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EPICA + AMARANTHE + CHARLOTTE WESSELS @ Coliseu dos Recreios | 01.02.2026 [reportagem]

EPICA, AMARANTHE e CHARLOTTE WESSELS partilharam o palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, numa noite marcada por contrastes estéticos e públicos convergentes.

Quando o emparelhamento é o correcto, uma digressão em regime de co-headlining pode transformar-se num verdadeiro triunfo de bilheteira. Em Portugal, os EPICA são um nome estabelecido há décadas, masos suecos AMARANTHE, apesar de se afirmarem como um nome cada vez mais relevante dentro do espectro em que se movem, dificilmente estariam ainda preparados para assumir sozinhos a vastidão do Coliseu dos Recreios em nome próprio. No entanto, no passado Domingo, 1 de Fevereiro, a realidade foi inequívoca: sala muito bem composta, público distribuído por quase todos os sectores e uma plateia que permaneceu fiel do início ao fim.

A abrir a noite esteve CHARLOTTE WESSELS, escolha que revelou uma compreensão profunda do público presente. Para muitos dos fãs ali presentes, os DELAIN continuam a ser uma referência incontornável, e a presença da sua antiga cantora, agora acompanhada por uma formação que recupera uma grande parte da identidade sonora da banda antes de 2021, funcionou como elo emocional quase imediato. Dúvidas restassem, o magnetismo da Sra. Wessels enquanto frontwoman ficou evidentes desde os primeiros sons: a sua voz mantém a clareza e o alcance que sempre a distinguiram, mas revela agora uma maturidade e uma densidade emocional acrescidas.

A surgiu no centro do palco, sobre uma plataforma circular elevada, quase dissimulada por um microfone decorado com girassóis artificiais. A estética contrastou imeduata e deliberadamente com a iconografia mais agressiva associada ao género: um vestido branco fluido, de contornos etéreos, a projectar uma imagem que evocava um ritual contemporâneo mais que um concerto de metal tradicional.

Mesmo com pouco mais de maia-hora para actuar, a ex-vocalista dos DELAIN conduziu o concerto com rigor e contenção; evitou revisitar o passado, concentrou-se no seu percurso a solo, equilibrando temas já conhecidos com pistas do futuro. Temas como «Tempest» ou «After Us, The Flood» destacaram-se pela força e também peso inesperados, sustentados por uma atmosfera simultaneamente onírica e terrena.

A guitarra de Timo Somers revelou-se particularmente expressiva, muito discreta na presença cénica mas incisiva nos momentos em que emergia com solos de forte carga emocional, e o fecho apoteótico com a «The Exorcism», vivida de forma quase visceral por Wessels, confirmou um concerto intenso e sugestivo, demonstrando que este capítulo pós-DELAIN está longe de ser apenas uma nota de rodapé.

ALINHAMENTO CHARLOTTE WESSELS:
01. Chasing Sunsets | 02. Dopamine | 03. The Crying Room | 04. Tempest | 05. After Us, The Flood | 06. Soft Revolution | 07. The Exorcism

Cabeças-de-cartaz em outras paragens desta rota, coube aos AMARANTHE, que se estreavam em Lisboa depois de um concerto único no Porto em 2011, assumirem o segundo lugar da noite, numa posição delicada face à escala do espectáculo que se seguiria. Visualmente concentrada num excelente jogo de luzes, a produção revelou-se mais modesta quando comparada com o aparato tecnológico apresentado mais tarde pelos EPICA, mas o suecos não se fizeram rogados e compensaram com uma energia contagiante e uma abordagem descomplexada ao seu metal moderno.

A presença de três vocalistas garantiu um fluxo constante de interacção com o público, com Nils Molin e Mikael Sehlin a assumirem grande parte do diálogo com a plateia, arrancando reacções entusiásticas aos presentes. A nível musical, os AMARANTHE abraçam sem quaisquer reservas a vertente mais pop do seu ADN e isso tornou-se bem óbvio numa «Crystalline» deliberadamente luminosa, quase cinematográfica, enquanto a inédita «Chaos Theory», colocada estrategicamente a meio do alinhamento, apostou numa doçura ainda mais assumida.

