ELECTRIC CALLBOY

ELECTRIC CALLBOY + BURY TOMORROW + WARGASM @ Sala Tejo | 25.01.2026 [reportagem]

Acompanhados pelos WARGASM e BURY TOMORROW, os ELECTRIC CALLBOY esgotaram a Sala Tejo da MEO ARENA numa noite de excessos visuais, energia constante e muita animação.

O ano de 2026 mal começou e já deixou claro que o circuito de grandes concertos entrou num novo ciclo de intensidade. Ontem, Domingo, 25 de Janeiro, a Sala Tejo da MEO Arena recebeu a última data da mais recente etapa europeia da digressão mais ambiciosa de sempre dos ELECTRIC CALLBOY, num cartaz que reuniu três propostas diferentes na forma, no discurso e na execução, mas unidas por uma mesma noção de impacto imediato. Na verdade, não se tratou apenas de um concerto, mas de uma demonstração clara de como o metal contemporâneo se fragmenta, se reinventa e encontra novos públicos sem abdicar da fisicalidade que sempre definiu o género.

A noite começou com os WARGASM, projecto britânico que tem construído a sua afirmação na cena ali na intersecção entre electropunk, o metal e uma atitude deliberadamente confrontacional. Pois bem, logo desde os primeiros minutos, a intenção foi evidente: testar os limites de um público ainda a entrar na sala e em fase de aquecimento, e forçar uma resposta que fosse tão física quanto emocional. A entrega esteve sempre presente, com provocações constantes e uma insistência clara na criação de movimento, mas o contexto técnico acabou por condicionar parte do impacto.

O som revelou algum desequilíbrio, com a bateria a ocupar demasiado espaço e a retirar densidade às guitarras e às camadas electrónicas que costumam dar corpo ao discurso da banda. Essa limitação tornou o concerto menos envolvente, mas, ainda assim, a persistência acabou por produzir resultados visíveis. À medida que o set avançava, era perceptível a transformação do público mais próximo do palco, de início expectante, numa massa progressivamente mais participativa, com as primeiras movimentações a surgir e reacções cada vez mais espontâneas

Num contexto de apenas meia-hora, a recta final revelou-se mais coesa, tanto em termos sonoros como na resposta do público, deixando a sensação de um concerto competente, capaz de cumprir a função essencial de abrir a noite e conquistar novos ouvintes, mesmo sem atingir o patamar mais alto que os WARGASM já demonstraram ser capazes de alcançar.

Com os BURY TOMORROW, o registo mudou de forma clara. A banda entrou em palco com uma intro inspirada na saga The Purge e criou desde logo um ambiente mais tenso e cinematográfico. Logo depois, a escolha de «Choke» para abrir o concerto funcionou como uma proverbial declaração de intenções: um alinhamento focado nos temas de maior impacto imediato, pensado para um set condensado e para um público que, em grande parte, não estava ali apenas por eles.

A sequência inicial, com «Death (Ever Closer)» e «Cannibal», reforçou essa abordagem, equilibrando uma boa dose de agressividade e melodia de forma eficaz. A plateia respondeu de imediato, e confirmou que, mesmo com limitações no que toca ao tempo de actuação, os BURY TOMORROW sabem perfeitamente como activar uma sala desta dimensão. A meio do concerto, a banda avançou para material mais recente com «Let Go», «Villain Arc» e «What If I Burn», num bloco que evidenciou a solidez das novas canções no palco, independentemente das reservas que possam existir em relação à leitura em estúdio.

Como seria de prever, «What If I Burn» destacou-se como um dos momentos mais marcantes, com umas largas centenas de telemóveis erguidos e uma atmosfera quase contemplativa a instalar-se por breves minutos. Foi uma pausa emocional dentro de um concerto pensado para a eficiência, que ajudou a reforçar a ligação da banda ao público presente.

A recta final trouxe dois dos momentos mais reconhecíveis do repertório dos BURY TOMORROW. «Black Flame» voltou a provar porque se mantém como um dos pilares da banda ao vivo, antes de «Abandoned Us» fechar o concerto com uma descarga final de intensidade, deixando no ar a sensação de que, mesmo em regime de compressão, a banda continua a crescer à medida que ocupa palcos cada vez maiores.

Após nova transição para a escuridão total, a expectativa instalou-se de forma quase palpável. Um enorme pano ocultava o palco, enquanto a sala aguardava aquilo que, para muitos, era o verdadeiro epicentro da noite — e o início do concerto dos ELECTRIC CALLBOY rejeitou qualquer lógica de progressão gradual. A cortina caiu ao som de «Tanzneid», acompanhada por uma utilização de pirotecnia tão imediata quanto intimidante, estabelecendo desde logo que o espectáculo não iria poupar recursos nem reservar surpresas para mais tarde.

