KREATOR

KREATOR arrancam nova digressão em Lisboa num momento de forma impressionante

Mais de quatro décadas depois de terem dado os primeiros passos, os KREATOR apresentam-se mais relevantes que nunca com a novidade «Krushers Of The World» e, hoje à noite, sobem ao palco da Sala Tejo com uma confiança rara.

Mais de quarenta anos após a sua fundação, os KREATOR continuam a contrariar todas as probabilidades. Num género onde a sobrevivência já é, por si só, um feito, a banda alemã não só se mantém activa como atinge novos picos criativos e de popularidade. O concerto desta noite na Sala Tejo da MEO Arena, em Lisboa, marca o arranque da digressão de promoção a «Krushers Of The World», o seu 16.º álbum de estúdio — um registo que surge como confirmação inequívoca da vitalidade do colectivo liderado por Mille Petrozza.

É neste contexto que as palavras de Mille Petrozza em conversa com a LOUD! ganham particular peso. Questionado sobre a longevidade dos KREATOR, o músico admite que, nos primeiros anos, o futuro nunca foi uma preocupação central. “Quando és novo, não pensas dessa forma; vais na onda. Vais de uma digressão para outra, vais de um disco para outro e, de repente, já passaram 30 anos e continuas a fazer disto vida.” Ainda assim, havia uma ambição clara desde cedo: “Quando fiz as primeiras entrevistas para o «Endless Pain» ou para o «Pleasure To Kill», claro que já desejava ter uma longa carreira.”

Há algo de particularmente significativo neste momento da carreira dos KREATOR. Se, nos anos 80, eram um dos pilares do thrash alemão ao lado de nomes como SODOM e DESTRUCTION, hoje em dia são um colosso global, capazes de encabeçar grandes salas e festivais por toda a Europa. Essa ascensão tornou-se ainda mais consolidada sobretudo a partir de «Violent Revolution», lançado em 2001, quando a banda regressou de forma decidida às raízes mais agressivas após uma década de experimentação que dividiu opiniões.

Discos como «Renewal» e «Outcast», outrora vistos como desvios polémicos, são hoje encarados com outro distanciamento: não como erros, mas como sinais de inquietação criativa numa altura em que o thrash procurava redefinir-se. E, ao contrário de muitos dos seus pares, os KREATOR nunca pareceram perder completamente o rumo.

Esse percurso, no entanto, não foi apenas fruto de determinação. “As coisas podiam ter corrido muito mal. Tivemos mesmo muita sorte”, reconhece Petrozza, sublinhando a importância de factores externos numa indústria imprevisível. “Há muitas bandas talentosas que continuam a viver na cave e não conseguem ir a lado nenhum porque não têm essa sorte. Nesta indústria não basta só ter talento, é preciso estar no sítio certo, à hora certa.”

A par dessa lucidez, mantém-se a exigência criativa que tem sustentado a consistência dos KREATOR. “É preciso ter uma mente aberta e capacidade de reinvenção de tempos a tempos”, disse ele, acrescentando: “Eu sou o meu maior crítico, mas também sou muito apaixonado pela música que faço.” Essa dualidade é, sem dúvida, parte da explicação para a capacidade que os KREATOR têm para continuarem relevantes num cenário em constante mutação.

E a verdade é que, a partir do momento em que reencontraram o seu núcleo identitário no virar do milénio, fizeram-no com uma consistência que se prolonga até aos dias de hoje, apoiada em álbuns como «Enemy Of God», «Hordes Of Chaos», «Gods Of Violence» e «Hate Über Alles».

É precisamente nessa linha que surge «Krushers Of The World», um disco que não tenta reinventar a fórmula, mas que a executa com uma confiança quase absoluta. Ao longo de cerca de 45 minutos, a banda entrega um thrash intenso, directo e polido por uma produção moderna, sem nunca perder o sentido de urgência que sempre definiu a sua identidade. Mais do que surpreender pela inovação, o mais recente álbum dos KREATOR impressiona pela solidez e pela forma como mantém um nível elevado do início ao fim.

Os primeiros sinais desse poder já tinham sido dados com os singles de avanço. «Seven Serpents» apresenta-se como um ataque imediato, combinando velocidade, melodia e refrões pensados para o impacto ao vivo. Já «Satanic Anarchy» recupera a veia mais politizada de Mille Petrozza, envolta num thrash cortante e agressivo. Mas é «Tränenpalast» que introduz um elemento inesperado: uma peça atmosférica inspirada no clássico de terror Suspiria, enriquecida pela participação de Britta Görtz (dos HIRAES), que revela uma faceta mais sombria e cinematográfica da banda.

Ao longo do disco, os momentos fortes sucedem-se sem grandes quebras. O tema-título «Krushers Of The World» surge como um hino imediato, pensado para unir plateias e tornar-se presença constante nos alinhamentos ao vivo. «Barbarian» intensifica o ritmo com uma combinação eficaz de agressividade e sentido melódico, enquanto «Blood Of Our Blood» destaca o lado mais visceral da banda, impulsionado por um solo incisivo de Sami Yli-Sirniö. Mesmo quando abrandam ligeiramente o andamento, como em «Combatants», os KREATOR mantêm uma tensão latente, explorando dinâmicas que evitam qualquer sensação de repetição.

Outros momentos, como «Psychotic Imperator», introduzem subtis nuances progressivas dentro de um caos controlado, enquanto «Deathscream» recupera a combinação clássica de violência e acessibilidade que sempre marcou os pontos mais altos da discografia dos KREATOR. O encerramento com «Loyal To The Grave» funciona como declaração de princípios: uma homenagem aos fãs que acompanharam o percurso do grupo ao longo das décadas, sem cair em sentimentalismos excessivos.

Portanto, com «Krushers Of The World» a reforçar uma discografia já impressionante e a nova digressão a arrancar em Lisboa, os KREATOR apresentam-se como um caso raro de longevidade aliada a relevância. Num género onde tantas lendas se acomodam ao seu legado, o grupo alemão continua a avançar com a mesma convicção de sempre — como se ainda tivesse algo a provar. E, no fundo, é essa imprevisibilidade que continua a alimentar o entusiasmo da banda.

“Posso dizer-te que aprecio principalmente quando o público está um pouco preguiçoso no princípio do concerto e, depois, os conseguimos agarrar. É aí que acontece a magia”, confessa o simpático Mille.