D-A-D

D-A-D + THE 69 EYES @ LAV – Lisboa Ao Vivo | 17.01.2026 [reportagem]

Num ponto de equilíbrio perfeito entre o glamour gótico dos THE 69 EYES e a irreverência eléctrica dos D-A-D, o LAV – Lisboa Ao Vivo recebeu um espectáculo que mostrou duas formas distintas de entender o rock.

A digressão Cowpunks And Glampires passou este Sábado, 17 de Janeiro de 2026, por um LAV – Lisboa Ao Vivo completamente esgotado. Os bilhetes tinham desaparecido semanas antes e, desde cedo, era visível que o encontro entre os finlandeses THE 69 EYES e os dinamarqueses D-A-D gerava curiosidade muito para lá dos núcleos de fãs mais fiéis. Duas bandas com histórias longas, públicos distintos e formas quase opostas de entender o rock encontravam-se finalmente em Portugal na mesma noite.

A sala apresentou-se cheia desde cedo, com um público dividido entre gerações e estéticas: de um lado, o contingente de visual gótico que acompanha os THE 69 EYES há décadas; do outro, seguidores de um rock mais clássico e descomplicado, claramente associados aos D-A-D. O ponto de união era simples: todos sabiam ao que vinham.

Coube aos THE 69 EYES abrirem a noite. Formados em Helsínquia, corria o ano de 1989, tornaram-se um dos nomes centrais do chamado goth’n’roll, cruzando glam, sleaze e rock gótico numa fórmula que nunca abandonaram. A formação mantém-se inalterada desde 1992 – Jyrki 69 na voz, Bazie e Timo-Timo nas guitarras, Archzie no baixo e Jussi 69 na bateria – e essa estabilidade explica em grande parte a solidez do grupo ao vivo.

O concerto arrancou com «Devils», uma escolha lógica para estabelecer o clima da actuação. Logo a seguir surgiram «Don’t Turn Your Back On Fear» e «Feel Berlin», ambas do álbum «Devils», de 2004, num início que definiu o registo: cadência marcada, refrões simples e uma postura cénica sempre controlada. Desde cedo ficou claro que o som da sala não ajudava totalmente. A potência estava lá, mas faltou alguma definição nas guitarras e um pouco mais de clareza geral à mistura, o que retirou impacto a certos pormenores.

De seguida, ouviu-se uma versão de «Gotta Rock», dos Boycott, trouxe um momento mais festivo, antes do novo single «I Survive» resgatar o lado mais sombrio do alinhamento. À medida que o concerto avançava, tornava-se claro que a banda não estava interessada em surpresas. O objectivo era outro: apresentar um conjunto de canções que o público conhece de cor, sem grandes desvios.

A meio da actuação, «Betty Blue», «If You Love Me The Morning After» e «Drive» injectaram alguma leveza aos procedimentos, com esta última a destacar-se pelo ritmo mais directo e pela reacção visível da plateia. Em temas como estes, as limitações acústicas do PA da sala voltaram a notar-se, com os arranjos a soarem mais compactos do que seria desejável. «The Chair» funcionou como uma breve pausa, enquanto «Never Say Die» e «I Love The Darkness In You» recordaram fases menos óbvias do percurso dos finlandeses.

Um dos momentos mais marcantes surgiu com «Wasting The Dawn», e já na recta parte final da actuação, os THE 69 EYES recorreram sem reservas aos argumentos mais fortes do seu fundo de catálogo. «Gothic Girl», retirada de «Blessed Be», de 2000, foi recebida como um velho conhecido, e «Brandon Lee» confirmou o estatuto de favorito absoluto entre os fãs portugueses. Mesmo sem o brilho sonoro ideal, a resposta do público compensou qualquer limitação técnica. O encore trouxe «Framed In Blood», «Dance D’ Amour» e, claro, a incontornável «Lost Boys», que contou com a participação especial de Fernando Ribeiro, dos MOONSPELL, e encerrou a actuação num ambiente de satisfação geral.

A transição para os D-A-D trouxe uma mudança imediata de temperatura. Se os finlandeses apostaram num espectáculo controlado e esteticamente uniforme, os roqueiros dinamarqueses entraram em palco com o objectivo declarado de virar a sala do avesso. Formados em Copenhaga em 1982, inicialmente sob o nome Disneyland After Dark antes de o encurtarem por motivos legais, os D-A-D sempre se distinguiram por uma mistura de hard rock melódico, humor irónico e uma atitude cénica assumidamente exagerada. Em Lisboa, mostraram que pouco mudou nessa filosofia.

A actuação abriu coma clássica «Jihad», do álbum «D.A.D Draws A Circle», de 1985, e desde logo se percebeu que o registo seria outro. Logo de seguida, «1st, 2nd & 3rd» e «Girl Nation», ambas de «Riskin’ It All», trataram de consolidar um arranque ruidoso que encontrou eco imediato na metade mais barulhenta da plateia. Aqui, o som do LAV revelou uma face diferente. A abordagem mais directa e volumosa dos dinamarqueses acabou por disfarçar parte das fragilidades, mas a falta de definição nas guitarras voltou a fazer-se sentir, sobretudo nos momentos de maior densidade instrumental.

Ainda assim, a energia em palco compensou qualquer imperfeição. Grande parte da atenção concentrou-se no baixista Stig Pedersen, cuja presença em palco continua a parecer proverbialmente saída de outra década. Movimentos amplos, poses teatrais e uma relação quase acrobática com os seus baixos bizarros transformaram cada tema num pequeno espectáculo dentro do espectáculo. Sim, é um estilo que poderia soar deslocado em 2026, mas que nos D-A-D continua a fazer sentido por ser completamente genuíno.

O repertório mais recente teve espaço relevante com «Speed of Darkness», tema-título do álbum mais recente, editado em 2024, prova de que o grupo não vive apenas de memórias. «Rim Of Hell» e «Riding With Sue» mantiveram o concerto num registo directo, antes de «The Ghost», de «Everything Glows», introduzir um momento de pausa e melancolia. A segunda metade do espectáculo trouxe «Something Good», «Grow Or Pay», «Point Of View» e a sempre celebrada «Monster Philosophy», cantada por uma sala que, a esta altura, já estava completamente rendida. O alinhamento principal fechou com «Everything Glows» e com a descontrolada «Bad Craziness», um dos picos de participação da noite.

No encore, os dinamarqueses souberam gerir emoções. «Laugh ‘n’ a ½», retirada de «No Fuel Left For The Pilgrims» e interpretada em formato acústico, criou um momento mais íntimo, antes de «Sleeping My Day Away» transformar definitivamente a plateia num proverbial lugar de comunhão. O fecho chegou com «It’s After Dark», despedida simples e eficaz, sem necessidade de grandes encenações.

Em Lisboa, como têm feito sempre que passam por cá, os D-A-D mostraram-se uma banda confortável com o próprio passado e ainda capaz de funcionar no presente. Não procuram reinventar-se, é certo, mas também não parecem prisioneiros da nostalgia. Apostam na comunicação directa com o público e num repertório que resiste ao tempo. Portanto, no final, esta passagem da digressão Cowpunks And Glampires por Lisboa acabou por valer precisamente pelo contraste.

Os THE 69 EYES ofereceram um concerto calculado, fiel a uma estética muito específica; os D-A-D responderam com volume, humor e espontaneidade. Entre ambos ficou ainda a lembrança de que o LAV-Lisboa Ao Vivo continua a precisar de um ajuste técnico que permita tirar melhor partido de noites desta dimensão, mas, ainda assim, quando as canções são fortes e as bandas sabem quem são, o resto torna-se secundário.