O penúltimo capítulo da carreira dos GODFLESH é também um dos seus álbuns mais viscerais — e, paradoxalmente, um dos mais comoventes.
Há uma diferença entre um disco pesado e um disco que soa visceral. Os GODFLESH sempre souberam construir discos pesados; com «Decay», constroem um disco verdadeiramente visceral, e o resultado é ainda mais perturbador. Desde que o «Streetcleaner» surgiu em 1990 e reescreveu as regras de contacto entre o metal e a música industrial, Justin Broadrick e Ben Green têm vindo a cultivar uma estética verdadeiramente única.
As guitarras dos GODFLESH não são tocadas, são atacadas para esmagar. A bateria eletrónica não acompanha, marca passo como uma prensa hidráulica. E a voz de Broadrick, quando emerge desse magma sónico, soa como uma transmissão de rádio captada nas profundezas de um labirínto subterrâneo que, em ambiente pós-apocalíptico, já ninguém visita há décadas.
Mas mesmo respeitando os padrões notoriamente corrosivos desta banda, «Decay» é um disco diferente. Ao longo dos seus seis temas, paira uma sensação constante de que a máquina ainda funciona, mas por pouco — como se cada engrenagem estivesse já coberta de ferrugem e cada movimento custasse mais do que o anterior. Sabendo que Broadrick descreveu este álbum como parte do capítulo de encerramento dos GODFLESH, essa sensação de desgaste deixa de ser apenas estética e torna-se quase literal.
«Decay» chega via Relapse Records e é o décimo álbum da banda — o penúltimo, segundo o próprio J.K. Broadrick, antes de um “derradeiro gesto musical” ainda por concretizar. Há, contudo, um pormenor que atravessa este disco como uma cicatriz: anos de concertos e de voz projectada ao limite contribuíram para problemas físicos que obrigaram Broadrick a uma cirurgia abdominal de grande dimensão. As vozes e as gravações ficaram praticamente fechadas antes da operação; a mistura final aconteceu depois, com o músico ainda a conviver com dor e desconforto.
Esta genealogia clínica não é uma anedota de contracapa — ajuda a explicar por que razão «Decay» soa como soa. Mas seria um erro reduzir o disco a essa biografia. Os GODFLESH continuam a fazer aquilo que sempre fizeram: transformar dor, alienação e angústia existencial em massa sonora brutalmente física e, ao mesmo tempo, estranhamente espiritual. Desta vez, porém, há um fio ténue de algo que se aproxima do alívio por baixo da fuligem.
O LP abre com «Master And Slave»: baterias arrastadas e guitarras triturantes avançam envoltas em atmosferas fantasmagóricas. É uma introdução sombria e certeira para um disco que parece permanentemente suspenso entre a força mecânica e um vazio algo espectral — os riffs não progridem, rastejam entre escombros como um autómato ferido que se recusa a parar. «Living/Ending» aperta o cerco. Começa com uma respiração ofegante antes de explodir num ritmo digno de ficção científica distópica e num riff de guitarra granulado, cortante. É som tipicamente GODFLESH, mas há aqui um desespero particular, mais cru que o habitual.
«Feral Colony» será, porventura o momento mais imediato de «Decay». É possível imaginar uma versão ainda mais corrosiva da «Eighties», dos Killing Joke, despojada de qualquer resquício de euforia e deixada a oxidar numa paisagem industrial decadente. E sim, é um hino gótico-industrial, deprimido e tenso, e a capacidade que tem de ficar colado ao ouvido é dos grandes momentos do disco. Mas claro que, em contexto GODFLESH, até o açúcar vem envenenado.
Segue-se «Fear Of Man», que habita uma estranha zona de desespero e elevação simultâneos, sustentada por um riff central quase majestático e por sintetizadores com ecos de John Carpenter, envolvendo o tema numa atmosfera distintamente distópica. É um reflexo directo da ideia que os GODFLESH sempre perceberam que o peso não nasce apenas do volume ou da distorção — nasce, muitas vezes, do espaço em redor do ruído, e é esse espaço que aqui faz tudo parecer maior.
Ainda ssim, se há uma faixa que sustenta «Decay» enquanto potencial despedida, é «Consume Me». Com quase doze minutos de duração, soa a uma visita guiada ao inferno, sem atalhos.Começa numa rajada de ruído e guitarras doom antes de abrandar para um rastejar ominoso. Daí em diante, a intensidade cresce progressivamente até um riff castigante tomar conta de tudo, acompanhado da bateria implacável, enquanto a voz distorcida de Broadrick ecoa como que vinda de um vazio existencial.
Mas os GODFLESH não se ficam por aí. [spoiler alert] Há um motivo de sintetizador, inquietante, a atravessar todo o tema — e soa quase como o lamento de uma criança perdida, soterrada sob escombros. É precisamente esse pequeno/grande pormenor que dá a «Consume Me» uma dimensão emocional que a pura brutalidade da música, por si só, podia ofuscar. Quando finalmente se dissolve em sintetizadores ambientais e sombrios, o tema dá nitidamente a sensação de soar ao rescaldo de qualquer coisa terrível que acabou de acontecer.
São precisamente esses contrastes que fazem «Decay» funcionar. O disco é implacavelmente sombrio e opressivo, mas recusa-se a ser emocionalmente fácil. Por baixo das guitarras, da percussão e do ruído, há lampejos ocasionais de grandiosidade, melancolia e até de algo que se aproxima da transcendência.E, para uma banda que anda já há quase quatro décadas a explorar a fronteira entre a música industrial, o metal e o noise, «Decay» surge notavelmente coeso. Não tenta reescrever a fórmula GODFLESH — e não precisa disso.
Aqui, destilam-se as qualidades mais duradouras dos GODFLESH em seis faixas que soam, em simultâneo, familiares e à beira do fim; às vezes, monumentais; outras, claustrofóbicas. Aliás, Broadrick já descreveu os GODFLESH como o veículo através do qual tem vindo a expressar a sua dor durante a maior parte da vida adulta e, em «Decay», essa expressão parece particularmente palpável, atravessada por uma sensação de finitude que torna tudo ainda mais convincente.
Lembre-se que o timoneiro do duo já deixou entender que existe, algures no horizonte, algo mais dos GODFLESH, antes do fim definitivo da banda nos seus próprios termos. Mas «Decay» carrega uma sensação de encerramento difícil de superar — o tipo de disco que soa a ponto final mesmo quando, tecnicamente, ainda não o é. Portanto, se este for mesmo o penúltimo capítulo de uma das discografias mais influentes e incompreendidas do metal industrial, os GODFLESH escolheram sair como sempre existiram: sem concessões, sem sentimentalismo fácil, e a lembrar a quem ainda duvidava que o peso, na música, ainda pode ser uma forma de honestidade.
Os formatos físicos do novo álbum dos GODFLESH estão disponíveis através da Relapse Records.






