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LIVE NATION: Funcionários apanhados a gozar com fãs em mensagens internas: “Estas pessoas são tão estúpidas”

Troca de mensagens entre responsáveis pela bilhética da LIVE NATION revela comentários depreciativos sobre fãs e estratégias para aumentar as taxas que lhes são cobradas.

Revelações surgidas no âmbito do processo movido pelo Departamento de Justiça norte-americano contra a LIVE NATION trouxeram a público uma troca de mensagens internas que expõe, de forma particularmente crua, a forma como alguns responsáveis da empresa discutiam a aplicação de taxas adicionais ao público presente nos seus concertos.

Os documentos, divulgados esta semana e inicialmente reportados por publicações como a Variety e a Bloomberg, incluem uma conversa ocorrida em 2022 na plataforma Slack entre dois directores regionais ligados à área de bilhética da promotora: Ben Baker e Jeff Weinhold. No centro da conversa estavam as chamadas “taxas auxiliares” associadas a espectáculos — custos adicionais frequentemente cobrados por serviços como estacionamento ou aluguer de cadeiras em recintos ao ar livre.

Durante a troca de mensagens, Weinhold sugeriu a possibilidade de criar lugares de estacionamento VIP a 250 dólares por viatura nos espectáculos da LIVE NATION. A reacção de Baker foi imediata. “Estas pessoas são tão estúpidas”, escreveu ele, acrescentando pouco depois: “Quase me sinto mal por estar a aproveitar-me delas.”

A conversa prosseguiu num tom semelhante. Baker referiu-se a práticas já existentes em alguns recintos, indicando que a empresa cobrava “50 dólares para estacionar na relva” e “60 dólares para estacionar na relva mais próxima”. A frase seguinte tornaria a troca de mensagens particularmente embaraçosa para a promotora: “Estamos a roubá-los à descarada, baby. É assim que fazemos.”

Inicialmente, a LIVE NATION ainda tentou impedir que estas mensagens fossem utilizadas como prova no julgamento actualmente em curso nos Estados Unidos. No entanto, um advogado do Departamento de Justiça argumentou que a conversa oferecia “uma visão franca de como encaram os preços”, e o juiz Aran Subramanian concordou com essa posição e ordenou a divulgação integral dos documentos.

A reacção pública da empresa foi rápida. Num comunicado citado pela imprensa norte-americana, um porta-voz da promotora tentou minimizar o episódio, descrevendo Baker como “um funcionário júnior” que estava apenas a conversar com “um amigo” numa mensagem privada. A mesma declaração sublinha que a liderança da empresa apenas tomou conhecimento da troca de mensagens quando esta se tornou pública e que o caso será agora analisado internamente.

“A troca de mensagens no Slack de um funcionário júnior para um amigo não reflete de forma alguma os nossos valores ou a forma como operamos”, lê-se no comunicado da LIVE NATION. “Como se tratava de uma mensagem privada, a liderança só tomou conhecimento do conteúdo quando este foi tornado público e irá analisar o assunto prontamente.”

A empresa acrescentou ainda que o seu modelo de negócio depende de experiências positivas para o públicoe destacou medidas recentes, incluindo um limite máximo de 15% para determinadas taxas em recintos ao ar livre e um investimento de mil milhões de dólares realizado durante os últimos 18 meses em infraestruturas e melhorias em espaços de espectáculos nos Estados Unidos.

Apesar desta tentativa de controlo de danos, vários detalhes revelados nos documentos judiciais vêm levantar questões sobre a caracterização de Baker como um simples funcionário júnior. De acordo com uma reportagem do The New York Times, o executivo desempenhava funções como responsável pela área de bilhética na divisão Venue Nation da LIVE NATION e estava previsto que testemunhasse no julgamento. Já Jeff Weinhold é descrito como director sénior de bilhética para a região de Washington.

As mensagens surgem num momento particularmente sensível para a LIVE NATION, que está a enfrentar um processo de grande dimensão movido pelo Departamento de Justiça norte-americano, centrado na relação estrutural entre a promotora e a plataforma de bilhética TICKETMASTER. A investigação procura determinar se a estrutura da empresa cria condições de domínio excessivo no mercado de concertos ao vivo.

No início desta semana, a LIVE NATION chegou a um acordo preliminar com o Departamento de Justiça que evitou, para já, uma divisão forçada da empresa. Ainda assim, o caso está longe de terminado. Vinte e sete estados norte-americanos — incluindo Nova Iorque, Califórnia e Colorado — avançaram também com acções legais paralelas e continuam a pressionar por mudanças estruturais no sector.

A divulgação das mensagens internas acrescenta assim um novo elemento ao debate em torno do custo crescente de assistir a concertos ao vivo. Para muitos dos fãs, as taxas adicionais associadas a bilhetes, estacionamento ou serviços dentro dos recintos tornaram-se parte inevitável da experiência. Agora, as conversas reveladas em tribunal mostram que, pelo menos em alguns casos, esses valores eram discutidos internamente com um grau de cinismo que dificilmente passará despercebido ao público — ou aos tribunais.