Já na recta final, a inclusão de «Amaranthine», retirada do álbum de estreia, serviu para sublinhar que esta estética não é uma derivação recente, mas uma característica fundacional do projecto. Defeitos a apontar? Nenhuns além da utilização extensiva de faixas pré-gravadas, em especial nos momentos em que Elize Ryd, Nils Molin e Mikael Sehlin surgiam acompanhados quase exclusivamente por elementos electrónicos. Essa opção, embora coerente com a identidade sonora da banda e insuficiente para beliscar o nível elevado desta estreia em solo nacional, acabou por criar uma sensação ocasional de artificialidade perfeitamente dispensável.

ALINHAMENTO AMARANTHE:
01. Fearless | 02. Viral | 03. Digital World | 04. Damnation Flame | 05. Maximize | 06. Strong | 07. PvP | 08. Crystalline | 09. Boom!1 | 10. The Catalyst | 11. Re-Vision | 12. Chaos Theory | 13. Amaranthine | 14. The Nexus | 15. Call Out My Name | 16. Archangel | 17. That Song | 18. Drop Dead Cynical

Como cabeças de cartaz, os EPICA assumiram o controlo total da noite com um espectáculo de grande ambição visual e conceptual. O palco transformou-se num espaço futurista, saturado de estímulos, onde cada elemento parecia meticulosamente planeado. Um personagem mascarado abriu o concerto com um apelo à presença plena, convidando o público a largar os telemóveis, um pedido amplamente respeitado perante o impacto visual imediato de «Apparition», o tema de abertura.

Simone Simons surgiu inicialmente envolta em véus e sombras, projectando a imagem de uma figura espectral colocada no topo de uma estrutura elevada no centro do palco, e dominou desde logo a sala. Desde esse momento inicial, com o público totalmente na mão, os EPICA avançaram então num registo assumidamente teatral. «Eye Of The Storm» foi acompanhada por projecções que simulavam chuva, enquanto «Sirens – Of Blood And Water» mergulhou o palco num nevoeiro espesso.

Este momento, a meio da actuação, ganhou ainda um significado adicional com a entrada de Charlotte Wessels em palco para um dueto intenso com Simone Simons, ambas recortadas em silhueta, numa das imagens mais fortes da noite. A sucessão de quadros cénicos manteve-se constante, com a introdução de um piano real em «Tides Of The Time» e uma explosão visual quase excessiva em «The Grand Saga Of Existence – A New Age Dawns, Part IX».

Apesar da grandiosidade, inegável, os EPICA evitaram cair na armadilha do excesso vazio. A banda apresentou-se musicalmente irrepreensível e em clara sintonia, equilibrando rigor técnico com uma comunicação directa com a plateia. Em «Cry For The Moon», os músicos interagiram de forma lúdica com as câmaras de palco, num gesto de auto-consciência que ajudou a humanizar o espectáculo.

Aqui importa referir também que, ao vivo, a vertente mais pesada da banda continua a ganhar particular destaque, com os growls de Mark Jansen a surgirem de forma cirúrgica ao longo da noite, acrescentando uma aspereza essencial às composições. Coen Janssen, longe de permanecer estático atrás dos teclados, percorreu várias vezes o palco com um setup portátil, nunca parou de incentivar o público e sincronizou movimentos com Simone Simons, passando a ideia de que, em 2026, os EPICA provavelmente andam a divertir-se como nunca em palco.

ALINHAMENTO EPICA
01. Apparition | 02. Cross the Divide | 03. Martyr Of The Free Word | 04. Eye Of The Storm | 05. Unleashed | 06. Never Enough | 07. Sirens – Of Blood And Water | 08. Tides Of Time | 09. The Grand Saga Of Existence | 10. Cry For The Moon | 11. Fight To Survive | 12. The Last Crusade | 13. Beyond The Matrix

No balanço final, a noite confirmou a eficácia do formato co-headliner quando sustentado por propostas complementares. Enquanto cabeças de cartaz, os EPICA apresentaram um concerto monumental e muito rigoroso, estudado ao mais ínfimo pormenor, onde a encenação serviu a música. Os AMARANTHE, por sua vez, optaram por uma abordagem mais directa e festiva, assumindo sem reservas a sua faceta pop. Resultado: duas visões, públicos sobrepostos e um Coliseu dos Recreios quase cheio a provar que o metal contemporâneo pode acomodar múltiplas linguagens sem perder identidade.