Num concerto que contou também com MAKE THEM SUFFER e DAYSEEKER, os MOTIONLESS IN WHITE mostraram como uma nova geração de bandas construiu uma relação directa e intensa com o público fora dos canais habituais da indústria musical.
A noite de dia 7 de Março marcou a estreia dos MOTIONLESS IN WHITE em Portugal, um momento aguardado há muito por uma comunidade de fãs que foi crescendo de forma discreta, mas bastante consistente, ao longo da última década. Exactamente por isso, a Sala Tejo da MEO Arena encheu para um concerto que trouxe a Lisboa a actual digressão europeia da banda norte-americana, acompanhada pelos DAYSEEKER e MAKE THEM SUFFER.
A abertura ficou a cargo destes últimos, que encontraram uma sala ainda algo despida, mas surpreendentemente participativa para o primeiro concerto da noite. O grupo australiano apresentou um alinhamento directo e sem grandes pausas, centrado na vertente mais pesada do metalcore que tem marcado a sua discografia. «Ghost of Me» surgiu sem grande preparação e bastaram alguns segundos para que o peso se fizesse sentir na Sala Tejo.
Logo de seguida, «Bones» e «Epitaph» mantiveram essa intensidade inicial e o restante alinhamento mostrou uma banda confortável a navegar entre descargas de brutalidade e a melodia, com «Mana God» e «Oscillator» a anteceder «Erase Me» e «Doomswitch», recebido como um pequeno clímax antecipado para quem já conhecia o repertório do grupo. Resultado: em pouco mais de meia hora, os MAKE THEM SUFFER conseguiram algo que nem sempre acontece nos primeiros concertos da noite e transformaram a curiosidade inicial da sala num envolvimento genuíno.



Seguiram-se os norte-americanos DAYSEEKER, cuja ascensão se tornou particularmente evidente nos últimos anos. Embora a banda exista há mais de uma década, foi sobretudo no período pós-pandemia que o seu nome começou a circular com maior força dentro do circuito do rock alternativo e do pós-hardcore contemporâneo.
Esta actuação em Lisboa confirmou essa mudança de escala. Logo nos primeiros temas, tornou-se claro que grande parte da plateia conhecia profundamente o repertório do grupo, e não se tratava apenas de acompanhar os refrões: havia um envolvimento visível com as letras, como se muitas daquelas histórias pessoais encontrassem eco na experiência de quem estava na sala.
Logo de início, «Pale Moonlight» estabeleceu o tom atmosférico da actuação e, sem pausas, os músicos avançaram rapidamente para «Shapeshift» e «Burial Plot», dois temas que evidenciaram a combinação de melodias expansivas e momentos mais intensos. A resposta dos fãs tornou-se particularmente notória nos refrões, cantados em uníssono por um público que parecia conhecer bem cada viragem das canções.
«Crawl Back To My Coffin» destacou-se como um dos pontos centrais do alinhamento, seguido de perto por «Bloodlust», com a banda a reduzir ligeiramente o ritmo com «Without Me» e «Crying While You’re Dancing», dois temas que reforçam a vertente mais melódica do repertório recente dos DAYSEEKER. Já na recta final, «Creature in the Black Night» antecedeu «Sleeptalk», um dos temas mais emblemáticos do seu repertório e o concerto terminou com «Neon Grave», que encerrou a actuação num registo bem intenso.











