MEGADETH

MEGADETH: Novo álbum, «Megadeth», para ouvir na íntegra [review + streaming]

Os MEGADETH despedem-se como sempre viveram: sob o comando absoluto de Dave Mustaine, indiferentes a expectativas alheias ou consensos fáceis.

Há discos que funcionam como um ponto final claro; outros preferem a ambiguidade do reticente “até já”. Pois bem, os MEGADETH parecem optar pela primeira via no seu álbum de despedida, «Megadeth», um registo que assume, de forma bastante deliberada, o papel de balanço final de uma carreira marcada por inovação, conflitos, regressos e obsessões nunca totalmente resolvidas.

Anunciado no Verão passado como o derradeiro capítulo dos MEGADETH, o disco chegou acompanhado por um plano de comunicação grandioso, com recurso a vídeo assistido por IA e declarações que soaram imediatamente familiares. Dave Mustaine, o único elemento fundador ainda em funções na banda, não é de fazer as coisas pela metade — e não resistiu a enquadrar o fim da banda como um acontecimento de proporções quase apocalípticas, sugerindo que MEGADETH “mudaram o mundo”.

Esta teatralidade não surpreende, mas contrasta com a realidade prática: depois de superar um cancro na garganta e problemas neurológicos bastante graves, o guitarrista e vocalista lida agora com artrite e com a chamada doença de Dupuytren, uma condição degenerativa que lhe limita seriamente a mobilidade dos dedos. A decisão de encerrar a carreira dos MEGADETH surgiu durante as gravações do álbum, embora a posterior extensão da digressão de despedida — anunciada para durar vários anos — relativize qualquer ideia de corte abrupto.

Ainda assim, «Megadeth», o álbum, soa, em muitos momentos, como um fecho consciente de ciclo. Em vez de uma tentativa de regressar de forma integral ao thrash cru que ajudaram a moldar nos anos 80, o novo disco prefere revisitar diferentes fases da carreira, num exercício de síntese que evidencia tanto os pontos fortes como as fragilidades do percurso dos MEGADETH.

O início é particularmente convincente: a já conhecida «Tipping Point» afirma-se como uma canção de abertura irrepreensível, agressiva e precisa, reafirmando o estatuto dos MEGADETH enquanto pioneiros do género. «Made To Kill» e «Let There Be Shred» seguem a mesma linha, esta última equilibrando-se perigosamente entre o ridículo lírico e a eficácia musical. Versos como “on the day I was born, a guitar in my hand, the earth started rumbling a thunderous command” poderiam afundar qualquer canção menos inspirada, mas aqui são sustentados por riffs e solos suficientemente incisivos para justificar o exagero.

O álbum não se limita, porém, à cartilha thrash. «I Don’t Care» recupera a vertente mais punk da banda, remetendo para escolhas como a célebre versão de «Anarchy In The UK» no final dos 80s. Muito mais inesperada é a reabilitação da faceta melódica que os MEGADETH exploraram de forma controversa na segunda metade dos anos 90.

Discos como «Cryptic Writings» e «Risk» continuam a dividir os fãs, mas o Sr. Mustaine parece pouco interessado em pedir desculpas. Pelo contrário, temas como «Puppet Parade» demonstram que sempre teve capacidade para escrever canções mais acessíveis sem abdicar completamente da sua identidade, e isso vem sublinhar uma competência composicional que nem sempre lhe foi reconhecida.

Tecnicamente, o disco mantém o nível elevado que se espera dos MEGADETH. Apesar de uma história marcada por constantes mudanças de formação — a lista de ex-membros já ultrapassa as duas dezenas — a actual encarnação da banda revela coesão e precisão. Teemu Mäntysaari, o mais recente guitarrista que integrou o grupo, encaixa com naturalidade na linguagem musical de Mustaine, contribuindo para um trabalho sólido ao nível instrumental.

É, no entanto, na segunda metade do álbum que surgem os problemas mais evidentes. O fôlego criativo esbate-se ligeiramente e a lógica de resumo de carreira parece incluir, talvez involuntariamente, alguns dos sintomas de desgaste que têm marcado os lançamentos mais recentes da banda.

«Obey The Call» destaca-se negativamente, tanto pela monotonia musical como pelas letras centradas em marionetistas ocultos e forças conspirativas que controlam o mundo, reflexo direto de uma visão do mundo cada vez mais paranoica por parte de Mustaine, amplificada por aparições públicas e discursos polémicos fora do contexto musical. O tema de fecho, «The Final Note», hesita entre a nostalgia e um tom de provocação: por um lado, tenta emocionar com imagens de despedida e memória; por outro, fecha com um tom desafiador, como se o adeus tivesse de ser acompanhado por um último gesto de confronto.

Esse gesto acaba por surgir de forma ainda mais explícita no tema bónus, a muiro falada versão de «Ride The Lightning», clássico dos METALLICA para o qual Dave Mustaine contribuiu antes de ser afastado da banda em 1983. A escolha é, no mínimo, desconcertante. Encerrar um álbum que pretende celebrar o legado de MEGADETH recuperando o fantasma da expulsão de outra banda levanta mais perguntas do que respostas. Ainda para mais porque não se trata de uma reinvenção radical da canção, nem de uma demonstração inequívoca de superioridade artística.

A leitura é polida, talvez um pouco mais pesada, mas essencialmente fiel ao original. Resta saber se o objectivo é reafirmar uma autoria reivindicada há décadas ou simplesmente chamar atenção adicional para o derradeiro lançamento. Seja qual for a motivação, o gesto é 100% coerente com a personalidade artística de Dave Mustaine.

Ao longo de mais de 40 anos, poucas questões foram tão persistentemente revisitadas como a sua saída dos METALLICA. Trazer esse episódio para o centro das atenções uma última vez é, paradoxalmente, uma forma honesta de fechar um ciclo. «Megadeth» não é um álbum irrepreensível, nem tenta sê-lo. É longo, irregular e por vezes excessivo, mas também fiel à história da banda, com todas as suas contradições. No fim, funciona como um retrato sem retoques dos MEGADETH: capazes de momentos brilhantes, presos a velhas batalhas, tecnicamente irrepreensíveis e emocionalmente conflituosos. Um adeus que, tal como a carreira que resume, dificilmente poderia ser simples na forma ou no conteúdo.