EVANESCENCE

EVANESCENCE @ MEO ARENA, Lisboa | 04.10.2026 [reportagem]

Com lotação esgotada e Lisboa como última paragem de uma extensa digressão europeia, os EVANESCENCE arriscaram ao levar «Sanctuary» quase na íntegra para o palco — e saíram a ganhar. Entre uma Amy Lee incansável, clássicos incontornáveis e uma participação especial de POPPY, a banda norte-americana terminou a viagem europeia em grande forma.

Ontem, dia 4 de Outubro, Lisboa recebeu os EVANESCENCE para o derradeiro espectáculo da sua mais recente tour europeia, com a sala esgotada e um alinhamento que, em vez de jogar pelo seguro, decidiu apostar praticamente tudo no presente. A banda de Amy Lee chegou a Portugal com «Sanctuary» na bagagem. Até aqui, nada de extraordinário: uma nova digressão é, afinal, uma oportunidade natural para apresentar material recente.

A diferença esteve na forma como os EVANESCENCE decidiram fazê-lo. Em vez de seleccionarem meia dúzia de temas para acompanhar os inevitáveis clássicos, levaram o álbum praticamente inteiro para palco, deixando de fora apenas uma composição. É uma escolha que poderia facilmente ter dividido uma plateia habituada a reencontrar-se com os grandes momentos de «Fallen», sobretudo quando se está perante uma banda com um repertório tão reconhecível. Em Lisboa, porém, o risco revelou-se certeiro. A resposta do público acompanhou a banda durante toda a noite e permitiu que os novos temas ocupassem um espaço que, em muitos outros concertos, estaria reservado exclusivamente aos êxitos mais antigos.

E, se havia alguma dúvida sobre a capacidade dos EVANESCENCE para sustentarem um espectáculo desta dimensão no fim de uma digressão, Amy Lee tratou de a dissipar. A vocalista continua a ser o centro absoluto da formação, não apenas pela voz — que permanece tão impressionante quanto nos melhores dias da banda norte-americana —, mas também pela energia física que coloca em palco. Raramente está parada. Desloca-se, interage, ocupa o espaço e conduz cada tema com uma intensidade que torna difícil acreditar que aquela era já a última noite de uma longa série de concertos.

As excepções surgem, de forma muito clara e naturalmente, nos momentos em que Amy Lee se senta ao piano. «My Immortal», «Forever Without You» e «Lithium» permitem uma outra faceta da cantora, mais contida e mais exposta, mas nem aí a tensão desaparece. Pelo contrário: são precisamente esses momentos de aparente tranquilidade que dão ao espectáculo alguns dos seus instantes mais fortes.

Ao seu lado, os EVANESCENCE apresentam uma formação à altura das exigências do repertório. Will Hunt é uma presença imponente atrás da bateria, garantindo o peso e a precisão necessários tanto nos temas mais recentes como nos clássicos que continuam a definir parte substancial do imaginário da banda. Emma Anzai, no baixo, acrescenta músculo e presença, enquanto Tim McCord e Troy McLawhorn asseguram a espessura guitarrística que permite aos temas alternarem entre ambientes mais atmosféricos e momentos de pura descarga.

Mas havia uma questão inevitável a pairar sobre o concerto: até que ponto um alinhamento tão concentrado em material novo conseguiria manter a ligação com o público? A resposta chegou cedo.

«Going Under», umadas canções mais reconhecíveis de «Fallen», surgiu surpreendentemente cedo no alinhamento e funcionou como uma espécie de lembrete da dimensão que os EVANESCENCE alcançaram desde os primeiros anos da carreira. Mais tarde, «Imaginary» recuperou outra das peças fundamentais dessa primeira fase, enquanto «Bring Me To Life» assumiu naturalmente o estatuto de hino colectivo que há muito ultrapassou as fronteiras do metal e rock alternativo. Pelo meio, «My Immortal» voltou a colocar Lee ao piano e a sala num registo completamente diferente. É um daqueles temas que dispensam apresentações ou grandes efeitos cénicos: bastam a melodia, a voz e a memória de quem cresceu com «Fallen».

