Uma selecção que atravessa a Bay Area, o punk, o doom e territórios mais obscuros. No entanto, o mais interessante aqui é perceber como o Sr. Hetfield continua atento ao passado e ao presente do metal.
Numa entrevista recente ao canal Little Punk People e numa lista posteriormente reunida pelo site Far Out, James Hetfield, vocalista e guitarrista dos METALLICA, foi desafiado a responder a uma pergunta aparentemente simples, mas que vem carregada de duplo significado: quais são as suas músicas de metal favoritas. Como seria de esperar de alguém com mais de quatro décadas imerso no som pesado, o músico começou com uma admissão honesta da dificuldade do exercício, antes de embarcar num retrato muito revelador das suas referências musicais e da forma como olha para o género que ajudou a moldar.
A conversa teve origem numa entrevista ao canal Little Punk People, onde James Hetfield começou por olhar para casa, elogiando bandas da Bay Area de São Francisco, berço do thrash metal norte-americano e cenário fundamental na génese dos METALLICA. “Meu Deus, há tantas! Bem, os EXODUS certamente, crescemos com esses tipos na Bay Area de São Francisco. Sem esquecer que roubámos o guitarrista deles”, comentou, entre risadas, numa referência directa à passagem de Kirk Hammett dos EXODUS para os METALLICA. “Mas sim, eles são mesmo muito bons!”, acrescentou, sublinhando a admiração duradoura pela banda conterrânea.
O músico prosseguiu com outras referências da mesma região, reforçando a importância do contexto geográfico e cultural na formação do seu gosto. “TESTAMENT… há muitas bandas da Bay Area, muitas bandas de thrash”, afirmou, antes de recuar ainda mais no tempo para explicar que, para si, a raiz de tudo não está só no metal. “Mas acho que, antes disso… sim, já havia thrash… o punk rock foi mais ou menos o início de tudo para mim.”
É precismaente nesse ponto que entram nomes como MOTÖRHEAD, descritos por Hetfield como algo que cruza thrash com rock’n’roll, e bandas do punk britânico como G.B.H. e DISCHARGE, que continuam a ocupar um lugar especial no seu imaginário sonoro. “Eu adorava os G.B.H., e ainda os adoro, e também gosto muito dos DISCHARGE. Para mim, isto é um tipo de música thrash que adoro”, explicou.
A partir dessas declarações, o site Far Out reuniu uma lista de sete canções que James Hetfield apontou como favoritas, abrangendo uma série bandas de diferentes gerações e subgéneros. Curiosamente, parte dessa selecção inclui nomes que cresceram a olhar para os METALLICA como referência maior, criando um interessante jogo de espelhos entre influência e legado. É o caso dos GHOST, presentes na lista com o tema «From The Pinnacle To The Pit», que cruza uma estética clássica com uma abordagem moderna ao heavy metal.
O Sr. Hetfield não se ficou, no entanto, por escolhas óbvias ou consensuais. Recuando às origens mais cruas do metal extremo, citando os VENOM, banda fundamental para o desenvolvimento do thrash e também do black metal, com «Die Hard». Do outro lado do espectro, surgem os DEATH ANGEL com a «Volcanic», reforçando uma vez mais a ligação profunda do músico à cena da Bay Area e a grupos que cresceram em paralelo com os METALLICA, ainda que tenham seguido caminhos próprios.
A lista final inclui ainda escolhas que surpreendem pela diversidade de atmosferas e abordagens. TANK com «Shellshock», evocando o heavy metal inglês mais directo e energético, enquanto os PALLBEARER aparecem representados por «Gloomy Sunday», um tema marcado por um doom metal melancólico e introspectivo. Os HIGH ON FIRE entram com «Fertile Green», trazendo consigo o peso denso e abrasivo associado a Matt Pike, e os finlandeses ORANSSI PAZUZU fecham a selecção com «Lahja», uma escolha que aponta para territórios mais experimentais e psicadélicos do metal contemporâneo.
No final, mais que tentar definir o que é ou não metal, esta selecção ganha interesse pela imagem mental que constrói de James Hetfield enquanto ouvinte e fã. Longe de se limitar ao óbvio ou ao cânone mais previsível, o músico revela uma curiosidade constante e uma abertura a sonoridades sombrias, extremas ou inesperadas, mantendo uma ligação firme às raízes do género e, ao mesmo tempo, uma atenção clara ao que continua a ser criado.











