KREATOR

KREATOR: Novo LP, «Krushers Of The World», para ouvir na íntegra [review + streaming]

«Krushers Of The World» até pode não ser o disco mais inovador da carreira dos KREATOR, mas compensa largamente com paixão, inteligência e uma execução irrepreensível.

Há algo de quase milagroso em ver uma banda de heavy metal atravessar quatro décadas sem perder 1% da sua relevância, dignidade ou identidade. No universo ferozmente competitivo da música pesada, onde as tendências nascem e morrem à velocidade de um blastbeat, sobreviver é difícil; e prosperar é raríssimo. Os KREATOR não só conseguiram esse feito, como chegam ao seu 16.º álbum de estúdio num estado de forma que muitas bandas mais jovens dificilmente igualam. «Krushers Of The World» não é apenas mais um capítulo numa longa discografia — é a confirmação de que o grupo alemão continua a operar num nível de excelência quase intimidante.

Curiosamente, a banda liderada por Mille Petrozza é hoje maior do que alguma vez foi nos seus supostos anos dourados. Se nos 80s eram um dos pilares do thrash alemão, ao lado dos SODOM e DESTRUCTION, no Séc. XXI os KREATOR transformaram-se num verdadeiro colosso global, capazes de encabeçar arenas na Europa e de figurar entre os nomes mais respeitados do metal mundial. Muito disso deveu-se à fase iniciada com «Violent Revolution», em 2001, quando regressaram de forma decidida às raízes thrash, depois de uma década de 90 marcada por experiências que dividiram opiniões.

Esses discos dos anos 90 — particularmente o «Renewal» e o «Outcast» — foram vistos por muita gente como desvios polémicos. Hoje, no entanto, soam menos como erros e mais como tentativas honestas de evolução num período em que o thrash atravessava uma crise de identidade. Ao contrário de vários pares que sucumbiram ao desespero artístico nessa fase, os KREATOR nunca pareceram realmente perdidos; só curiosos e inquietos. Quando reencontraram o seu ‘mojo’ thrash no virar do milénio, fizeram-no com uma convicção que raramente falhou desde então.

O «Krushers Of The World» surge, assim, na sequência de uma série de álbuns quase irrepreensíveis — de «Enemy Of God» a «Hordes Of Chaos», passando por «Satan Is Real» e «Hate Über Alles». Nestas últimas duas décadas, os KREATOR tornaram-se autênticas máquinas de criar hinos modernos… E este novo registo parece concebido precisamente para alimentar essa tradição.

Desde os primeiros minutos percebe-se que não há aqui qualquer crise criativa. O álbum soa como um proverbial disparo concentrado de 45 minutos de thrash furioso, polido por uma produção moderna e ocasionalmente temperado com nuances mais contemporâneas. Não reinventa a roda, mas a verdade é que também nunca tenta fazê-lo — a força de «Krushers Of The World» está na confiança absoluta com que executa a sua missão.

Os três singles lançados antecipadamente já nos tinham dadoum vislumbre claro do que estava para vir. «Seven Serpents» é um monstro de velocidade e melodia, repleto de riffs letais e de refrões prontos para incendiar plateias. «Satanic Anarchy» canaliza a indignação política típica de Mille Petrozza, envolta num thrash brutal e cortante.

E depois há «Tränenpalast», provavelmente o momento mais surpreendente do álbum: uma homenagem atmosférica ao clássico de terror Suspiria, que reutiliza elementos da banda sonora de forma engenhosa e conta com a participação vocal de Britta Görtz, dos HIRAES. É uma peça sombria e cinematográfica que mostra que, mesmo dentro de um formato aparentemente rígido, os KREATOR ainda encontram espaço para serem criativos.

No entanto, onde muitos discos de metal se limitam a apresentar dois ou três momentos fortes e encher o resto com material genérico, este álbum mantém o nível do início ao fim. O tema-título afirma-se como um hino imediato de união e fúria, destinado a tornar-se presença obrigatória nos alinhamentos ao vivo. «Barbarian» acelera o ritmo, combinando agressividade crua com um sentido melódico apurado. «Blood Of Our Blood», por seu lado, mostra os KREATOR no seu modo mais selvagem, com tempos furiosos e um solo incandescente de Sami Yli-Sirniö.

Mesmo nos momentos menos vertiginosos, o novo LP dos KREATOR nunca chega a perder intensidade. «Combatants» aposta num andamento mais contido mas igualmente ameaçador; «Psychotic Imperator» mergulha num caos controlado com toques de prog; e «Deathscream» recupera aquela mistura clássica de violência e acessibilidade que sempre definiu os melhores momentos do grupo. O fecho com «Loyal To The Grave», por seu lado, funciona como declaração de princípios. É uma ode sentida aos fanáticos que acompanharam a banda durante décadas, mas sem soar a exercício gratuito de nostalgia.

A verdade é que escrever grandes canções de metal é muito mais difícil do que os KREATOR nos fazem parecer. Após mais de quarenta anos de carreira, seria compreensível que mostrassem sinais de desgaste ou repetição. Em vez disso, Petrozza e companhia apresentam um álbum muito coeso, inspirado e cheio de energia juvenil. Num género onde tantas lendas se acomodam ao estatuto, estes músicos continuam a lutar como se tivessem tudo a provar. E enquanto fizerem música com estes níveis de intensidade e de convicção, poucas bandas terão argumentos para lhes disputar o trono do thrash moderno.