O mérito do alinhamento esteve precisamente nesse equilíbrio. Os EVANESCENCE não trataram «Sanctuary» como um bloco isolado que era necessário despachar antes de regressarem ao passado. Integraram-no totalmente no espectáculo, deixando que os novos temas respirassem ao lado de canções que já fazem parte do património da banda. E quando a noite caminhava para a recta final, surgiu um dos momentos mais aguardados.

Poppy juntou-se a Amy Lee para «End of You», levando para o palco uma colaboração que ganha uma dimensão extra quando é apresentada ao vivo. O tema foi originalmente escrito por Poppy, Lee e Courtney LaPlante, com Jordan Fish e Mike Stringer, e acabou editado como single em Setembro de 2025. A presença de Poppy permitiu assim transformar uma colaboração de estúdio num momento de palco, com as duas vocalistas a partilharem os holofotes numa das passagens mais particulares da noite.

Pouco depois, os EVANESCENCE regressaram uma vez mais ao universo de «Sanctuary» para o encerramento da actuação. «Wide Open Heart» foi escolhido para fechar o concerto e revelou-se uma decisão particularmente feliz. Em vez de terminar simplesmente com uma sucessão previsível de êxitos, a banda encerrou a noite com um dos novos temas, reforçando a ideia que atravessou todo o espectáculo: este não era apenas um concerto comemorativo do passado, mas a apresentação de uma banda plenamente instalada no presente.

Quando as últimas notas desapareceram, ficou a sensação de uma missão cumprida. Os EVANESCENCE tinham chegado à MEO Arena depois de uma digressão europeia e, apesar de ser a última data, não deram sinais visíveis de desgaste. Pelo contrário. Amy Lee esteve praticamente sempre em movimento, a banda respondeu com enorme segurança e o público abraçou tanto os temas recentes como aqueles que já conhece de cor.

Antes disso, a noite começou com as NOVA TWINS, e a dupla britânica tratou de deixar uma impressão bastante mais forte do que a simples função de banda de abertura poderia fazer prever. A combinação de rock, punk, electrónica e peso que caracteriza a formação encontrou no palco um espaço ideal para se expandir. Amy Love e Georgia South têm uma presença suficientemente forte para não dependerem de grandes artifícios e, sobretudo, uma identidade sonora que não se confunde facilmente com a de outras propostas que actualmente circulam pelo circuito alternativo.

A prestação de POPPY veio depois e encontrou um público já devidamente aquecido. A artista norte-americana tem um universo visual e musical suficientemente particular para garantir atenção, mas a sua passagem por Lisboa acabou por parecer mais genérica quando comparada com aquilo que as NOVA TWINS tinham acabado de oferecer.

Não faltaram atitude nem competência, mas a actuação pareceu menos incisiva na construção de uma identidade própria naquele contexto. A mistura de peso, pop, electrónica e elementos mais agressivos que caracteriza a sua música funcionou, mas sem atingir a mesma sensação de descoberta proporcionada pela dupla britânica. Ainda assim, a presença de POPPY acabaria por ganhar uma importância adicional mais tarde, quando regressou ao palco para dividir «End of You» com Amy Lee. E foi nessa altura que a sua participação na noite ganhou outra dimensão.

Há algo particularmente difícil em fechar uma digressão: o último concerto pode trazer consigo o desgaste acumulado de semanas de estrada, a repetição inevitável de um espectáculo e a sensação de que tudo já foi dito. Nada disso afectou os EVANESCENCE em Lisboa.

A banda apresentou-se com uma solidez impressionante, Amy Lee continua a ter uma voz capaz de carregar tanto os momentos mais grandiosos como os mais delicados e o alinhamento conseguiu fazer uma coisa que nem sempre é fácil: apresentar quase integralmente um álbum novo sem transformar os clássicos em meras concessões ao público. «Sanctuary» teve espaço para se afirmar. «Fallen» teve os seus momentos de celebração. «End of You» ganhou vida nova com Poppy em palco. E «Wide Open Heart» encerrou a noite olhando para a frente, não para trás.

Num concerto que poderia ter sido apenas a última data de uma digressão europeia, os EVANESCENCE fizeram questão de o transformar num ponto final com peso próprio. E, quando uma banda termina uma série de concertos exactamente como começou — com força, convicção e uma vocalista que parece não saber o significado da palavra cansaço — não há muito mais a pedir.