JENNIFER FINCH

As memórias de JENNIFER FINCH, das L7, vão ser publicadas postumamente em Janeiro de 2027

JENNIFER FINCH deixou uma última história para contar — e, ironicamente, essa história só chegará ao público após a sua voz ter-se calado. “Shooting Up And Making Out: A Memoir Of My Life in LA And L7” foi concluído pouco antes da morte da baixista, que faleceu em Julho aos 59 anos, vítima de uma forma agressiva de cancro cerebral.

Jennifer Finch, a baixista das L7, figura fundamental da cena punk rock de Los Angeles e uma das protagonistas do movimento alternativo que explodiu durante os anos 90, terá as suas memórias publicadas postumamente no início do próximo ano. Intitulado Shooting Up and Making Out: A Memoir of My Life in LA and L7, o livro chega às lojas no dia 19 de Janeiro de 2027, através da editora Da Capo. A edição terá 272 páginas em capa dura, embora também estejam previstas versões digitais e audiobook.

Mais do que uma simples autobiografia sobre uma banda que ajudou a redefinir o papel das mulheres no rock pesado, Shooting Up And Making Out… promete ser um retrato frontal e pouco convencional de uma vida vivida nos extremos. Finch escreveu o livro em colaboração com Jeff Alulis ao longo de aproximadamente dois anos, num processo que terminou pouco antes da sua morte, em Julho de 2026.

A publicação assume, por isso, um significado particularmente especial. Não se trata de um projecto reconstruído por terceiros já depois da morte da artista, mas sim de uma obra na qual Jennifer Finch participou directa e activamente, escolhendo as histórias, as palavras e a perspectiva através da qual queria ser recordada.

Jeff Alulis, que acompanhou Finch durante todo o processo, explica que o livro foi mesmo o último grande projecto que a baixista conseguiu concluir. Segundo o co-autor, os dois trabalharam durante dois anos para garantir que Jennifer estava satisfeita com cada palavra — uma tarefa particularmente exigente perante uma pessoa tão cuidadosa e determinada relativamente à forma como a sua história seria contada. “Estou devastado por ela não poder vê-lo publicado”, confessa Alulis num breve comunicado de imprensa, destacando, ao mesmo tempo, a importância de poder finalmente partilhar a vida e o legado de Finch com o público.

Verdade seja dita, a vida que existe dentro das páginas de Shooting Up and Making Out: A Memoir of My Life in LA and L7 está longe de ser convencional. Jennifer Finch cresceu em Los Angeles e entrou ainda muito jovem na efervescente cena hardcore da cidade. De acordo com a informação disponibilizada pela editora, tinha apenas 12 anos quando mergulhou nesse universo e dois anos depois teve o primeiro contacto com a heroína. Aos 19 anos, já estava envolvida numa banda cuja formação incluia Courtney Love e Kat Bjelland, duas figuras que viriam também a deixar uma marca profunda na história do rock alternativo.

Esse percurso acabaria por conduzi-la às L7. Criada em Los Angeles em meados dos 80s por Donita Sparks, Suzi Gardner, Dee Plakas e Jennifer Finch, a banda cresceu dentro da mesma rede undegrround que alimentava as cenas punk e alternativa daquela cidade. A sua música, atitude e presença em palco acabariam por colocá-las no centro de uma transformação cultural que, no início da década de 90, levou o underground para a televisão, para as grandes salas e para os principais festivais. E, claro, Jennifer Finch esteve presente numa parte crucial dessa ascensão.

A baixista integrou a formação durante os anos em que as L7 passaram de uma referência da cena de Los Angeles para uma banda reconhecida internacionalmente. O sucesso de LPs como «Bricks Are Heavy» e «Hungry for Stink» ajudou a consolidar o grupo numa época em que o grunge e o rock alternativo dominavam a cultura popular. O percurso incluiu aparições na MTV, concertos ao lado de nomes como Pearl Jam ou Red Hot Chili Peppers e uma participação no Lollapalooza de 1994, num dos momentos mais emblemáticos da explosão alternativa da época.

