Três décadas depois, o segundo álbum dos KORN continua a ser um retrato cru de excesso, tensão interna e afirmação criativa.
A 15 de Outubro de 1996, os KORN lançaram o seu segundo álbum, «Life Is Peachy», um registo que consolidou a ascensão iniciada com o disco homónimo de 1994 e que, três décadas depois, continua a ser visto como um dos marcos fundamentais do nu metal. Gravado num período de excessos e também de instabilidade interna, o álbum tornou-se o retrato cru de uma banda que vivia no limite — artística e pessoalmente.
Quando o LP de estreia começou a ganhar estatuto e reconhecimento, os KORN já estavam mergulhados numa rotina de consumo intenso de álcool e de drogas. Verdade seja dita, a sobriedade era praticamente exclusiva dos momentos em palco. Fora dele, a memória dos meses anteriores começava a esbater-se. No final da digressão do disco de estreia, o grupo entrou em estúdio para preparar o seu sucessor sem ideias estruturadas nem direcção definida.
Como recordaria mais tarde Jonathan Davis, “Não sabíamos o que queríamos fazer. Não tínhamos nada escrito e eu não sabia sobre o que queria cantar. Mas havia uma grande energia e muito impulso a nosso favor, por isso tínhamos de entrar e fazê-lo.”
O processo criativo começou com os quatro instrumentistas dos KORN — James “Munky” Shaffer, Brian “Head” Welch, Reginald “Fieldy” Arvizu e David Silveria — a desenvolverem ideias em conjunto. Um riff inicial, uma batida inesperada ou um padrão rítmico acabariam por servir como ponto de partida para longas sessões de improvisação. A abordagem manteve-se fiel à identidade da banda de Bakerfield: uma fusão de metal alternativo, hip-hop e texturas herdadas da new wave, trabalhada de forma colectiva.
A meio do processo o produtor Ross Robinson, figura central na construção do som da estreia, juntou-se de novo ao grupo. Robinson não se limitou a acompanhar as gravações; mergulhou nas tensões internas, questionando motivações e explorando fragilidades emocionais. “Queria ajudá-los a capturar o fogo deles e garantir que continuava completamente aceso”, afirmou décadas depois . “Trabalhei com cada um deles para que percebessem porque estavam a fazer o que faziam. A minha abordagem era muito profunda e, por isso, descobrimos muitas feridas não curadas.”
Se, criativamente, os KORN encontravam inspiração, no plano pessoal a situação era bem mais volátil. Discussões frequentes e sessões interrompidas por excessos tornavam o processo errático. Jonathan Davis é bastante directo quanto lhe pedem para recordar esse período: “Bebíamos quantidades massivas de tudo, e quando estávamos completamente fodidos ninguém queria estar perto de nós. Eu, por exemplo, mordia as pessoas quando estava bêbado. Mordi todos na banda com força. Não sabia o que estava a fazer e não queria saber.”
Em Abril de 1996, os KORN entraram nos Indigo Ranch Studios, em Malibu, para gravar o segundo LP. O ambiente isolado do estúdio ajudou a concentrar energias e a concluir o material, sendo que o resultado foi um álbum mais directo e agressivo, mas igualmente confessional. As letras de Davis expõem traição, autodestruição e excesso com uma frontalidade tocante.“A maioria das letras surgiu de uma forma muito espontânea”, explicou Davis. “Muito do que lá está era o que eu estava a viver. Em «A.D.I.D.A.S.» [que inclui a frase ‘all day I dream about sex’] estou simplesmente a cantar sobre mim mesmo. Sou um tipo obcecado por sexo.”
Lançado a 15 de Outubro de 1996, o «Life Is Peachy» entrou directamente para o terceiro lugar da tabela de vendas da Billboard. A 8 de Janeiro de 1997 alcançou o estatuto de ouro, menos de três meses após a edição, e, onze meses depois, atingiu a marca de platina. Actualmente soma já dupla platina nos Estados Unidos e é frequentemente apontado como um dos títulos mais emblemáticos de toda a discografia dos KORN. Resultado: três décadas depois, permanece como um documento de tensão e afirmação criativa, captando uma banda que transformou a instabilidade e o excesso em identidade artística num momento decisivo para o metal dos anos 90.







