Antes de falecer, aos 80 anos, DOLLY PARTON já tinha provado algo que poucos esperavam dela: que sabia rugir tão bem como sabia embalar. A história de como uma menina dos montes do Tennessee acabou por cantar ao lado do ‘Metal God’ é também a história de uma artista que recusou envelhecer dentro de uma única gaveta.
Quando se fala de Dolly Parton, a memória colectiva evoca de imediato a música country clássica, «Jolene», «9 to 5», os anos de ouro em Nashville e o brilho de estrada das grandes divas norte-americanas. Raramente se associa o seu nome ao rock e, menos ainda, ao heavy metal. E, no entanto, nos últimos anos da sua vida, a artista construiu uma das pontes mais inesperadas — e mais sinceras — entre a música country e os territórios mais duros do rock contemporâneo.
Tudo começou, paradoxalmente, com um não. Em 2022, quando o Rock and Roll Hall of Fame anunciou a sua nomeação, Dolly Parton reagiu com desconforto. Sentia que a distinção não lhe pertencia: nunca tinha gravado um disco de rock e considerava injusto aceitar uma honra reservada a um género que não era o seu. A organização, no entanto, recusou-se a retirar o seu nome da lista de nomeados.
Perante a insistência, a artista decidiu resolver o dilema à sua maneira: se ia ser incluída no panteão do rock, faria por merecê-lo. Foi assim que nasceu a ideia de um álbum inteiramente dedicado ao género — um projecto que se tornaria, mais de três anos e meio depois, uma das mais surpreendentes despedidas possíveis de uma carreira de sete décadas.
Na cerimónia de indução, em Novembro de 2022, Dolly Parton subiu então ao palco para interpretar «Jolene» rodeada por nomes maiores da pop, do rock e do metal: Pink, Sheryl Crow, Annie Lennox, Pat Benatar, Simon Le Bon, dos DURAN DURAN, e Rob Halford, vocalista dos JUDAS PRIEST, também eles incluídos nessa mesma “turma de 2022”. Foi aí, entre as purpurinas e o cabedal, que nasceu uma amizade que haveria de dar frutos discográficos.
Em Novembro de 2023 chegou «Rockstar», o quadragésimo nono álbum de estúdio da artista — trinta faixas, mais de duas horas de música, nove originais e vinte e uma versões de clássicos do rock. A lista de convidados lê-se como um inventário da história do género: Paul McCartney e Ringo Starr em «Let It Be», Stevie Nicks, Elton John, Sting em «Every Breath You Take», Debbie Harry em «Heart of Glass», Steve Perry, dos JOURNEY, em «Open Arms», e uma comovente «Free Bird», dedicada aos LYNYRD SKYNYRD, com vozes póstumas de Ronnie Van Zant e a participação do guitarrista Gary Rossington, falecido poucos meses antes do lançamento.
Mas é na zona mais pesada do disco que a ousadia se revela mais evidente. Em «Bygones», Dolly Parton contracena com Rob Halford — a voz-lâmina dos JUDAS PRIEST — numa faixa de contornos quase góticos, com Nikki Sixx, dos MÖTLEY CRÜE, no baixo, e o guitarrista John 5 a assinar os riffs. Sobre um refrão que fala de perdão e de feridas antigas — “I’m sorry, so sorry, how long must you punish me?” —, a voz cristalina da cantora country cruza-se com o registo dramático de Halford numa combinação que, no papel, parecia impossível.
Rob Halford recordaria mais tarde, em entrevista à revista Metal Hammer, o entusiasmo genuíno de Dolly ao ouvir as suas gravações: contou que ela lhe ligava a pedir os ficheiros e que, ao ouvi-los, reagia com um entusiasmo sem filtros, elogiando imediatamente o resultado. Não era um gesto de marketing cruzado entre géneros: era, segundo quem trabalhou com ela, uma curiosidade genuína por um mundo sonoro que sempre respeitara à distância.
Também presente em «Rockstar» está Ann Wilson, das HEART, em «Magic Man», e uma versão de «Stairway to Heaven», dos LED ZEPPELIN, com Lizzo à flauta — um momento tão inesperado quanto sintomático da lógica do álbum: colocar em diálogo mundos que a indústria discográfica insiste em manter separados.
Se «Rockstar» foi o gesto mais deliberado de aproximação ao género, a verdade é que a relação entre Dolly Parton e o universo rock e metal já vinha de longe, ainda que por vias indirectas. «Jolene», a sua canção mais icónica, tornou-se ao longo das décadas um hino informalmente adoptado por artistas de sensibilidades muito distantes da country tradicional. Os icónicos THE WHITE STRIPES gravaram uma versão crua e nervosa em 2000, com Jack White a cantar no limite da voz. Os SISTERS OF MERCY, banda fundadora do rock gótico, tinham gravado a sua própria leitura sombria do tema ainda nos anos 80, embora só lançada décadas depois.
Essa capacidade de atravessar géneros sem perder identidade é, talvez, a chave para perceber porque é que o mundo do metal — normalmente pouco dado a entusiasmos por artistas de Nashville — abraçou Dolly Parton com tanto carinho. A canção «Jolene» tem uma estrutura quase obsessiva, cíclica, hipnótica; e não é por acaso que soa tão bem quando reimaginada com guitarras distorcidas.
Há algo de profundamente instrutivo na forma como Dolly Parton encarou a sua entrada no universo do rock. Numa indústria em que a autenticidade é frequentemente usada como arma de exclusão — quem pode cantar o quê, quem “ganhou o direito” a determinado género —, Dolly optou por um caminho raro: em vez de aceitar passivamente uma honra que sentia não lhe pertencer, decidiu trabalhar por ela. Fê-lo com humildade, mas também com uma ambição desmedida, reunindo num só disco praticamente todo o panteão vivo do rock clássico.
O resultado não foi apenas comercial — «Rockstar» estreou no terceiro lugar da Billboard 200, o registo mais alto de toda a sua carreira —, mas também simbólico. Mostrou que as fronteiras entre country, rock e metal são, em grande medida, construções de mercado, e que a música, quando feita com sinceridade, tende a ignorá-las.
Com a morte de Dolly Parton, fica também a memória de uma artista que, aos 76 anos, decidiu que ainda tinha um género inteiro por conquistar — e que o fez de mãos dadas com o vocalista dos JUDAS PRIEST, os sobreviventes dos BEATLES e o espírito, sempre presente, dos LYNYRD SKYNYRD. Poucas despedidas na música popular contemporânea foram tão inesperadamente coerentes com uma vida inteira de reinvenção.