Ainda assim, Shooting Up and Making Out: A Memoir of My Life in LA and L7 não parece muito interessado em transformar essa história numa narrativa de sucesso convencional. Pelo contrário. A descrição oficial apresenta Finch como uma artista que atravessou alguns dos períodos mais difíceis que a vida lhe poderia colocar pela frente, incluindo dependência de drogas, abuso, perdas pessoais e vários problemas de saúde. A sua relação com a heroína e o longo caminho até à sobriedade ocupam um lugar importante nas suas memórias, sem que a autora procure esconder ou suavizar as partes mais desconfortáveis da sua história.

A própria editora descreve o livro como sendo uma memória “cândida” e lúcida, marcada por uma perspectiva directa e por uma sabedoria adquirida à custa da experiência. A descrição oficial apresenta Jennifer Finch não apenas como baixista das L7, mas também como fotógrafa, activista, sobrevivente de cancro e alguém que conseguiu reconstruir a própria vida depois de atravessar períodos particularmente negros.

Essa dimensão artística é importante para compreender a personalidade de Finch. A música foi apenas uma das áreas através das quais se expressou. A fotografia acompanhou-a durante décadas e tornou-se também uma forma de documentar o universo punk e alternativo que conhecia por dentro. Ao mesmo tempo, Finch esteve envolvida em iniciativas de activismo político e social. Entre os assuntos abordados no livro está também a criação da Rock For Choice, uma organização de defesa dos direitos reprodutivos que contou com o envolvimento dos L7 e de outras figuras da cena musical.

O livro aborda também as relações pessoais que despertaram naturalmente a curiosidade dos fãs ao longo dos anos. Entre elas está o relacionamento com Dave Grohl, numa época em que a cena alternativa de Los Angeles e Seattle começava a cruzar-se cada vez mais. A descrição do livro menciona ainda Billy Corgan e as relações de Finch com algumas das figuras mais conhecidas daquela geração.

No entanto, o aspecto mais importante de Shooting Up and Making Out talvez seja precisamente a tentativa de colocar todas as histórias no mesmo contexto. A Jennifer Finch que aparece no livro não é apenas a baixista das L7 que tocou perante milhares de pessoas durante o auge do grunge. É também a adolescente que entrou precocemente numa cena musical marcada pelos excessos, a jovem que experimentou drogas, a mulher que enfrentou a dependência e conseguiu alcançar a sobriedade, activista, fotógrafa e, finalmente, alguém confrontada novamente com uma doença grave.

Finch já tinha enfrentado um diagnóstico de cancro da tiróide em 2011. Em Julho deste ano, porém, foi revelado que estava a lutar contra uma forma agressiva de cancro cerebral. Depois de várias cirurgias e complicações graves, necessitava de cuidados médicos intensivos, reabilitação e apoio profissional em casa. Por esse motivo, anunciou que não conseguiria participar na última digressão das L7. A banda confirmou a morte de Jennifer Finch a 18 de Julho, aos 59 anos, apenas uns dias após tornar pública a gravidade da sua situação clínica.

Shooting Up and Making Out: A Memoir of My Life in LA and L7 será publicado a 19 de Janeiro do próximo ano pela Da Capo. A edição em capa dura terá 272 páginas, e as pré-encomendas já estão disponíveis através das plataformas indicadas pela editora. Para os fãs das L7, esta será uma oportunidade rara de ouvir Jennifer Finch contar a sua própria história. Para quem acompanhou a explosão do punk e do rock alternativo nos 80s e 90s, poderá funcionar como uma viagem por dentro de uma das cenas musicais mais turbulentas e criativas das últimas décadas.

Para todos os outros, fica o testemunho de uma mulher que viveu demasiado cedo, demasiado depressa e, muitas vezes, demasiado perto do limite — mas que encontrou na música, na arte e na palavra formas de reconstruir a própria existência.