FIVE FINGER DEATH PUNCH

FIVE FINGER DEATH PUNCH: «Legacy», uma celebração de 20 anos com o punho cerrado [review + streaming]

Chegou hoje aos escaparates e às plataformas de streaming o novo álbum dos FIVE FINGER DEATH PUNCH — e, em «Legacy», os músicos norte-americanos recusam a nostalgia fácil e entregam o disco mais pesado da sua já longa carreira.

Algumas bandas chegam aos vinte anos de carreira e, inevitavelmente, escolhem o caminho da comodidade: ensaiam sonoridades mais suaves, riscos calculados, um certo pé atrás perante a agressividade que as tornou conhecidas. Os FIVE FINGER DEATH PUNCH não são uma dessas bandas. Em «Legacy», o novo álbum que serve para assinalas duas décadas de existência, o quinteto de Las Vegas parece ter decidido fazer o oposto: acelerar, carregar no peso e provar que a maturidade artística não é um sinónimo de contenção.

Logo desde as primeiras notas do tema-título, que também abre o disco, fica claro que «Legacy» não é um exercício de nostalgia comercial. As guitarras chegam bem afiadas, o som é denso e a produção não poupa nas texturas muito pesadas. O encerramento, com «Scapegoat», mantém a mesma lógica de intensidade, fechando o círculo com ritmos densos e uma atitude que dificilmente se pode acusar de contida. Entre esses dois pontos, os FIVE FINGER DEATH PUNCH constroem uma viajem que funciona quase como uma declaração de intenções: passados vinte anos, continuam a ser, acima de tudo, uma banda de impacto imediato.

«Eye Of The Storm», o single que introduziu este novo capítulo, resume bem o equilíbrio que o álbum persegue enquanto dura. É um tema pesado e emocionalmente carregado, em que os riffs esmagadores convivem com a voz crua de Ivan Moody. Letra e som cruzam-se em torno de temas como o arrependimento, a pressão acumulada e a procura de alguma forma de paz — um retrato em miniatura do que se segue ao longo de todo o disco.

«De Oppresso Liber» opta pelo caminho mais directo: um hino musculado e envolvente que recupera a energia de temas como «Under And Over It», recordando aos fãs que os FIVE FINGER DEATH PUNCH continuam a saber desferir um golpe certeiro quando é essa a intenção.

E. se há algo que «Legacy» faz particularmente bem, é gerir o contraste entre fúria e sensibilidade. «Nails In The Coffin» começa contido, quase discreto, antes de explodir num refrão de grande amplitude, com Ivan Moody a exibir um dos registos vocais mais melódicos de todo o álbum. «In Time», por sua vez, aprofunda essa mesma direcção e acaba por ser um dos temas mais acessíveis do disco, com potencial evidente para conquistar públicos fora do universo estritamente metálico.

Por sua vez, «Unscathed» e «Shelter» equilibram-se entre a agressividade característica dos FIVE FINGER DEATH PUNCH e os momentos de maior introspecção. Moody alterna entre uma cantoria um pouco mais aérea e os característicos rugidos, enquanto os instrumentos constroem passagens que soam, ao mesmo tempo, pesadas e pessoais — talvez o maior triunfo deste álbum.

Ainda assim, o que torna «Legacy» um disco relevante não é apenas a qualidade das canções isoladas, mas a forma como os FIVE FINGER DEATH PUNCH recusam repetir-se sem, no entanto, se reinventarem por completo. Este não é um LP construído sobre a fórmula do sucesso passado; é antes uma expansão da fórmula, que resulta num conjunto de cançoes que soa, ao mesmo tempo, poderoso, emotivo e pensado tanto para quem acompanha a banda desde o início como para quem a descobre agora.

Ao longo destes vinte anos, a formação atravessou mudanças significativas — alterações na composição do grupo, diferentes fases sonoras, e uma indústria musical irreconhecível face àquela em que nasceram. Apesar disso, mantém-se sempre uma constante: a capacidade de fazer rock/metal modernaço, que comunica efectivamente com o público.

De facto, a fórmula nunca foi muito complicada — são riffs de grande escala, refrões avassaladores e temas que atingem o ouvinte tanto pela potência como pela emoção. É esse equilíbrio que tem sustentado uma base de fãs fiel e que, simultaneamente, permitiu à banda ultrapassar as fronteiras habituais do género metal. Duas décadas depois de terem começado, os FIVE FINGER DEATH PUNCH sabem exactamente quem são — e nada indica que estejam interessados em abrandar o passo.