Depois de um período marcado por formações alargadas e colaborações diversas, os SUNN O))) voltam ao formato duo, regressam à sua essência primordial e estreiam-se na histórica Sub Pop.
O regresso à forma mais elementar sempre foi uma constante cíclica na história dos SUNN O))), mas raramente soou tão deliberado e assumido como agora. A banda norte-americana anunciou oficialmente o lançamento do seu décimo álbum de estúdio, um disco homónimo, com edição prevista para o dia 3 de Abril, marcando simultaneamente a sua estreia na lendária Sub Pop. Mais que um simples novo capítulo, o novo registo afirma-se como um reencontro consciente com a identidade nuclear do projecto, reduzido novamente ao seu duo fundador: Stephen O’Malley e Greg Anderson.
Como primeiro vislumbre deste trabalho, os SUNN O))) divulgaram o tema de encerramento do disco, «Glory Black», uma peça extensa e esmagadora que mantém intacta a assinatura drone da banda, mas que introduz subtis variações rítmicas e harmónicas que a tornam, de forma quase paradoxal, uma das entradas mais acessíveis do seu catálogo recente. A faixa funciona como uma declaração de intenções: densa, lenta, imersiva e fisicamente avassaladora, mas com um sentido de progressão que prende logo o ouvinte desde os primeiros minutos.
Ora bem, depois de, em 2024, terem explorado novas possibilidades sonoras com o «Eternity’s Pillars», registo que já apontava para uma depuração da fórmula, os SUNN O))) optam agora por um regresso ainda mais radical à origem. O novo álbum foi gravado sem quaisquer colaboradores externos, algo que reforça a dinâmica criativa entre O’Malley e Anderson e sublinha uma abordagem que privilegia acima de tudo a fisicalidade do som, o peso do drone e a interacção directa entre amplificadores, espaço e tempo.
Segundo os próprios SUNN O))), esta decisão não surge como um recuo, mas como uma afirmação de maturidade artística e confiança absoluta na linguagem que ajudaram a definir ao longo de mais de duas décadas. As gravações tiveram lugar nos Bear Creek Studios, no estado de Washington, um espaço rural afastado de centros urbanos, cuja envolvência natural acabou por desempenhar um papel determinante no processo criativo. A escolha do local não foi apenas logística, mas conceptual, permitindo à banda trabalhar sem pressões externas e mergulhar completamente na experiência sonora que pretendiam captar.
Stephen O’Malley descreve esse ambiente como parte integrante do disco, sublinhando a importância do contacto direto com a natureza durante as sessões: “A enorme sala de gravação tinha grandes janelas com vista para as árvores. Podíamos ir caminhar, estar no meio da floresta, passar tempo ao ar livre. Isso acabou por se tornar uma parte muito importante do processo.” A dimensão espacial do estúdio, aliada à paisagem envolvente, parece ter influenciado não só a escala sonora do álbum, mas também o seu ritmo interno e a forma como as composições respiram.
Essa sensação de liberdade criativa é igualmente destacada por Greg Anderson, que aponta a ausência de constrangimentos temporais como um factor decisivo para o resultado final. “Era um espaço muito acolhedor e confortável. Não havia stress, nem preocupação com prazos ou calendários. Limitámo-nos a deixar-nos levar e a deixar a música surgir.”
Segundo o guitarrista dos SUNN O))), a experiência acumulada nos últimos anos de concertos enquanto duo, sem a presença de outros músicos ou vozes convidadas, acabou por revelar-se surpreendentemente revitalizante. “Aquilo que tem acontecido nos nossos concertos ao longo dos últimos anos, apenas os dois e sem outros colaboradores, tem sido realmente fresco e entusiasmante.” Essa energia renovada parece ter sido canalizada directamente para o novo álbum.
Além de tudo isso, o lançamento de um álbum homónimo numa fase tão avançada da carreira não é um gesto inocente. Pelo contrário, sugere uma redefinição identitária, como se os SUNN O))) estivessem a reafirmar quem são, agora que já não têm nada a provar nem a justificar. Ao regressarem ao formato de duo e ao despojamento estrutural que marcou os seus primeiros passos, O’Malley e Anderson não estão a revisitar o passado por nostalgia, mas a usá-lo como ponto de partida para um presente artisticamente seguro e consciente.
Com edição marcada para 3 de Abril, e as pré-encomendas dos formatos físicos já em andamento, este décimo álbum promete não só consolidar a relação da banda com a Sub Pop, mas também reafirmar o lugar singular dos SUNN O))) no panorama da música pesada contemporânea. Num tempo em que a expansão e a colaboração parecem ser a norma, o duo escolhe a contenção, o foco e a profundidade, demonstrando que, por vezes, a verdadeira evolução passa por regressar ao essencial.

01. XXANN | 02. Does Anyone Hear Like Venom? | 03. Butch’s Guns | 04. Mindrolling | 05. Everett Moses | 06. Glory Black











