Editado a 30 de Janeiro de 1996, o «FILTH PIG» continua a ser aquele disco que ninguém pediu aos MINISTRY, mas que a banda fez questão de gravar. Três décadas depois, envelheceu melhor do que quase todos os seus contemporâneos.
Faz hoje trinta anos que os MINISTRY editaram o «Filth Pig», um álbum que, à data, soou como um erro estratégico e que, com o distanciamento do tempo, se afirmar como um dos gestos mais radicais e mais conscientes da carreira de Al Jourgensen. Depois do impacto esmagador de «Psalm 69», amplificado por uma passagem da banda pelo Lollapalooza de 1992 e pela rotação noturna de «Just One Fix» e «N.W.O.» na MTV, a expectativa era clara: capitalizar o momento, alargar o alcance e transformar o metal industrial num produto pensado para as rádios. O que os MINISTRY entregaram foi exactamente o contrário.
Foram três anos e meio de silêncio até ao lançamento de «Filth Pig», tempo suficiente para que uma nova vaga de bandas — GRAVITY KILLS, STABBING WESTWARD, FILTER, GOD LIVES UNDERWATER — ocupasse o espaço que os MINISTRY tinham ajudado a criar. Todas operavam, com maior ou menor destreza, a partir da cartilha definida em «The Land Of Rape and Honey» ou «The Mind Is A Terrible Thing To Taste». A solução lógica teria sido seguir esse caminho.
No entanto, Al Jourgensen e Paul Barker optaram antes por fazer um LP deliberadamente hostil, fechado sobre si mesmo, agressivamente pouco convidativo, ilustrado por um homem com um capacete de carne a segurar uma pequena bandeira norte-americana. Essa imagem resume muito bem a natureza do disco. O comentário político, sempre frontal na obra de Jourgensen, surge aqui de forma quase abstracta, mais como ruído de fundo do que como discurso articulado.
Ao contrário do que aconteceria mais tarde na trilogia anti-Bush composta por «Houses Of The Molé», «Rio Grande Blood» e «The Last Sucker», em «Filth Pig» a raiva é difusa, pouco direccionada, visceral. O próprio AL Jourgensen admitiu, numa entrevista da época, que passou grande parte do processo “a fazer isto tudo sozinho — a injectar heroína e a tocar guitarra”. O disco soa exactamente assim: isolado além do saudável, obsessivo, intoxicado.
Quem acompanhou a evolução dos MINISTRY, da pop sintética de «Twitch» à violência electrónica de «The Land Of Rape And Honey», e daí à consolidação do metal industrial em «Psalm 69», reconhece ainda elementos familiares: BPMs elevados, riffs distorcidos, samples desconfortáveis e uma estranha pulsação dançável. Mas o «Filth Pig» desloca o foco. A abertura com «Reload» ainda parece funcionar como uma ponte — um ataque curto, abrasivo, quase caricatural, onde o ruído da guitarra se aproxima mais de um exercício de tortura auditiva do que de um riff tradicional. No entanto, é um último gesto de reconhecimento antes do mergulho no podredo.
O tema-título estabelece o verdadeiro tom do álbum: seis minutos de sludge espesso, sustentados por um riff minimalista, mais próximo dos FAITH NO MORE ou dos QUICKSAND do que do metal industrial clássico dos MINISTRY. A «Lava» aprofunda essa abordagem, arrastando o ouvinte por um andamento médio exaustivo, interrompido apenas por um sample irritante que se repete até ao limite da paciência. Em 1996, foi aqui que muitos desistiram — trocando o disco por «October Rust» ou relegando-o a mero objecto utilitário.
O percurso torna-se ainda mais inóspito com «Crumbs», que começa por sugerir uma recuperação de terreno para depois se afundar num exercício de resistência rítmica, marcado por pratos esmagadores e pela ausência quase total de estrutura convencional. Não há refrões no sentido clássico; há só pequenas variações, modulações subtis, recompensas mínimas para quem insiste. Uma frase destaca-se no meio do caos — “You’ll eat a plate of shit covered in refried crumbs” — lembrando que o sarcasmo de Jourgensen continua presente, mesmo soterrado.
«Dead Guy» é, paradoxalmente, o momento mais acessível do álbum. Depois da desordem de «Useless», a canção constrói tensão de forma paciente, introduzindo um groove pesado que remete para os HELMET em «Meantime», enquanto camadas de guitarra adicionam densidade atmosférica ao tema. Feita toda a matemática, para quem procura um ponto de entrada neste álbum dos MINISTRY, esta faixa e a própria «Filth Pig» continuam a ser as escolhas mais evidentes.
O restante alinhamento vai-se diluíndo em paisagens sonoras instáveis, de «The Fall» a «Brick Windows» e «Game Show», antecipando uma tendência do Sr. Al Jourgensen para alongar ideias até ao limite da saturação — algo que marcaria também trabalhos posteriores. A versão da «Lay Lady Lay», original de Bob Dylan, gravada por Jourgensen à revelia de Barker, funciona como um comentário irónico e até algo inesperado, subvertendo completamente a canção e encerrando o LPnum tom tão provocador quanto coerente.
Trinta anos depois, o «Filth Pig» permanece um objecto estranho, desconfortável e profundamente anti-comercial. Não é um disco fácil, nem particularmente agradável, mas é um retrato honesto de uma banda a recusar o papel que lhe foi atribuído. Num catálogo marcado por mudanças constantes, é talvez o LP que melhor ilustra até que ponto os MINISTRY sempre estiveram dispostos a alienar parte do seu público para preservar a sua identidade.
Hoje, livre do peso das expectativas, o «Filth Pig» soa definitivamente menos a erro e mais a declaração de intenções. Uma má ideia executada com convicção total. E, por isso mesmo, um disco que continua a merecer ser ouvido.












