No Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a digressão ‘Living The Dream Together’, que juntou TARJA e MARKO HIETALA no mesmo palco, mostrou que algumas histórias só ganham sentido quando o tempo deixa de ser obstáculo e passa a ser contexto.
Durante anos, a ideia de TARJA TURUNEN e MARKO HIETALA voltarem a partilhar um palco soava a uma fantasia alimentada apenas por fãs nostálgicos do metal sinfónico. Duas décadas após o fim de uma das parcerias mais emblemáticas do género, o peso simbólico associado à formação clássica dos NIGHTWISH tornou essa possibilidade quase tabu.
No entanto, a surpresa começou a ganhar contornos reais a 3 de Agosto de 2023, no festival Z7 Summer Nights em Pratteln, na Suíça, quando os dois subiram ao palco juntos para tocar a «The Phantom Of The Opera» — marcando a primeira vez em cerca de 18 anos que dividiram o palco desde a saída de Tarja da banda em 2005. Este momento acabou por desencadear uma sequência de apresentações conjuntas e a colaboração levou à Living The Dream – The Hits Tour 2024, solidificada no ano passado com a edição do single «Left On Mars», lançado no ano passado.
A passagem da digressão Living The Dream Together por Lisboa, a 29 de Janeiro, no Coliseu dos Recreios, confirmou que este reencontro não nasce apenas da nostalgia nem sequer de cálculo estratégico, mas de uma maturidade construída à distância. No entanto, antes de tirarmos as teimas, a noite teve início com actuações dos SERPENTYNE e os ROK ALI & THE ADDICTION, que, sem alaridos e com um som bastante desiquilibrado, lá cumpriram a função de preparar o ambiente numa sala ainda algo despida.
Felizmente, a plateia do Coliseu dos Recreios encheu-se gradualmente, com o público e, quando MARKO HIETALA subiu ao palco, foi recebido com uma ovação imediata. A escolha de «Frankenstein’s Wife», um dos temas centrais do seu mais recente álbum a solo, revelou-se certeira para abrir um concerto marcado pela proximidade entre o artista e o público. O impacto da sua presença foi amplificado pelo contexto da ausência prolongada do nosso país, tornando o momento ainda mais significativo — como, de resto, ele próprio fez questão de mencionar várias vezes durante a noite.
Fiel ao seu registo irónico e desarmante, Marko foi pontuando o seu concerto com comentários bem-humorados, provando que o afastamento dos palcos não lhe retirou a veia de entertainer. Ao longo de um alinhamento de dez temas, equilibrou material recente, como «The Dragon Must Die» e «Impatient Zero», com composições mais antigas da sua carreira a solo, como «Isäni ääni (The Voice Of My Father)» e «Juoksen rautateitä». E a reacção calorosa da plateia arrancou-lhe um sorriso genuíno que se repetiria ao longo de todo o set.










Não estranhamento, o momento decisivo chegou quando TARJA TURUNEN se juntou a ele em palco para interpretar «Left On Mars». As vozes cruzaram-se com uma naturalidade que desmentiu anos de afastamento e deu forma concreta a algo que Tarja descreveu sem rodeios em entrevista à LOUD!: “É muito emocionante ter o Marko ao meu lado em palco.”
Olhando para o palco não restavam dúvidas, o reencontro de ambos carrega um significado que vai muito além da música e a ausência de tensão foi evidente. Antes de se despedir temporariamente do público, o músico terminou a actuação com uma interpretação intensa de «Stones», e a ausência de referências aos TAROT acabou por ser a única nota por explorar num concerto amplamente celebrado.
Mais de três horas depois da abertura de portas, TARJA TURUNEN regressou finalmente ao palco como protagonista absoluta. Com a introdução «The Golden Chamber (Loputon Yö)» a dar o épico mote para o que se seguiria, a cantora abriu com «Eye Of The Storm», seguida de «In For a Kill», reafirmando desde cedo a vitalidade de uma carreira que se mantém relevante e coerente. «Undertaker» reforçou essa ideia e, de seguida, o público foi presenteado com dois temas há muito afastados dos alinhamentos de Tarja: «500 Letters» e «Crimson Deep», que não eram tocados ao vivo, respectivamente, desde 2020 e 2012.
De seguida, «Demons In You» e «Victim Of Ritual», esta última com um outro expandido, deram espaço para os músicos que a acompanham brilharem. Alex Scholpp e Doug Wimbish assumiram o centro das atenções durante os solos, num momento que sublinhou a solidez da banda que a acompanha.
Após uma rápida mudança de figurino, Tarja regressou acompanhada novamente pelo Sr. Hietala, com ambos a protagonizarem um segmento acústico carregado de significado e composto por excertos de «The Crying Moon», «Feel For You», «Eagle Eye» e «Higher Than Hope». Por esta altura, o público já estava rendido ao charme de ambos, mas o que se seguiu fez o gáudio dos fãs, com a dupla a atirar-se, novamente em formato eléctrico a dois clássicos dos Nightwish, «Slaying The Dragon» (com Marko a tropeçar na letra) e «Wishmaster», intercalados pela «Silent Masquerade».










Verdade seja dita, não se tratou de revisitar uma era cristalizada, mas de aceitar o passado como parte de um percurso maior. “Serei sempre a primeira cantora dos NIGHTWISH, a cantora original dos NIGHTWISH. Serei sempre isso”, disse-nos Tarja uns dias antes deste espectáculo de abertura da nova digressão, numa constatação serena, longe de qualquer reivindicação. “Estou muito orgulhosa desses anos e orgulhosa da música que fizemos juntos.” Foi exactamente isso que transpareceu no Coliseu dos Recreios, ainda antes da cantora regressar sozinha para «I Walk Alone».
Com o concerto a aproximar-se do fim, o encore trouxe «Dead Promises», a apóteose com «Wish I Had An Angel», num último dueto carregado de simbolismode Tarja com Marko, seguida da despedida com «Until My Last Breath». No rescaldo da noite, ouviu-se mais do que uma vez um simples “uau”. Houve também espaço para desejos não concretizados, como a ausência de «The Phantom Of The Opera», tema que marcou um dos primeiros momentos desta reaproximação.
No entanto, para quem cresceu com estas vozes como banda sonora formativa, o concerto no Coliseu dos Recreios não propôs um regresso aos NIGHTWISH, nem tentou reescrever a história. Propôs algo mais raro: dois músicos que aceitaram o seu passado comum e escolheram reencontrar-se no presente. “Somos muito gratos por ainda podermos fazer isto”, tinha-nos confessado a sempre simpática Tarja. E foi nessa gratidão, mais que na nostalgia, que esta noite encontrou a sua verdadeira força.