Sem tempo para recuperar o fôlego, surgiu uma versão de «Still Waiting», dos Sum 41, acompanhada por confettis lançados sobre a plateia, num gesto que sintetizou bem a lógica do concerto dos ELECTRIC CALLBOY: irreverência, excesso e uma recusa clara em separar metal, festa e humor. A partir daí, a Sala Tejo transformou-se num espaço onde tudo parecia estar em permanente movimento.

Um enorme ecrã ao fundo do palco, um X suspenso no ar com múltiplas superfícies de vídeo, uma coreografia de luzes meticulosamente sincronizada e constantes mudanças de figurino criaram uma sensação de estímulo contínuo. «Hypa Hypa» e «MC Thunder», dois dos “clássicos” incontornáveis dos ELECTRIC CALLBOY, consolidaram essa transformação, dissolvendo qualquer fronteira rígida entre mosh pit e pista de dança.

Com a troca para indumentária desportiva, «Pump It» assumiu-se desde logo como um dos momentos mais caricaturais e fisicamente exigentes da noite, antes de «Hurrikan» puxar o espectáculo ainda mais para territórios próximos da eurodance. A entrada inesperada de um DJ em palco marcou uma breve viragem para linguagens associadas ao dubstep, incluindo reinvenções de «All The Small Things», dos blink-182, e «Bodies», dos Drowning Pool, num segmento tão desconcertante quanto eficaz.

A componente visual foi aqui determinante. Cada tema contou com conteúdos específicos, pensados não como simples acompanhamento, mas como parte integrante da narrativa do concerto. A forma como música e imagem se cruzaram remeteu inevitavelmente para produções de topo no circuito internacional, demonstrando uma maturidade cénica rara para uma banda que, há poucos anos, ainda era vista como um fenómeno de nicho.

No palco, as peripécias continuaram a surpreender mesmo para quem já esperava excessos. Nico e Kevin Ratajczak protagonizaram uma série momentos inesperados, sentaram toda a gente, puseram a arena inteira a cantar os parabéns a uma fã e, no geral, mantiveram sempre em alta aquela irreverência muito saudável que caracteriza o ELECTRIC CALLBOY. Apesar de momentos calmos dispersos, a componente performativa dominou a noite, com o grupo a interagir constantemente com o público e a explorar elementos cénicos que vão muito além da música.

Após uma breve pausa, surgiu então um medley de temas mais antigos que evidenciou de forma clara a evolução sonora dos ELECTRIC CALLBOY. A base metalcore manteve-se reconhecível, mas é impossível ignorar como os elementos festivos e electrónicos ganharam progressivamente centralidade ao longo dos anos, moldando a identidade actual do grupo.

A seguir, um solo de bateria serviu de ponte para um dos momentos mais inesperados da noite: uma versão acústica e ao piano de «Fuckboi». Já na recta final, a «MC Thunder II» e a «Elevator Operator» encerraram o set principal, preparando o terreno para um encore pensado ao detalhe.

A figura robótica que acompanhou todo o espectáculo regressou com um capacete de inspiração disco para anunciar «RA TA TA!», seguida de «Spaceman», interpretada com fatos espaciais que reforçaram a dimensão performativa do momento. O encerramento fez-se com a incontornável «We Got The Moves», a canção que consolidou a projecção viral da banda alemã e que, ao vivo, funciona como uma celebração colectiva difícil de replicar noutros contextos.

Quando as luzes começaram a subir, parte do público ainda se mantinha a saltar e a reagir à música de saída, prolongando a descarga de energia e boa disposição mesmo até ao fim. A sensação no ar era de um espectáculo barulhento, divertido e imprevisível, que deixou clara a identidade única dos ELECTRIC CALLBOY e reforçou a inevitabilidade de ver a banda a assumir posições de destaque nos cartazes dos maiores festivais internacionais.

E, dúvidas restassem, este regresso a Lisboa não se limitou a confirmar expectativas funcionou como uma afirmação bastante clara de que a banda soube transformar a sua visibilidade digital numa linguagem cénica sólida, construída com rigor técnico e uma compreensão rara do seu público. Logo em Janeiro, a fasquia para os grandes espectáculos de 2026 ficou colocada num patamar exigente, não tanto pela quantidade de fogo ou ecrãs, mas pela forma como tudo foi integrado numa visão coerente e assumida.