Ao décimo álbum, os finlandeses INSOMNIUM mantêm a calma, a regularidade e a ambição, e entregam um disco que alarga o território que exploram sem perder o rumo.
Vinte e nove anos, nove álbuns e nem um único que se possa apontar como falhado. A estatística, só por si, já seria invulgar. O que a torna interessante é a discrição com que foi sendo construída, sem alarde, sem polémicas e sem reinvenções de ocasião. Desde a estreia em disco com «In The Halls of Awaiting», os INSOMNIUM edificaram uma obra que dispensa apresentações junto de quem acompanha o death metal melódico.
O «Above the Weeping World», de 2006, ainda continua a ser uma referência do género, e a trilogia mais recente, composta por «Winter’s Gate», «Heart Like a Grave» e «Anno 1696», mostrou uma banda em plena maturidade, capaz de pensar o LP como uma unidade narrativa e não como uma simples coleção de canções. O nome INSOMNIUM funciona hoje como uma garantia de qualidade, e «Netherworlds», o décimo registo de longa-duração do quinteto finlandês, confirma-o sem hesitações.
O disco abre com uma escolha que diz muito sobre as intenções da banda: uma versão de «The Cold Song», composição do inglês seiscentista Henry Purcell. Em vez de um arranque em força, os INSOMNIUM optam por um pequeno gesto de contenção, uma peça pungente e emocionalmente tensa que prepara o terreno para o que vem a seguir. É uma decisão que revela confiança, porque só uma banda segura do seu material pode permitir-se começar assim.
Depois da cerimónia de abertura, entramos então em território conhecido, mas com a sensação de que o mapa foi redesenhado uma vez mais. «Shadowlife» e «Remembrance», os dois temas iniciais, condensam muito bem o espírito do LP: melodias requintadas que olham para o passado dos INSOMNIUM sem se curvarem a ele, e um trabalho de guitarras constuído em camadas, ao mesmo tempo opulento e cinematográfico, que figura entre o mais evocativo do repertório do grupo. É música que cintila como céu limpo de inverno, com a frieza luminosa que sempre definiu a paisagem sonora dos finlandeses.
Parte deste alargamento de horizontes deve-se à entrada de Tom Laisto, novo elemento na guitarra e nas vozes. A sua contribuição acrescentou densidade e destreza ao conjunto, e a escrita do quinteto cresceu em conformidade. Não se trata de uma revolução, não é isso, e seria estranho que fosse, mas de uma expansão natural, que se sente nos detalhes: na forma como as linhas melódicas se cruzam, na amplitude dos arranjos, na liberdade com que as canções respiram.
Há inclusivamente passagens em «Netherworlds» tão bem resolvidas que quase se desconfia de alguma batota. «Gleam In The Black» será talvez a canção mais imediata e viciante que os INSOMNIUM alguma vez gravaram. Niilo Sevänen, cujos growls raramente soaram tão autoritários, move-se sobre um cenário audaciosamente elevado, mas ainda assim firmemente ancorado na escuridão reluzente que caracteriza a visão do mundo da banda. A luz e a sombra convivem aqui sem se anularem.
Em sentido oposto, «The Hour Grows Late» ocupa o lugar de peça de resistência. Ao longo de oito minutos, une a grandiosidade gélida que se espera da banda a algumas das melodias mais afiadas e mudanças harmónicas mais doces que alguma vez passaram por um disco dos INSOMNIUM. É feroz e arrebatadora, mas também dramática e de uma beleza invulgar, e marca o ponto mais alto das ambições progressivas da banda. Conta ainda com a voz de Tomi Joutsen, vocalista dos AMORPHIS, cuja participação enriquece o tema sem o desviar do seu rumo.
«Pathways Of The Night» é outro exemplo de excelência melódica, uma composição em que cada uma das características mais apreciadas da banda encontra espaço para se desenvolver, e que pode muito bem figurar entre o melhor que o grupo já escreveu. O fecho fica depois a cargo de «Journey’s End», uma sinfonia de temperatura negativa que aborda o amor e a mortalidade com uma elegância rara e um arranjo capaz de arrepiar o ouvinte mais empedernido.
Ainda assim, o mais relevante é a perspectiva do conjunto. Estes destaques não são só ilhas isoladas, são partes de uma declaração musical única e coesa, assinada por uma banda que nunca perdeu de vista a capacidade da música para iluminar o escuro. É aí que reside, talvez, o segredo da longevidade dos INSOMNIUM: perceberam cedo que a melancolia não precisa de ser um beco sem saída.
Dito isto, será «Netherworlds» o melhor álbum dos INSOMNIUM? Ou será que a fasquia está tão alta que qualquer classificação definitiva se torna impossível? Seja qual for a resposta, o resultado é o mesmo: um LP notável, que reforça a posição dos músicos finlandeses como uma das vozes mais fiáveis e mais interessantes do metal europeu. Há poucas bandas com quase três décadas de estrada que ainda conseguem surpreender sem trair a sua identidade. E esta é, sem dúvida, uma delas.






