando ainda do melhor som de toda a noite.
Com uma abordagem directa, sem concessões, o grupo norte-americano apoiou-se no serrote típico (e encantador do HM-2) para apresentar um set curto, mas extremamente concentrado, onde cada tema surgiu como uma sova aos sentidos. Inabaláveis, nem um pequeno contratempo técnico — com o PA a falhar momentaneamente — pareceu afectar a prestação da banda, que debitou uma das suas habituais micro-descargas sem sequer dar conta do problema, mantendo intacta a ferocidade da execução.
Com ocasionais, mas breves, interacções com a plateia, os músicos liderados por Todd Jones privilegiaram a força da execução, apostando num som compacto e ultra agressivo que rapidamente quebrou qualquer hesitação inicial na plateia. O resultado foi uma actuação sólida e demolidora, que lançou as bases para a escalada de intensidade que se seguiria.
Seguiram-se os EXODUS, responsáveis por introduzir uma dimensão mais clássica e até celebratória ao alinhamento da noite, ainda que com alguns contratempos pelo caminho. Veteranos incontornáveis do thrash da Bay Area, os músicos trouxeram consigo um repertório que atravessa décadas e que continua a encontrar eco junto do público, mas a prestação desta noite na Sala Tejo acabou por ser prejudicada por um som demasiado estridente, que retirou alguma clareza ao impacto das canções.
No dia em que o muito aguardado novo álbum do grupo, o demolidor «Goliath», foi editado, o arranque deu-se com o single «3111», seguido de muito perto pelo clássico «Bonded By Blood», dois golpes muito certeiros que abriram imediatamente o mosh pit. Infelizmente, a partir daqui nem tudo correu de forma irrepreensível. O baterista Tom Hunting mostrou-se algo irregular ao longo da actuação, alegadamente devido ao som em palco, cometendo algumas falhas que, apesar de não comprometerem, deixaram Gary Holt sem conseguir esconder o desagrado perante a situação.
Ainda assim, a resposta do público manteve-se firme, sustentada pela força de temas que fazem parte do ADN do género. Houve espaço para momentos marcantes, como «The Toxic Waltz», que surgiu após um falso arranque com uma breve provocação ao clássico «Raining Blood», dos SLAYER, antes dos músicos retomarem o controlo e levarem a música até ao fim. A fechar, ouviu-se uma demolidora «Strike Of The Beast», garantindo um final intenso apesar das limitações sentidas ao longo da actuação.
Resultado: se os NAILS apostaram no impacto imediato, os EXODUS trouxeram consigo o peso da história — ainda que, nesta noite em particular, nem todos os elementos tenham estado totalmente alinhados para uma execução à altura desse legado.






A transição para os CARCASS trouxe uma mudança de registo que enriqueceu ainda mais a noite — e, desta vez, com resultados particularmente convincentes. Beneficiando de um som muito potente e bem definido, a banda britânica apresentou-se claramente mais inspirada do que na sua última passagem por Lisboa, oferecendo uma actuação segura e inspirada do início ao fim. É certo que estão “velhotes”, isso é inegável, mas como “velhos são os trapos”, será sempre um prazer ver o Bill Steer e o Jeff Walker em palco a tocar death metal de excelência.
Com uma abordagem muito mais técnica e detalhada, a banda apoiou-se um alinhamento sólido, onde a precisão e a fluidez dos temas ganharam especial destaque. Como seria de esperar, percorreram várias fases da sua carreira, com «Unfit For Human Consumption», «Buried Dreams» e «Incarnated Solvent Abuse» a estabelecerer desde cedo um equilíbrio eficaz entre peso e complexidade. «No Love Lost» manteve a intensidade, antes de um segmento que cruzou «Tomorrow Belongs To Nobody» com «Death Certificate», reforçando a vertente mais densa e arrastada do repertório.
Estrategicamente colocada a meio do set, «Dance Of Ixtab (Psychopomp & Circumstance March No. 1 In B)» introduziu uma pausa relativa na agressividade, rapidamente contrariada pelo regresso à brutalidade com as devastadoras «Genital Grinder» e «Exhume To Consume». Já na recta final de uma actuação que acabou por saber a pouco, «Corporal Jigsore Quandary» levou o público ao rubro, e preparou o terreno para o inevitável fecho com «Heartwork», recebida com entusiasmo evidente e digno de um clássico do género.
