Mais de três décadas depois, o «Soulside Journey» permanece como um documento raro na história dos DARKTHRONE e do metal extremo norueguês.
No dia 13 de janeiro de 1991, os DARKTHRONE lançavam «Soulside Journey», um disco que, 35 anos depois, continua a ocupar um lugar singular na história do metal extremo. Não apenas por ser a estreia em longa-duração de uma banda que viria a redefinir os contornos do black metal norueguês, mas sobretudo por representar um ponto de partida que os próprios DARKTHRONE nunca mais revisitariam de forma directa.
Em retrospectiva, está é uma obra inaugural que, à distância, funciona como um documento arqueológico de uma versão alternativa dos DARKTHRONE — uma banda que existiu plenamente, deixou a sua marca, e depois foi abandonada sem nostalgia.
Falar de DARKTHRONE é, inevitavelmente, falar da génese e consolidação do black metal norueguês. Ao longo das décadas, Fenriz e Nocturno Culto, figuras centrais dessa história, construíram uma discografia marcada por uma coerência estética rara, mas também por uma liberdade criativa que nunca se deixou aprisionar por expectativas externas. O que torna o «Soulside Journey» particularmente fascinante é o facto de esse percurso ter começado num território que, retrospectivamente, parece quase alheio à imagem canónica da banda. Em 1991, os DARKTHRONE ainda eram, acima de tudo, uma banda de death metal.
Essa identidade não surgiu do nada. Antes de adoptarem o nome que ficaria gravado na história, o grupo operava sob a designação BLACK DEATH, um projecto assumidamente alinhado com o death metal mais directo e influenciado pela escola americana e europeia da época. «Soulside Journey» é, nesse sentido, a cristalização desse percurso inicial, agora com meios profissionais e uma ambição artística mais definida. O paradoxo está no facto de este ser o disco que lhes abriu portas, que lhes deu visibilidade e estatuto, e que, ainda assim, nunca serviu de modelo para o futuro imediato da banda.
Pouco tempo depois, os DARKTHRONE mergulhariam num processo de redefinição radical que daria origem a álbuns como «A Blaze In The Northern Sky» e «Under A Funeral Moon», obras fundacionais do norsk black metal. Esses discos acabariam por eclipsar, em termos de notoriedade, a estreia death metal da banda, relegando o «Soulside Journey» para um papel secundário na narrativa dominante. No entanto, essa leitura simplista falha em reconhecer a importância real do álbum, tanto no contexto da evolução da banda como no desenvolvimento do death metal escandinavo no início dos anos 90.
Musicalmente, o «Soulside Journey» é um disco de death metal pleno, ambicioso e surpreendentemente sofisticado para uma estreia. A produção, frequentemente apontada como menos robusta do que a de outros clássicos do género lançados poucos anos depois, não invalida a força das ideias presentes. Pelo contrário, confere ao LP um carácter cru que reforça a sua identidade própria. As estruturas complexas, as mudanças de tempo e o trabalho de guitarra apontam para uma compreensão profunda do género, indo além da mera reprodução de fórmulas estabelecidas.
Logo em «Cromlech», tema de abertura, torna-se evidente a atenção ao detalhe e a vontade de explorar dinâmicas pouco óbvias. Os riffs densos convivem com linhas melódicas que, vistas à distância, antecipam algumas das abordagens que viriam a ser exploradas posteriormente por bandas como os IN FLAMES ou os DARK TRANQUILLITY nos primórdios do death metal melódico sueco. Essa ligação não é directa nem programática, mas acaba por revelar um ecossistema criativo comum, onde ideias circulavam antes de se cristalizarem em subgéneros bem definidos.
Ao longo de mais de quarenta minutos, o álbum de estreia dos DARKTHRONE mantém uma intensidade constante, raramente deixando ao ouvinte espaço para respirar. Há momentos em que a agressividade dá lugar a passagens mais atmosféricas, como acontece em «Accumulation Of Generalization», onde leads prolongados e subtis elementos de teclado introduzem uma dimensão quase introspectiva. Ainda assim, esses desvios nunca quebram a coesão do LP, funcionando antes como variações dentro de um mesmo universo sonoro opressivo e exigente.
Importa sublinhar que o «Soulside Journey» não é apenas relevante por razões históricas. É um disco que resiste ao tempo porque funciona enquanto obra musical autónoma. A escrita é bem sólida, a execução é convincente e a identidade do grupo está claramente definida, mesmo que não tenha sido a escolhida para o futuro da banda. O facto os DARKTHRONE nunca terem regressado de forma explícita a este tipo de death metal não diminui o valor do álbum; pelo contrário, reforça a ideia de que este disco representa um momento específico, irrepetível, capturado sem concessões.
Há algo de profundamente revelador no percurso dos DARKTHRONE quando se observa este início à luz do que viria depois. A banda que ajudou a estabelecer os códigos mais rígidos do black metal norueguês começou por lançar um disco que, em muitos aspetos, celebrava a riqueza estrutural e a a complexidade técnica do death metal. A decisão de abandonar quase por completo esse caminho logo a seguir não foi um erro de cálculo, mas uma afirmação de independência artística. É precisamente essa recusa em repetir fórmulas, mesmo quando bem-sucedidas, que ajuda a explicar a longevidade e relevância contínua desta gente.
Tantos anos depois, o «Soulside Journey» continua a merecer uma escuta atenta, não como curiosidade ou nota de rodapé, mas como capítulo fundamental de uma história mais ampla. É o som de uma banda ainda em formação, mas já consciente do seu potencial, a explorar possibilidades sem saber — ou talvez sem querer saber — para onde esse caminho a levaria depois. Celebrar este aniversário é reconhecer que, por vezes, os pontos de partida são tão importantes quanto os destinos finais.












