GRAVEYARD

GRAVEYARD: Novo álbum, «Fever», para ouvir na íntegra [review + streaming]

Em «Fever», o seu sétimo registo de longa-duração, os suecos GRAVEYARD despem o nevoeiro de «6» e entregam-se aos riffs.

Há bandas que anunciam um regresso e bandas que dispensam essas formalidades. Apesar de lançamento de um par de singles de antecipação, os GRAVEYARD escolheram a segunda via: uma nota curta à imprensa, sem mais rodeios, e uma frase que serve de programa. Desta vez, escrevem, não há produtor externo nem desvios. “Sem produtor externo. Sem desvios.” A fórmula diz muito sobre o estado de espírito de um grupo que, vinte anos depois de se ter formado, quer apenas tocar.

Os GRAVEYARD formaram-se em Gotemburgo, em 2006, por iniciativa de Joakim Nilsson, Truls Mörck, Rikard Edlund e Axel Sjöberg. O primeiro álbum, homónimo, chegou à entrada de 2008. Seguiu-se um contrato com a Nuclear Blast e «Hisingen Blues», de 2011, o disco que os fez sair do circuito do rock retro e entrar nos festivais europeus. Depois vieram «Lights Out», de 2012, e «Innocence & Decadence», de 2015.

Escrito assim até parece que foi tudo muito fácil, mas o caminho dos GRAVEYARD não foi proprioamente linear. Corria o ano de 2014 e o baixista Rikard Edlund deixou a banda. Em Setembro de 2016, os GRAVEYARD anunciaram o fim do grupo para, em Janeiro do ano seguinte, anunciarem o regresso às lides, já com Oskar Bergenheim na bateria, porque Axel Sjöberg preferiu ficar noutra banda. O «Peace», de 2018, foi o segundo álbum do grupo a chegar ao primeiro lugar das tabelas de vendas suecas. «6», de Setembro de 2023, trouxe-nos uma banda mais lenta, mais introspetiva e mais sombria.

«Fever» vem corrigir essa rota. O comunicado fala de um som mais pesado e mais directo, mas sem nunca abdicar da alma blues que sustentou «Hisingen Blues». A comparação com o passado é inevitável, e o próprio colectivo convida-a porque não há nada nestas canções soe a laboratório. A sensação, ao longo do disco, é a de estarmos a ouvir música nascida em privado e testada em ensaios suados, onde ganha corpo orgânico. A abertura, com «Back From the Grave», mostra-o logo: um andamento rastejante, com guinchos de guitarra de sabor Sabbathiano que remetem para os BLACK SABBATH sem fazer deles uma muleta.

O eixo aqui é Joakim Nilsson. As guitarras distribuem camadas de fuzz que tanto resvalam para o stoner como se encostam aos blues, num enxame psicadélico que não perde nitidez. Quando essa textura encontra a sua voz, intensa e sem pudor, o resultado é por vezes magnético. «A Better Cut (Note To Self)» é o exemplo mais claro: sobe devagar, apoiada no dobrar áspero das notas, sobre uma secção rítmica de andamento lento a médio, firme e confortável.

Noutros momentos, Nilsson recorre ao seu arsenal de truques melódicos e solta linhas vocais que fazem lembrar Robert Plant, sobretudo em «Room Tempered». A canção arranca com uma breve introdução de baixo e bateria e desemboca num hard rock despojado, quase artesanal, que parece chamar para o presente o espírito do fim dos anos 60 e 70.

A bateria de Oskar Bergenheim faz mais do que marcar o tempo. Em «A Means To An End», o primeiro single, divulgado em Agosto, assenta um shuffle de início dos 70s que abre espaço a um desalento próximo de DANZIG, com ecos dos FU MANCHU e ORANGE GOBLIN nas transformações que a canção vai sofrendo enquanto avança. Ouvem-se influências, mas filtradas por uma identidade própria que os GRAVEYARD definiram há muito.

Não estranhamente, ao falar deste novo disco numa entrevista recente, o baixista Truls Mörck apontou «Then Play On», dos FLEETWOOD MAC, como decisivo na formação da banda, e Peter Green como um nome que também cabe no universo do grupo. Essa pode ser uma pista útil para ouvir esta colecção de temas: o que une os GRAVEYARD ao passado é o gosto pela forma como a música respira, mais do que o pastiche.

Pese tudo isso, «Dead Note», que tem quase sete minutos, é a faixa mais longa do álbum, mas também a que melhor resume a sua ambição. Começa em registo contido, ganha balanço em compassos doom assentes na improvisação e é pontuada por um solo bem pensado, que acrescenta intensidade emocional exactamente onde a secção rítmica pede. A paciência de uma banda que confia no que faz, e que só assim poderia assinar um registo com nove canções e nenhuma gordura aparente.

Portanto, para quem procura material novo que olhe para as influências antigas sem abandonar os timbres, o som e os padrões de produção da época que as viu nascer, «Fever» responde com clareza. Os GRAVEYARD estão no seu elemento, e não surpreende que o reconhecimento internacional tenha crescido à medida que apuraram o ofício. A banda sueca diz que “pode muito bem ser o melhor álbum que fizeram até agora”. É um juízo que só o tempo confirmará, mas é difícil negar que é um disco de gente a tocar sem esconder nada.

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