«Starless», o novo single dos A PERFECT CIRCLE, abre caminho para um novo álbum de originais — mas Billy Howerdel recusa comprometer-se com datas.
Depois de mais de dois anos em silêncio discográfico, os A PERFECT CIRCLE ressurgiram no final de Maio com «Starless», o primeiro tema novo desde a edição do álbum «Eat The Elephant», de 2018. Agora, em entrevista à rádio norte-americana 93X de Minneapolis, Billy Howerdel confirma que há mais material em preparação — e que a banda está determinada a trabalhar num novo LP, mesmo que, or enquanto, ainda não haja prazos definitivos (ou publicamente assumidos).
“Estamos a trabalhar em mais música nova. E, no espírito dos prazos flexíveis, não vou dar-vos uma data, mas posso garantir que estamos a caminhar para algo“, disse o guitarrista e principal compositor dos A PERFECT CIRCLE durante a conversa com o apresentador Kevin Kellam. A declaração, simultaneamente entusiasmante e cuidadosa, é característica da forma como a banda tem gerido a sua comunicação ao longo dos anos — revelando o suficiente para alimentar a expectativa sem alimentar falsas promessas.
O momento da entrevista não é neutro: Os A PERFECT CIRCLE encontram-se em digressão pela Europa, num rota iniciada no início de Junho, em Londres, e que passa pelo festival NOS Alive no dia 9 de Julho. A estrada, reconhece Billy Howerdel, não é o ambiente mais propício à criação.
“Às vezes penso, de forma optimista, que vou trablhar nos novos temasdurante a digressão, mas estamos com seis concertos feitos, duas semanas de digressão, e este foi o primeiro dia em que realmente dormi. Dormi, fui ao ginásio, comi uma refeição completa — e não tem sido assim. Para avançar a sério no novo álbum, preciso de mais alguns dias assim durante as próximas semanas de tour”, admitiu o músico com uma honestidade que raramente se encontra neste tipo de declarações públicas.
Parte do que torna os A PERFECT CIRCLE uma proposta singular no panorama do rock alternativo norte-americano reside na relação criativa entre Billy Howerdel e o vocalista Maynard James Keenan — figura central também dos TOOL e do projecto multimédia PUSCIFER, e uma das personalidades mais esquivas e exigentes do rock contemporâneo.
Howerdel fala dessa dinâmica com uma clareza que é, ela própria, reveladora: “Sinto-me mais criativo com ele do que com outros músicos. Quando é hora de trabalhar, é hora de trabalhar. Ou é hora de disparatar e falar de tudo e nada — e então é isso que fazemos. Mas quando é hora de trabalhar, estamos dentro. Não é uma coisa super séria o tempo todo, mas é focado.”
A descrição de Keenan traçada por Howerdel é a de alguém com uma disciplina rara no meio musical. “O Maynard é, pelo menos, uma das três pessoas mais trabalhadoras que conheço, com visão real, convicção — uma visão que vai executar com tenacidade. Uma vez que o comboio começa a andar, vai andando. E isso é bem reconfortante. Não antecipo que fique em ‘ah, não sei, isto não está a correr como queríamos.’ Não — vamos descobrir. Vamos definir prazos flexíveis, que na verdade podem até ser prazos rígidos, mas os nossos prazos flexíveis são bastante intensos. São para ser cumpridos.“
É uma imagem que desmonta o mito do génio errático que trabalha apenas quando a musa se digna a aparecer. Para o timoneiro dos A PERFECT CIRCLE, a criatividade é também uma questão de pressão autoimposta: “Não se pode forçar a maior ideia a surgir, mas pode-se motivar-se ao ponto de pensar: ‘se não cumprir este prazo, acontecem coisas más.’ É um fogo aceso mesmo debaixo de nós.“
O single «Starless», lançado em Maio, foi gravado no Lankershim Ranch Studio de Howerdel, em Studio City, na Califórnia, e escrito no início deste ano. A produção é do próprio Howerdel, mas a mistura ficou a cargo de Matty Green — conhecido pelo seu trabalho com os U2, FLORENCE + THE MACHINE e os TV ON THE RADIO — e a bateria foi assegurada por Josh Freese, colaborador de longa data da banda.
A escolha de «Starless» como ponto de entrada para o novo ciclo dos A PERFECT CIRCLE não é inocente. Trata-se de um tema que recupera a densidade emocional característica da banda sem soar a repetição — e que, pelo contexto em que surge, funciona como um sinal inequívoco de que o colectivo não está simplesmente a revisitar o passado, mas a construir algo novo a partir de uma posição de maturidade.
Formados em 1999 por Howerdel e Keenan, os A PERFECT CIRCLE impuseram-se de imediato com «Mer De Noms» (2000), álbum de estreia que entrou na Billboard 200 norte-americana na quarta posição e se tornou o LP de estreia de uma banda de rock com melhor entrada em tabela até então — um feito que, no contexto da viragem do milénio, quando o rock alternativo atravessava uma fase de muita saturação, foi tanto uma surpresa como uma afirmação de intenções.




