50 minutos de fúria disciplinada, atmosfera cerimonial e uma produção que rejeita tanto o polimento excessivo como o lo-fi de fachada: ao terceiro álbum, HULDER afirma-se como um dos nomes incontornáveis da cena extrema actual.
Há projectos que se revelam aos poucos, e há outros tantos que parecem nascer já com um destino traçado. HULDER parece ser um desses. Desde que emergiu em 2018, com uma sucessão de demos que rapidamente se tornaram em objectos de culto entre os iniciados do black metal mais underground, a musicista belga por trás deste projecto foi construindo uma reputação assente numa combinação pouco comum: intensidade quase animalesca e uma sensibilidade estética invulgarmente refinada.
O primeiro álbum, «Godslastering: Hymns Of A Forlorn Peasantry», de 2021, já anunciava um talento fora do comum, mas foi com «Verses In Oath», lançado três anos depois, que HULDER consolidou o seu lugar entre os nomes a seguir de perto com um olhar mais atento. Agora, com «Verbolgen» — termo neerlandês que se traduz aproximadamente por “colérico” ou “enfurecido” —, essa trajetória atinge aquilo que parece ser o seu momento mais maduro e mais absoluto.
Convenhamos, aqui que ninguém nos ouve, um dos mais graves problemas crónicos de boa parte do black metal contemporâneo é a tentação de se refugiar atrás de uma estética old school bastante preguiçosa, disfarçando a falta de ideias atrás de uma produção deliberadamente anémica. «Verbolgen» evita essa armadilha por completo. Não é um disco polido — longe disso —, mas possui uma força quase telúrica, uma musculatura brutal que o distingue imediatamente da massa de lançamentos indistintos que povoam o género.
Depois da introdução «Drie Raven», que instala uma atmosfera de suspensão quase hipnótica, é «The Crowning» que assume o comando, desenrolando-se como se de um tremor sísmico se tratasse. Blastbeats implacáveis, parede de guitarras claustrofóbicas e maliciosas, e as vocalizações monstruosas de HULDER combinam-se numa avalanche sonora que praticamente não dá tréguas ao ouvinte.
No entanto, o que distingue verdadeiramente «Verbolgen» de tantos exercícios de agressão gratuita é a forma como HULDER consegue tecer melodias hipnóticas por dentro do assalto sonoro. O resultado é uma experiência tridimensional, quase física, que raramente afrouxa ao longo dos cerca de cinquenta minutos de duração do álbum. Há uma tensão constante entre a violência da execução e a subtileza da composição — é como se cada explosão sonora escondesse, por baixo da superfície, uma arquitetura cuidadosamente pensada.
E é essa dualidade que confere ao disco uma profundidade pouco comum dentro do espectro do black metal mais extremo. Faixas como a própria «Verbolgen», que dá título ao LP, ou o encerramento visceral de «The Glow Of Dawn», vão direitas ao assunto, e exibem sem rodeios as credenciais metálicas do projecto. Por outro lado, o tema central do disco, «In Blood And In Earth», opta por uma abordagem mais expansiva, começando por evocar a serenidade gélida da música folk mais ancestral antes dessa calma ser rompida por vagas sucessivas de grandiosidade solene, atravessadas por toques melódicos ainda mais insidiosos.
Tudo em «Verbolgen» parece crepitar com uma intenção sombria e genuína. À medida que o disco avança rumo à sua conclusão, nunca perde essa sensação de estar vivo, de guardar sempre uma possibilidade tenebrosa por revelar.
Mais do que o trabalho mais conseguido da carreira de HULDER até à data, «Verbolgen» posiciona-se ao lado dos outros grandes triunfos do black metal de 2026 — um patamar que poucos projectos conseguem alcançar com apenas três álbuns editados. É neste disco que HULDER ultrapassa a condição de promessa em ascensão para se afirmar como uma figura verdadeiramente singular no espectro da extremidade sonora contemporânea.
E, seja qual for o rumo que o futuro reserve ao projeto, «Verbolgen» fica como uma afirmação categórica de grande superioridade artística — um disco que não pede licença, mas que também não precisa de a pedir.



