Anunciado como o penúltimo álbum dos GODFLESH, «Decay» chega em Setembro. Hoje, a dupla de Birmingham revelou o primeiro avanço, «Living/Ending», um tema esmagador gravado durante as sessões de «Purge».
Há sinais que não enganam quando uma banda decide antecipar o seu fim. Os GODFLESH, projecto pioneiro do metal industrial feito em solo, confirmaram finalmente os primeiros detalhes de «Decay», disco que sucede ao explosivo «Purge», que foi lançado em 2023, e chega ao mercado a 25 de Setembro, através da Relapse Records. Como amostra do que aí vem, a dupla composta por Justin K. Broadrick (guitarra e voz) e Ben Green (baixo) partilhou «Living/Ending», um tema que resume muito bem o ADN da banda: uma batida electrónica cíclica, riffs enferrujados e uma tensão hipnótica que atravessa a canção do início ao fim.
A génese de «Decay» remonta às mesmas sessões de gravação que deram origem a «Purge». Segundo Justin Broadrick explica no breve comunicado que anuncia o novo longa-duração, na origem o álbum cde 2023 resultou de um conjunto alargado de temas compostos durante um período alargado de tempo, do qual foram seleccionadas as canções que compuseram esse disco, ficando as restantes reservadas para uma edição posterior.
“A verdade é que tinha uma quantidade enorme de canções na gaveta”, explica o vocalista, guitarrista e principal compositor dos GODFLESH. “Escolhi os que achei apropriados para o que queria alcançar com o «Purge’», mas a intenção de editar todas as canções que não encaixaram como um novo álbum esteve sempre presente — e a ideia até era lançá-las logo um ano depois do lançamento do «Purge».”
O plano inicial previa, assim, um intervalo de apenas doze meses entre os dois discos. Não foi isso que aconteceu. “Infelizmente, passaram-se dois anos enquanto considerava editoras externas, para não ter de voltar a autoeditar os GODFLESH, e demorou imenso tempo até encontrar uma casa confortável para mim”, admite JKB. “As gravações estavam feitas, mas, como é habitual comigo, alterei muita coisa quando voltei a pegar nelas.”
Se o atraso na edição tem uma explicação sobretudo contratual, há outro fator que marcou de forma mais profunda o processo de finalização de «Decay»: a saúde do próprio Broadrick. Este ano, o músico foi submetido a uma cirurgia abdominal para correção de uma hérnia, procedimento que o levou a anunciar a retirada dos palcos e a repensar a forma como usa a sua voz em contexto de estúdio e de concerto.
Segundo o próprio, o característico grito rasgado dos GODFLESH — marca sonora que atravessa décadas de discografia — terá contribuído directamente para o agravamento da condição. “Já estava ciente de que o grito que uso nos GODFLESH, por assim dizer, estava a agravar bastante a hérnia, tal como todas as actuações dos GODFLESH no período anterior à cirurgia, depois de a hérnia ter aparecido, e sei que foi sobretudo causada por anos e anos a gritar com os GODFLESH”, contou ele na altura.
A mistura final do álbum foi feita já depois da intervenção cirúrgica, mas numa fase em que o músico ainda sentia alguma dor e desconforto. Uma circunstância que, segundo o próprio, acabou por se cruzar com a própria essência do projecto: “Felizmente, os GODFLESH são, de um modo geral, eu a expressar a minha dor, ainda que normalmente seja mental, filosófica e existencial — ao passo que, desta vez, foi mesmo dor física.”
É essa dor, transfigurada em som, que se pode ouvir em «Living/Ending», sobre o martelar repetitivo da bateria electrónica e a hipnose cortante da guitarra, com a voz de Justin K. Broadrick a emergir como testemunho directo de um corpo em recuperação.
O anúncio de «Decay» surge acompanhado de uma revelação que dá um novo peso simbólico ao momento: já há um álbum final dos GODFLESH escrito, com gravação prevista para mais tarde em 2026. A banda entra, assim, formalmente na sua última fase enquanto projecto de originais, encerrando um ciclo iniciado ainda nos 80s, quando Broadrick — antigo membro dos NAPALM DEATH — e G. C. Green, o baixista original, lançaram as fundações de um género que viria a influenciar gerações de música extrema, do metal industrial ao post-metal contemporâneo.
Resta agora esperar por setembro para confirmar se «Decay» cumpre a promessa implícita no seu título: a de uma sonoridade em decomposição controlada, prestes a dar lugar ao capítulo derradeiro de uma das bandas mais influentes e incontornáveis — e mais fisicamente exigentes — da história do metal industrial. A pré-encomenda dos formatos físicos do novo álbum dos GODFLESH está disponível através da Relapse Records.



