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CONVERGE: Novo álbum, «Hum Of Hurt», para ouvir na íntegra [review + streaming]

Depois da raiva, o ruído — no segundo álbum de 2026, os CONVERGE voltam à carga e não trazem nenhum consolo.

Há momentos em que uma banda parece capturar, quase involuntariamente, o estado emocional de uma época. Não através de declarações políticas ou posicionamentos calculados por parte dos músicos, mas pelo simples acto de registarem o que sentem enquanto respiram. Os CONVERGE — que, em Fevereiro, já tinha lançado «Love Is Not Enough», um regresso venenoso às origens que parecia improvável de ser igualado tão cedo — voltaram.

E voltaram com «Hum Of Hurt», um disco que vai buscar o título a um fenómeno natural interpretado pela banda como expressão sísmica do sofrimento humano. Não é uma metáfora fácil. Não se destina a sê-lo.

O facto deste ser o segundo álbum de estúdio dos CONVERGE em menos de seis meses — o segundo a sair sob o seu próprio nome, diga-se, após nove anos de silêncio nesse registo — poderia perfeitamente sugerir uma qualidade de sobra ou, pior, uma certa precipitação criativa por parte desta gente. Nenhuma das hipóteses se confirma. O material de ambos os álbuns foi escrito em simultâneo, mas as gravações resultantes são criaturas distintas, cada uma com a sua própria lógica interna, os seus próprios fantasmas.

«Love Is Not Enough» chegou como uma descarga de porrada directa ao maxilar: metal de faca afiada, sem ornamentos, com a tese de que as afirmações reconfortantes são, neste estado do mundo, uma forma de cumplicidade com o desastre. «Hum Of Hurt» não contradiz essa leitura — aprofunda-a. Se o primeiro disco de 2026 era a reacção visceral e imediata ao colapso acumulado, este é tudo o que vem a seguir: o estupor, a rumina, a raiva que não passou mas que aprendeu a sentar-se consigo própria.

Então, afinal, o que distingue musicalmente «Hum Of Hurt» do seu antecessor? Simples: uma mudança de linguagem mais do que de intensidade. O metal dilacerado de «Love Is Not Enough» cede terreno ao hardcore mais puro — mais cru, directo nas suas linhagens, próximo das fontes de onde os CONVERGE nunca se afastaram verdadeiramente. A produção é mais áspera, mais crua; se o anterior cortava como bisturi, este rasga como vidro partido com a palma da mão.

Os pontos altos são inequívocos. «Doom In Bloom» e «I Won’t Let You» são tudo aquilo que se espera de uma banda que, ao fim de três décadas, ainda sabe exactamente onde colocar a faca. Mas é «Dream Debris» — seis minutos de estrutura em permanente colapso e reconstituição — que afirma com maior clareza o que este disco dos CONVERGE veio fazer: não oferecer catarse, mas habitá-la, forçar o ouvinte a permanecer dentro do desconforto em vez de o atravessar rapidamente.

Verdade seja dita, há uma palavra que é tentador usar quando se fala de «Hum Of Hurt» em comparação com «Love Is Not Enough»: acessível. Não seria exacta. O que este disco é, na verdade, é menos imediato — e, no contexto de uma banda que construiu a sua reputação sobre a dificuldade deliberada, essa distinção importa. Nos CONVERGE, “instantâneo” é sempre um conceito relativo. Aqui, o novo disco exige mais tempo, mais paciência, mais disponibilidade para que a tonalidade emocional se instale em vez de rebentar.

O resultado é um álbum que recompensa a atenção continuada de formas que um mais agressivamente directo talvez não consiga. Há uma densidade afectiva aqui que só se revela com a repetição — e essa é, em rigor, a marca dos discos que ficam.

Os CONVERGE nunca foram uma banda para quem a esperança fosse uma categoria operativa. «Hum Of Hurt» não inverte essa posição — confirma-a com uma consistência que, paradoxalmente, é até quase tranquilizadora. Saber que existe uma banda capaz de olhar para o estado das coisas sem pestanejar, sem vender consolação, sem transformar o horror em produto, tem um valor que ultrapassa o estético.

E se os CONVERGE, Jacob Bannon, Kurt Ballou, Nate Newton e Ben Koller, continuarem a este ritmo — há quem sugira, com alguma ironia, que um terceiro álbum neste ano não estaria fora de questão —, fica a pergunta em aberto: até onde é que a devastação do mundo consegue alimentar a arte? A resposta, pelo que aqui se ouve, é que ainda nem sequer chegámos ao fim das reservas.