«Liturgy of Death» não é apenas mais um disco na longa discografia dos MAYHEM. É a prova de que, mesmo depois de décadas de influência e controvérsia, a banda continua a encarar a música extrema como um espaço de reflexão, confronto e afirmação artística.
Há bandas cuja história ameaça constantemente engolir a música que criaram. No caso dos MAYHEM, o peso simbólico dos seus primórdios continua a pairar sobre qualquer nova edição, como uma sombra difícil de ignorar. Ainda assim, reduzir o percurso do grupo norueguês a episódios de caos e morte seria um erro grosseiro.
Mais do que protagonistas involuntários de uma mitologia extrema, ao longo de mais de quatro décadas os MAYHEM afirmaram-se, como uma das forças verdadeiramente formadoras do black metal, não só à custa da provocação, mas sobretudo pela consistência artística e pela recusa em repetir fórmulas. Agora, «Liturgy of Death» surge como mais um capítulo autónomo dessa discografia que nunca se comportou como um arco linear.
Tal como alguém observou nestas páginas a propósito de «Daemon», a carreira dos MAYHEM funciona como uma antologia: cada álbum é um corpo fechado, com uma identidade própria, construído em torno de um conceito bem definido. Aqui, o tema é a morte — não enquanto choque gratuito, mas enquanto a inevitabilidade metafísica que todos (re)conhecemos. É um assunto quase óbvio para um grupo com este tipo de legado, mas também profundamente coerente com a maturidade que os MAYHEM demonstram nesta fase da sua carreira.
Musicalmente, o disco apresenta os MAYHEM em controlo absoluto dos seus meios. Attila Csihar oferece uma das prestações mais expressivas do seu percurso recente, alternando entre as habituais vocalizações cavernosas, registos animalescos e uma série de passagens limpas de cariz quase operáticas, como a que se ouve em «Despair». O alcance emocional é obviamente muito amplo: da recusa instintiva da morte à sua aceitação resignada, tudo é comunicado com uma teatralidade contida, mas profundamente eficaz.
LOgo de início, nota-se bem que a secção rítmica funciona como o eixo central deste LP. Hellhammer mantém-se implacável, sustentando longas passagens de blastbeats com precisão quase mecânica em temas como «Ephemeral Eternity» ou «Aeon’s End», mas sabendo também quando abrandar para que as variações rítmicas venham reforçar o peso dramático das composições, como acontece em «Propitious Death». Necrobutcher, por seu lado, faz do baixo uma presença densa e ameaçadora, ora fundindo-se com as guitarras, ora emergindo com linhas sinuosas e pesadas, como em «Realm Of Endless Misery».
Nas guitarras, Teloch e Ghul equilibram tradição e desconforto. Há riffs enredados e cortantes em «Weep For Nothing», descargas de tremolo furioso que evocam o segundo ciclo do black metal em «Funeral Of Existence», e solos erráticos que surgem mais como intensos rasgos de tensão que como momentos de virtuosismo gratuito, particularmente evidentes em «Aeon’s End».
Tudo isto converge para «The Sentence Of Absolution», talvez o final mais poderoso que os MAYHEM já gravaram: um tema lento e hipnótico, onde as guitarras dissonantes e a fúria calculada de Hellhammer conduzem a música até um desfecho ritualista, marcado por percussão tribal e cânticos, que se dissolve num silêncio carregado de significado.
Com pouco menos de cinquenta minutos, «Liturgy Of Death» afirma-se como um álbum denso sem ser excessivo. A produção permite perfeitamente distinguir claramente cada instrumento, até nos momentos mais saturados, e as raras sensações de compressão sonora não chegam a comprometer esta experiência. Trata-se de um LP que exige escuta atenta: muitas das suas subtilezas passam despercebidas em audições superficiais, mas revelam-se com clareza à medida que o ouvinte regressa às canções e se deixa absorver pelo seu ritmo interno.
No balanço final, este «Liturgy Of Death» confirma algo que já não deveria surpreender, mas continua a impressionar: os MAYHEM recusam envelhecer artisticamente. Num estilo onde a estagnação tende a ser frequente, e incentivada, estes noruegueses continuam a apresentar LPs sólidos, musicalmente relevantes e desafiantes, reafirmando o seu estatuto como referência incontornável do black metal. De resto, é esse vigor criativo que torna particularmente aguardado o seu regresso a Portugal, marcado para o dia 14 de Fevereiro, para uma data onde será possível testemunhar a materialização desta liturgia sombria.












