Os nacionais JUNKBREED assinam uma crítica feroz ao ego, à desumanização e às ilusões modernas num vídeo-clip que troca o peso pela ironia sem perder o alvo.
«Misantrophe» é o terceiro single retirado «Sick Of The Scene», o segundo álbum dos JUNKBREED, e aprofunda uma das linhas centrais do disco: a reflexão sobre a alienação humana numa era dominada pela produção incessante, pelo consumo acrítico e pela erosão progressiva da empatia. Musicalmente e conceptualmente, a canção aponta o dedo a uma figura cega pela própria importância, prisioneira de ilusões construídas pelo ego, avançando de forma quase automática em direcção ao vazio. Trata-se de uma crítica directa à hipocrisia, ao poder corrosivo da ambição desmedida e à facilidade com que a mentira passa a ser aceite como verdade absoluta.
Essa inquietação é transportada de forma inegável para o vídeo-clip oficial do tema, que opta por uma abordagem visual deliberadamente menos séria, quase absurda, sem nunca trair o núcleo da mensagem. Verdade seja dita, há já algum tempo que os JUNKBREED procuravam explorar um registo mais leve e um pouco mais irónico, e foi dessa vontade que nasceu este conceito.
No vídeo-clip, que podes ver no player ali em cima, os cinco elementos da banda assumem o papel de protagonistas numa busca aparentemente épica, desencadeada pela descoberta de um mapa de tesouro. O percurso, no entanto, revela-se desprovido de direcção clara ou propósito concreto. Ninguém sabe exactamente o que procura nem para onde se dirige, e é nessa ausência de sentido que reside a força simbólica da narrativa. A viagem torna-se uma metáfora da obsessão por objectivos ilusórios e da tendência colectiva para seguir caminhos sem os questionar.
Esta abordagem dialoga directamente com as inquietações mais amplas que atravessam «Sick Of The Scene». Num tempo em que tudo parece reduzido a produção e consumo, em que quase tudo parece valer mais do que a empatia ou mesmo a vida humana, o disco coloca questões incómodas: quando é que o ser humano deixou de ser humano para se tornar máquina? Onde ficaram os princípios que deram lugar ao egoísmo, ao ódio e à violência? E, no meio desse cenário, que espaço resta para a arte enquanto expressão do sentir?
Nesse sentido, o segundo álbum dos JUNKBREED assume-se como um gesto de ruptura. Um verdadeiro murro na mesa e no estômago, pensado como um grito de revolta contra a desumanização crescente e como uma tentativa consciente de despertar quem ficou pelo caminho. Além disso, «Sick Of The Scene» apresenta uma evolução natural, mas assumidamente corajosa, no som da banda. A base continua a ser a fusão de rock, punk e pós-hardcore, sustentada por uma energia crua e aquela atitude provocadora que sempre fizeram parte do ADN do grupo, mas o resultado é agora mais directo e imediato.
Sem abdicar do caos criativo que os caracteriza, os JUNKBREED optam por experimentar estruturas mais tradicionais, o que acaba por tornar este o disco mais pesado da sua carreira. Nota-se uma maturidade evidente, não como contenção, mas como clareza de intenções e a banda lusa continua a explorar novos territórios sem filtros, desafiando o ouvinte a escutar o álbum com atenção. É nesse exercício que surgem detalhes subtis que revelam o grau de risco e auto-desafio envolvido no processo de criação.
Resultado: com nove faixas, «Sick Of The Scene» não se limita a ser um manifesto contra o conformismo. É um verdadeiro assalto sonoro que reafirma a ideia de que a criatividade e a identidade não só podem, como devem, caminhar lado a lado. O mais recente lançamento dos JUNKBREED foi gravado no estúdio SinWav, com mistura e masterização a cargo de Pedro Mau, e chegou ao público a 10 de Outubro de 2025, através da editora Raging Planet.