Este encadeamento de actuações revelou-se particularmente eficaz. Cada banda acrescentou uma camada distinta à experiência global, evitando a monotonia e preparando o terreno para a entrada dos cabeças de cartaz em cena. Quando os alemães subiram ao palco, o público já se encontrava plenamente envolvido, pronto para receber uma atuação que viria a sintetizar, de forma ampliada, muitos dos elementos apresentados ao longo da noite.
Quando a «Run to the Hills», dos IRON MAIDEN, começou a ecoar pela Sala Tejo, funcionou como um verdadeiro chamamento às armas. Pouco depois, o pano de fundo revelava o imponente cenário dos KREATOR, enquanto a introdução de «Sergio Corbucci Is Dead» preparava o público para a descida ao inferno. E foi precisamente essa a sensação quando Mille Petrozza e companhia entraram em palco, com chamas a erguerem-se no ar, jatos de vapor a rasgarem o espaço e uma iluminação dominada por tons vermelhos que conferiam ao espectáculo uma aura quase apocalíptica.
De cada lado do palco, figuras demoníacas observavam, silenciosas, reforçando a componente teatral de uma produção pensada ao detalhe — e, feitas as contas, visualmente o espectáculo foi tão intenso como a nível sónico, com tudo a contribuir para uma experiência coesa, onde música e imagem se completam sem nunca parecerem excessivas.
Durante os cerca de 90 minutos seguintes, os KREATOR mantiveram a Sala Tejo rendida, apostando num alinhamento que cruzou diferentes fases da sua carreira, mas com um foco evidente no novo «Krushers Of The World». A abertura com «Seven Serpents», em estreia ao vivo, deixou desde logo claro que esta digressão traz consigo uma identidade ligeiramente distinta. Seguiram-se «Hail To The Hordes», «Coma Of Souls» e «Enemy Of God», antes de outra estreia ao vivo, «Satanic Anarchy», reforçar o peso do novo material.
Ao longo do concerto, foram, de resto, vários os momentos dedicados ao novo registo, com «Krushers Of The World» e «Loyal To The Grave» — ambas também em estreia absoluta em Lisboa — a surgirem integradas no alinhamento, ao lado de clássicos como «People Of The Lie», «Betrayer», «Hordes Of Chaos (A Necrologue For The Elite)» ou «Phantom Antichrist». Curiosamente, nunca tínhamos sentido os KREATOR tão pouco “thrash” como nesta noite — uma percepção que se deve, muito provavelmente, à forte presença destes temas mais recentes, que apostam numa abordagem mais melódica e antémica.











Ainda assim, foi «Phobia» que deu início aos primeiros grandes coros da noite, enquanto «Enemy Of God» elevou o mosh pit a um nível ainda mais caótico, preparando o terreno para um dos momentos mais emblemáticos: o inevitável wall of death, instigado por Mille Petrozza em total sintonia com a plateia. Como já é habitual, o timoneiro dos KREATOR assumiu o papel de mestre de cerimónias entre temas, comunicando frequentemente com o público e, a dada altura, agradecendo o apoio ao longo de mais de quatro décadas de carreira.
Essa ligação constante à audiência encontrou respaldo numa execução técnica de alto nível, que reforçou a ideia de uns KREATOR em plena forma. O baterista Jürgen “Ventor” Reil, o membro mais veterano, deu show com uma energia e precisão notáveis, sustentando o espectáculo com uma base rítmica implacável. Nas guitarras, Petrozza e Sami Yli-Sirniö demonstraram uma execução rigorosa, debitando riffs cortantes com consistência quase cirúrgica. Já o baixista Frédéric Leclercq, o elemento mais recente da formação, destacou-se pela presença, em constante movimento, contribuindo para a dinâmica visual do concerto.
De forma inteligente, a recta final da actuação confirmou o peso do legado dos KREATOR. Após um breve trecho de «Endless Pain» /quiçá a opção mais questionável da noite), ouviram-se «666 – World Divided», «The Patriarch» e «Violent Revolution», que antecederam o inevitável fecho com a «Pleasure To Kill», numa sequência que funcionou como um resumo da identidade desta gente ao longo das décadas.
No final, tendo em conta um panorama onde muitas bandas históricas vivem sobretudo da nostalgia, os alemães continuam a demonstrar uma vitalidade rara. O concerto desta noite em Lisboa serviu como uma confirmação de que, mais ou menos thrash, mas sempre com mais de quareo décadas anos de carreira às costas, os KREATOR permanecem uma peça fundamental na engrenagem do heavy metal.