Se os DAYSEEKER acabaram por funcionar como uma ponte emocional a meio do cartaz, a entrada dos MOTIONLESS IN WHITE em palco trouxe consigo uma mudança clara de escala. As luzes apagaram-se e, poucos segundos depois, tornou-se evidente que a banda tinha trazido a Lisboa a produção completa da actual tour, que terminou esta noite em Lisboa. O palco apresentava vários níveis, integrando um ecrã na estrutura da bateria, e um enorme painel visual que ocupava toda a largura do fundo do palco.
Ao longo de todo o concerto, essas superfícies projectaram imagens da actuação, mas também outras, que acompanharam a estética sombria dos MOTIONLESS IN WHITE, sendo que essa forte componente foi reforçada por efeitos pirotécnicos frequentes, uma enorme explosão de confettis e pela presença das Cherry Bombs, o colectivo performativo liderado por Alicia Taylor (a esposa de Corey Taylor, vocalista dos SLIPKNOT), que surgiu várias vezes em palco com coreografias deliberadamente provocadoras e adereços inesperados — incluindo rebarbadoras que, por mais de uma ocasião, projectaram faíscas pelo ar.
Apesar do aparato, o centro da actuação manteve-se sempre nas canções. O concerto arrancou com uma versão condensada de «Meltdown», que funcionou quase como uma introdução antes da banda entrar definitivamente no ritmo da noite com «Sign of Life» e «A.M.E.R.I.C.A». Desde cedo tornou-se evidente que a plateia conhecia bem o repertório, com «Thoughts & Prayers» a trazer os primeiros momentos de verdadeira comunhão, reforçado logo de seguida por «Voices», cujo refrão foi acompanhado por toda a sala.
A breve passagem por «Afraid Of The Dark» manteve a intensidade em alta e preparou o terreno para «Werewolf», uma das canções mais reconhecidas da fase recente dos MOTIONLESS IN WHITE. A meio do alinhamento, os músicos apostaram numa sequência que cruzou material mais recente com temas já estabelecidos no seu repertório ao vivo. «Hollow Points» e «Necessary Evil» mantiveram a energia antes de «Slaughterhouse», um dos momentos mais pesados da noite.
A seguir, «Rats» e «Disguise» trouxeram novamente à tona a vertente mais melódica dos MOTIONLESS IN WHITE, enquanto «Nothing Ever After», originalmente gravada com ILLENIUM, introduziu um breve desvio na dinâmica do espectáculo. A recta final foi construída como uma sucessão de momentos bem conhecidos dos fãs. «Scoring The End Of Ihe World» abriu a sequência que conduziu o concerto até ao desfecho, seguida por «City Lights» e «Not My Type: Dead as Fuck 2», que surgiram com uma energia que parecia estar a expandir-se claramente para além dos limites do palco.
Essa sensação de expansão não é, de resto, totalmente surpreendente quando se olha para o percurso desta gente. Quando os MOTIONLESS IN WHITE começaram a circular na internet na era do malogrado MySpace, poucos imaginariam que duas décadas depois estariam a apresentar concertos desta dimensão numa tour europeia. O grupo atravessou diferentes ciclos da música alternativa — modas, mudanças de estética e, claro, transformações profundas na indústria —, mas conseguiu manter uma identidade visual e sonora bastante reconhecível.
Ao longo desse processo, foram ajustando detalhes, refinando a forma como combinam influências que vão do metal industrial ao rock gótico e ao metalcore moderno. O resultado desse crescimento tornou-se particularmente evidente no concerto desta noite: um espectáculo que conjugou teatralidade, produção visual e um repertório desenhado para proporcionar uma linha de comunicação directa com o público.







Em palco, Chris “Motionless” Cerulli continua a ser a figura central dessa ligação. O vocalista conduz o espectáculo com uma mistura de intensidade e proximidade que raramente parece ensaiada. Em vários momentos interrompeu brevemente o concerto para agradecer a recepção portuguesa e para sublinhar também a importância desta digressão.
“Vocês esgotaram este concerto duas vezes! Já estava esgotado, pusemos mais bilhetes à venda e esgotou outra vez!!!”, exclamou ele a dada altura, observando durante uns segundos a plateia como se estivesse a interiorizar aquele momento. Houve também instantes em que simplesmente se deixou ficar em silêncio, a olhar para toda aquela gente à sua frente e a absorver o ambiente. Pequenos gestos que quebraram o ritmo frenético do espectáculo e criaram também momentos de proximidade inesperada numa sala desta dimensão.
Importa referir aqui que essa relação directa com os fãs tem sido, aliás, uma das marcas mais consistentes da trajectória da banda. Ao longo dos anos, os MOTIONLESS IN WHITE construíram grande parte da sua base de seguidores através de uma comunicação constante com quem os acompanha, sobretudo através das redes sociais. Esse contacto contínuo criou uma sensação de pertença que se reflectiu claramente no concerto de Lisboa.
O final chegou sem recorrer ao ritual clássico, e desnecessário, do encore. Em vez disso, os MOTIONLESS IN WHITE conduziram o alinhamento directamente até «Another Life» e «Eternally Yours», o tema que encerrou o concerto com a sala inteira a cantar. Nesse momento, as Cherry Bombs regressaram ao palco com rosas vermelhas que lançaram para o público enquanto Chris percorria a passarela que entrava pela plateia a dentro para entregar algumas aos fãs que estavam ali mais perto.
Esse gesto final resumiu a lógica de toda a noite. Para os MOTIONLESS IN WHITE, o crescimento não se construiu apenas através de álbuns, singles ou campanhas promocionais, mas sim através de uma relação contínua com quem acompanha a sua carreira. Em Lisboa, essa ligação tornou-se bastante evidente numa sala onde milhares de pessoas cantaram letras escritas a milhares de quilómetros de distância e, para uma banda que começou por conquistar seguidores num espaço virtual ainda embrionário, esta noite na Sala Tejo esgotada confirmou que a comunidade que formaram continua a crescer — e está preparada para acompanhar os próximos capítulos desta história.






