“É muito emocionante ter o Marko ao meu lado em palco”, declara TARJA TURUNEN. A dupla inicia hoje mais uma rota da digressão ‘Living The Dream Together’ no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.
Há reencontros que não acontecem por nostalgia, nem por cálculo estratégico. Acontecem porque, após muitos anos, o tempo deixa de ser um peso e passa a ser contexto. O regresso de TARJA TURUNEN aos palcos portugueses, que acontece hoje, quinta-feira, 29 de Janeiro, no Coliseu dos Recreios, ganha uma dimensão particular por integrar esse reencontro tão aguardado com Marko Hietala, outra figura central de uma era decisiva dos NIGHTWISH e peça fundamental na história do metal sinfónico europeu.
Durante anos, a simples ideia de ver Tarja e Marko novamente lado a lado em palco pareceu improvável. As circunstâncias da separação, o silêncio prolongado e a carga simbólica associada à formação clássica da banda finlandesa aproximaram essa possibilidade e quase tabu. Hoje, esse reencontro acontece sem dramatizações, sustentado por uma maturidade que só o afastamento permitiu construir.
“É muito emocionante ter o Marko ao meu lado em palco”, admite Tarja, sem rodeios. Não se trata apenas de dividir canções ou vozes, mas de revisitar uma história comum sob uma luz completamente diferente. “Tenho de dizer que é uma experiência muito emocional para nós os dois, acho eu. Tendo em conta o nosso passado e o facto de que, na verdade, não nos chegámos a conhecer bem quando estávamos numa banda. Agora conhecemo-nos realmente, estamos em contacto e tornámo-nos amigos.”
Essa afirmação ajuda a reposicionar o passado. Nos NIGHTWISH, Tarja e Marko partilharam palcos, discos e reconhecimento global, mas nunca chegaram sequer a desenvolver uma relação pessoal profunda. Este reencontro nasce precisamente dessa ausência anterior. “Por isso, tudo é muito diferente”, sublinha. “Não há nervos nem há tensão entre nós quando estamos juntos. Estamos simplesmente a amar o que fazemos, porque somos muito gratos por ainda podermos fazer isto.”
A consciência do legado é assumida sem reservas. Tarja não tenta sequer fugir à sua condição histórica dentro da banda finlandesa. “Eu serei sempre a primeira cantora dos NIGHTWISH, a cantora original dos NIGHTWISH. Serei sempre isso.” A afirmação não surge como reivindicação, mas como constatação serena de um percurso que moldou um género inteiro. “Estou muito orgulhosa desses anos e orgulhosa da música que fizemos juntos.”
O tempo revelou-se determinante para que esse passado deixasse de ser um fardo. “É exactamente isso”, responde, quando confrontada com a ideia de que foi preciso distância para transformar a história em contexto. O reencontro só acontece porque não aconteceu cedo demais, porque não tenta reescrever nada, nem recuperar uma fórmula encerrada há muito. “Tornámo-nos algo diferente do que éramos no passado. E isso fez a diferença no mundo do metal.”
O momento simbólico dessa reaproximação remonta a um convite específico. “Foi porque lhe pedi para se juntar a mim num concerto na Suíça há alguns anos. Acho que há três anos ou algo assim.” O tema que os dois cantaram juntos não poderia ser mais revelador. “Escolhemos a «The Phantom Of The Opera» e foi um momento incrível.” A partir daí, a colaboração deixou de ser hipótese distante para se tornar realidade concreta. “Senti que ele precisava disto tanto quanto eu precisava.”
No concerto de hoje à noite em Lisboa, esse reencontro ganha ainda maior peso por ser a primeira data de mais uma rota da digressão Living The Dream Together. “Lisboa vai ser o primeiro concerto, por isso vai haver muitos nervos”, confessa Tarja entre risos. “Toda a gente vai estar nervosa, tenho a certeza.” A estrutura da banda reflete essa natureza internacional e transitória, com músicos de diferentes países e rotinas pouco convencionais. “Não ensaiamos juntos, mas cada um de nós faz o seu trabalho individualmente. E depois, quando chegamos ao primeiro local, fazemos soundchecks longos.”
Apesar disso, a ligação humana parece sobrepor-se a qualquer insegurança técnica que possa surgir. “A verdade é que estamos simplesmente a usufruir do que fazemos”, reforça. O espectáculo é descrito como “uma celebração linda da amizade e do metal sinfónico. Um concerto emocional e muito poderoso.” Uma definição que encaixa na perceção de um público que, segundo Tarja, aguardava este momento há muito tempo. “Acho que as pessoas estão mesmo, mesmo entusiasmadas com estes concertos com o Marko.”
Lisboa surge, assim, como palco privilegiado para esse momento de síntese ímpar. Tarja reconhece a relação especial com o público português, sublinhando o impacto emocional dessa ligação. “Recebo mensagens diariamente de Portugal. As pessoas estão super entusiasmadas com o próximo concerto.” E reforça a importância do contexto em cada actuação. “O ambiente, as pessoas, a sala, a sensação. Vou com o fluxo, por isso o sítio onde estou afecta-me sempre”, confessa ela.
Importa ainda referir que este reencontro não se limita ao palco. Marko Hietala participa também no novo álbum de Tarja, actualmente em fase final de mistura. “Vamos definitivamente continuar a fazer música juntos”, confirma. Ainda assim, a artista é clara quanto aos limites desta colaboração ao vivo. “Oficialmente dizemos que esta vai ser a última digressão.” Não como fecho definitivo, mas como sinal de que o essencial já foi conquistado: a possibilidade de partilhar música sem o peso do passado.
No fundo, o concerto no Coliseu dos Recreios não propõe um regresso aos NIGHTWISH, nem tenta recuperar uma era cristalizada na memória colectiva. Propõe algo mais raro: dois músicos que aceitaram o passado comum, reconheceram a importância um do outro e escolheram reencontrar-se no presente. “Somos muito gratos por ainda podermos fazer isto”, resume Tarja. E é nessa gratidão, mais do que na nostalgia, que este reencontro encontra a sua verdadeira força.
Os bilhetes para o concerto de TARJA TURUNEN e MARKO HIETALA, que conta ainda com o rock musculado dos ROK ALI AND THE ADDICTION e a teatralidade dos SERPENTYNE na primeira parte, custam 37€, disponíveis em primeartists.eu e nos locais habituais.















