O disco mais ambiciosa da carreira do canadiano DEVIN TOWNSEND chega como uma declaração de intenções e ruptura — e de liberdade absoluta.
Há, raramente, discos que resistem a qualquer tentativa de categorização como se fossem organismos vivos, dotados de uma lógica interna tão singular que o ouvinte não tem outra opção senão render-se — ou recuar. Devin Townsend enquadra-se, desde há muito, numa categoria só sua. Mas com «The Moth», o compositor e multi-instrumentista canadiano deu um passo que transcende qualquer coisa que tenha feito nos seus 35 anos de carreira implacável.
«The Moth» não é um álbum de metal. Não é prog. Não é pop experimental. É, isso sim, uma longa peça orquestral maximalista, concebida como experiência teatral de alta voltagem, e que se move com a lógica perturbadora de um sonho lúcido.
Este projecto de Townsend chegou primeiro aos palcos, em Março de 2025, numa série de espectáculos recebidos com aclamação entusiástica — e com a perplexidade genuína que só a arte verdadeiramente fora do eixo nos consegue provocar. A versão gravada, aguardada durante anos com a ansiedade contida de todos os que conhecem bem o historial de Townsend, confirma tudo o que os relatos dos concertos prometiam: «The Moth» é enorme, desconcertante, tecnicamente prodigioso e, por momentos, absolutamente devastador na sua beleza.
Comecemos, no entanto, pelo que o disco não contém, porque essa ausência é, em si, um manifesto. Não há aqui a energia pop-metal de «Addicted!» nem aquela electricidade futurista de «PowerNerd». Não há as epopéias esmagadoras dos STRAPPING YOUNG LAD nem o peso cósmico e elaborado que tornaram «Deconstruction» e «Empath» obras de referência absoluta no metal progressivo.
O universo absurdista do personagem Ziltoid está ausente. A dream-pop poeirenta e contemplativa de «Casualties Of Cool» também. Quem procurar a energia cristalina de «Epicloud» ou a riqueza melódica de «Synchestra» sairá desta experiência com uma sensação de estranheza benigna.
Isso não são falhas. Neste caso, são escolhas. Devin Townsend operou aqui uma depuração radical — ou antes, uma expansão sem rede de segurança — que transforma «The Moth» numa declaração de ruptura com as suas próprias convenções. O álbum existe num espaço próprio: neoclássico na sua espinha dorsal, opulento na orquestração, mas atravessado por surtos de ambiguidade e de uma estranheza deliberada que mantém o ouvinte em permanente estado de alerta.
«The Moth» desenvolve-se como um conceito narrativo detalhado por parte de Townsend— há aqui uma história interna, um arco dramático — mas o que ressoa com maior força é o tema que lhe serve de pano de fundo: a liberdade criativa e o combate interminável do artista contra os seus próprios limites autoimposstos. É um disco sobre criar. Sobre o custo de criar. E, talvez, sobre a impossibilidade de parar de o fazer.
A arquitectura sonora movimenta-se por cordas, metais, sopros e ambientes maximalistas que acabam por suceder-se em erupções episódicas. Alguns momentos funcionam como elos de ligação familiar: a euforia sinfónica e metal de «War Beyond Worlds», o pulso pop-metal nervoso e estranho de «Lexin», ou a épica «Covered By Causes» onde a presença de Anneke Van Giersbergen ao lado de Townsend amplia exponencialmente a dimensão emotiva deste disco. Os interlúdios «Stay There» e «The Mothers» funcionam como janelas caleidoscópicas, fragmentadas e livres de forma, que abrem para paisagens sonoras sem mapa.
Os momentos mais intensos são verdadeiramente desconcertantes na melhor acepção do termo. «Orion» começa com um ruído flatulento — não, não é engano; é escolha — e transforma-se numa corrente de batidas processadas e de um fluxo naturalista tão elegante que parece contradizer tudo aquilo que o precedeu. É um tema que recusa o refrão como estrutura de recompensa, apostando em vez disso na construção atmosférica como fim em si mesmo. Funciona, de forma inexplicável e convincente.
«Home At Night» é, provavelmente, a faixa mais próxima de uma canção no sentido convencional — mas mesmo aqui, Devin Townsend aspira à grandiosidade lenta da ópera erudita, com motivos melódicos que nadam numa torrente sonora onde cordas, sopros e as vozes se fundem com uma coerência meticulosa. A sequência «Prepare For War» / «The Big Snit» é o momento em que se aproxima mais do prog metal canónico, com surtos de guitarra e de bateria que surgem e recuam como pensamentos circulares num momento raro de tranquilidade emocional.
A questão que qualquer crítico honesto deve colocar é esta: será que, no final, «The Moth» é um álbum bem-sucedido? A resposta honesta é que depende inteiramente do que se entende por sucesso. Como exercício de pop ou de metal acessível, não é — nem pretende ser. Como exploração dos limites da visão musical idiossincrática de Devin Townsend, é provavelmente inultrapassável. Ninguém mais, no universo do rock e do metal, seria capaz de conceber este disco. E, ainda mais improvável, de o levar a bom porto.
«The Moth», que ainda está disponível para encomenda, é intrincado, exigente e requer escuta na sua totalidade esmagadora. Dividirá opiniões com a eficácia de algo que foi concebido exactamente para isso. Deslumbrará muitos, por certo. E desconcertará outros tantos. E haverá quem nem sequer lhe encontre a porta de entrada — o que, em boa verdade, diz tanto sobre o ouvinte como sobre o disco.
No entanto, para quem conseguir mergulhar no que propõe sem rede, a recompensa é rara: a sensação de assistir a um espírito criativo em plena liberdade, sem medos, e com uma inteligência musical que continua a não ter paralelo.





