CHEETAH CHROME

[R.I.P.] Faleceu CHEETAH CHROME, guitarrista dos DEAD BOYS e figura incontornável do punk

Também membro fundador dos ROCKET FROM THE TOMBS, CHEETAH CHROME ajudou a definir o som do punk rock de Cleveland e de Nova Iorque com riffs tão agressivos quanto influentes. Tinha 71 anos.

Cheetah Chrome, guitarrista e co-fundador dos DEAD BOYS, faleceu no Domingo, dia 13 de Setembro, aos 71 anos. A notícia foi anunciada pelos restantes membros da banda através das suas redes sociais, que descreveram o músico como um verdadeiro original” e um dos arquitectos do movimento punk. Nascido Eugene Richard O’Connor, Cheetah Chrome deixa a sua mulher, Anna O’Connor, e o filho Rogan, de 14 anos. A família e os companheiros de banda pediram privacidade neste momento.

Estamos incrivelmente tristes por anunciar a morte do nosso querido amigo e companheiro de banda Cheetah Chrome“, pode ler-se no comunicado assinado por Tony, Chris, Mark e os restantes elementos da família DEAD BOYS. Na mensagem, os três músicos recordaram-no como “um arquitecto do movimento punk rock“, destacando os seus riffs de guitarra ferozes e a energia caótica que levaram a marca dos DEAD BOYS muito para além da cena underground de Cleveland.

No início dos anos 70, Chrome integrou também os ROCKET FROM THE TOMBS, formação fundamental para compreender a evolução do punk norte-americano. Ao lado de David Thomas e Peter Laughner, entre muitos outros, o guitarrista participou na construção de uma sonoridade que rejeitava tanto as convenções do rock tradicional como a distância entre o palco e o público. Os ROCKET FROM THE TOMBS nunca chegaram a editar um LP de estúdio durante a sua existência original, mas a influência da banda viria a revelar-se enorme. Thomas e Laughner seguiriam depois caminhos distintos, criando os incontornáveis PERE UBU, enquanto Chrome encontraria a sua principal plataforma de expressão nos DEAD BOYS.

A nova banda nasceu da ligação entre Chrome, o baterista Johnny Blitz e o vocalista Stiv Bators. Quando se mudaram para Nova Iorque, encontraram no CBGB o palco perfeito para uma música que parecia ter sido concebida para confrontar tudo à sua volta. A seguir, os DEAD BOYS transformaram-se rapidamente uma das formações mais emblemáticas da primeira vaga do punk nova-iorquino. A presença de Chrome na guitarra era central para esse impacto: riffs cortantes, descontrolados e deliberadamente pouco polidos ajudavam a transformar as canções numa espécie de ataque sónico.

Em 1977, essa identidade ficou registada em «Young, Loud And Snotty», o primeiro álbum dos DEAD BOYS. Editado pela Sire Records, o disco tornou-se instantaneamente uma referência do género e ainda permanece, quase cinco décadas depois, como um dos títulos fundamentais da primeira geração do punk rock feito do outro lado do Atlântico. No centro desse legado está a «Sonic Reducer»,a canção tornou-se um dos grandes hinos da época e uma das composições mais reconhecíveis associadas à explosão punk. O riff de abertura, criado por Chrome, tornou-se particularmente emblemático da abordagem da banda: simples, agressiva e impossível de confundir com o rock convencional.

A história dos DEAD BOYS seria, no entanto, relativamente breve. Apesar de terem conseguido um contrato com uma editora de grande dimensão, as tensões internas e as dificuldades inerentes à vida de uma banda em plena explosão punk acabariam por ditar o fim do grupo em 1979. No entanto, a curta existência não os impediude adquirirem uma dimensão muito superior à da sua parca discografia. Tal como aconteceu com várias das bandas pioneiras do punk, o impacto não se mediu apenas pelas vendas ou pelo número de álbuns editados, mas pela capacidade de alterar a percepção sobre aquilo que uma banda de rock podia ser. Chrome foi uma peça essencial nessa transformação.

A sua guitarra ajudou a estabelecer uma linguagem que seria posteriormente absorvida por inúmeras gerações de músicos, desde o punk hardcore ao rock alternativo. A influência dos DEAD BOYS pode ser encontrada tanto na agressividade instrumental como na atitude de inúmeras bandas que surgiram nas décadas seguintes. E, embora a imagem do grupo esteja inevitavelmente associada à energia destrutiva dos seus concertos e à personalidade de Stiv Bators, Chrome foi, sem qualquer dúvida, responsável por uma parte substancial da identidade musical que tornou o grupo tão singular.

Depois do fim da formação original, Chrome continuou sempre ligado ao universo musical e à própria história dos DEAD BOYS. Em 2010, foi publicada a autobiografia “Cheetah Chrome: A Dead Boy’s Tale From The Front Lines Of Punk Rock”, na qual revisitou a sua experiência na primeira linha do movimento punk. O livro foi bem recebido e permitiu conhecer uma perspectiva particularmente próxima de uma das épocas mais turbulentas da história do rock.

Cheetah Chrome também assumiu funções como director criativo da Plowboy Records, uma editora sediada em Nashville. Foi através dessa ligação que, em 2013, surgiu «Solo», o seu primeiro EP a solo, concretizando uma faceta da sua carreira que nunca tinha tido oportunidade de explorar plenamente em formato próprio.

Na mensagem em que anunciaram a sua morte, os companheiros dos DEAD BOYS fizeram questão de ir para além da figura do músico. “O Cheetah era um verdadeiro original, um arquitecto do movimento punk rock. Um furacão de um homem a atravessar a paisagem musical com os seus riffs de guitarra ferozes e a sua energia maníaca.” No entanto, a homenagem também sublinhou uma dimensão mais pessoal do músico: “Para além de tudo isso, o Cheetah era também simplesmente um tipo muito simpático que adorava rock’n’roll.

Cheetah Chrome desaparece aos 71 anos, mas a sua assinatura permanece gravada num dos riffs mais importantes da história do punk. «Sonic Reducer» continua a soar como soava em 1977: urgente, suja e perigosamente viva — precisamente como a música que Chrome ajudou a inventar.