Uma sala cheia até ao limite, três bandas em pleno domínio das suas linguagens e a confirmação de que o metal contemporâneo continua a reinventar-se sem perder peso nem identidade. Os JINJER, muito bem acompanhados pelos UNPROCESSED e TEXTURES, transformaram o LAV – Lisboa Ao Vivo numa sala sem fronteiras — e totalmente esgotada.
Na noite de 6 de Fevereiro, o LAV – Lisboa Ao Vivo revelou-se insuficiente para conter a dimensão real do que se passou na Sala 1. O espaço estava cheio muito antes dos cabeças de cartaz subirem ao palco, com a chuva lá fora a dificultar a circulação nas entradas e saídas. Ainda assim, o que mais chamava a atenção não era só a lotação esgotada, mas quem por ali andava.
Camisolas de bandas, coletes carregados de patches e a indumentária clássica do metal e do street wear conviviam com um número significativo de espectadores em roupa comum, sem qualquer marcador identitário do género. Torna-se desde logo óbvio: em 2026, os JINJER já não são apenas uma banda pesada para um público especializado; tornaram-se um ponto de contacto entre mundos que, há uns anos, raramente se cruzavam.
A crescente dimensão da produção de um espectáculo actual dos JINJER refletiu-se num palco carregado de equipamento, um cenário que condicionou desde logo a actuação dos TEXTURES, responsáveis pela abertura da noite. Com seis músicos em palco, o espaço disponível revelou-se apertado, obrigando Bart Hennephof, Joe Tal, Remko Tielemans e Daniel de Jongh a alinharem-se praticamente colados à frente do palco em alguns momentos.
A limitação física, no entanto, não teve impacto visível na segurança da performance. Com 25 anos de carreira, a banda neerlandesa demonstrou uma naturalidade que só o tempo confere enquanto esteve em palco. Com esta digressão a servir também para assinalar o regresso aos discos após uma longa pausa iniciada em 2013, os temas de «Genotype», lançado recentemente, foram recebidos com atenção, mas também com curiosidade, funcionando como prova de continuidade mais do que de reinvenção.
Não estranhamente, em palco, dez anos depois do último álbum, os TEXTURES retomam o seu discurso exactamente onde o deixaram: um metal progressivo tecnicamente rigoroso, claramente orientado para um peso mais musculado e directo. As guitarras alternam entre passagens minuciosamente trabalhadas e riffs de ataque mais frontal, criando um equilíbrio eficaz entre complexidade e impacto imediato.
Abriram a actuação com «Closer To The Unknown», um tema que ganha uma dimensão completamente diferente ao vivo. Ontem, percebeu-se que a versão de estúdio é incapaz de captar o verdadeiro peso e a amplitude da canção, que no LAV surgiu em cena como um bloco compacto de energia e intenção. Logo ao primeiro tema, a movimentação começou a formar-se de forma espontânea, sinal inequívoco de uma ligação imediata entre banda e público.
E sim, há algo de profundamente revelador quando um concerto ganha corpo logo desde os primeiros minutos; esse impacto inicial merece reconhecimento, independentemente da dimensão da sala ou do lugar ocupado no cartaz. Sem perderem tempo, os TEXTURES avançaram depois por território anterior a 2018, com «New Horizons» e «Reaching Home», sendo este último um dos momentos mais ajustados ao ambiente da noite.
A abordagem mais contida da guitarra, sustentada por uma progressão melódica, criou um contraste bem eficaz com a intensidade vocal de Daniel de Jongh, cuja prestação foi absolutamente dominante. Mais do que técnica, há presença: gestos sincronizados, como um cumprimento marcado ao impacto seco de uma tarola, revelaram um domínio de palco raro e profundamente consciente.
ALINHAMENTO TEXTURES:
Void | 01. Closer To The Unknown | 02 New Horizons | 03. Reaching Home | 04. Timeless | 05. Measuring The Heavens | 06. Awake | 07. Laments Of An Icarus
De formação mais recentes, os UNPROCESSED afirmam-se como uma das propostas mais estimulantes do metal progressivo europeu contemporâneo; o que, por si só, justifica plenamente o lugar de special guests neste cartaz. Os alemães cruzam metalcore, djent e uma forte herança de math rock com uma naturalidade desconcertante e têm gozado de uma ascensão particularmente acentuada com «Angel», que foi editado em 2025, um disco que revelou uma banda em pleno domínio criativo, capaz de conjugar virtuosismo técnico e identidade própria sem perder coesão.
Em palco, essa maturidade traduziu-se numa abordagem declaradamente moderna, desde o primeiro momento. «111» abriu o concerto com uma clareza impressionante, funcionando como um manifesto sonoro daquilo que os UNPROCESSED representam atualmente. A canção revela um equilíbrio raro entre dinâmica, melodia e impacto, com um refrão memorável, versos bem definidos e um breakdown simples, mas eficaz. Outro dos pontos altos da actuação surgiu com «Glass», onde a influência dos POLYPHIA se fez sentir de forma mais evidente, sem nunca resvalar para a imitação.
As harmonias lentas que sustentam os versos, aliadas ao trabalho técnico de Manuel Gardner Fernandes, criam uma atmosfera que se revelou particularmente intensa ao vivo. Cada nuance, cada detalhe rítmico e melódico tornou-se perceptível de forma quase física. O alinhamento ganhou ainda maior profundidade com «Solara», originalmente marcado pela participação de Zelli dos PALEFACE SWISS, mas que nesta digressão encontrou uma interpretação própria e surpreendente.
Na ausência do convidado original, David John Levy assumiu as partes vocais mais agressivas e, apesar do momento ser daqueles que sublinham o talento individual dos músicos envolvidos neste projecto, acabou por mostrar também a solidez coletiva dos UNPROCESSED, cuja passagem pelo LAV deixou a clara sensação de privilégio por estarmos a testemunhar uma banda em plena afirmação ao vivo.
ALINHAMENTO UNPROCESSED:
01. 111 | 02. Sleeping With Ghosts | 03. Beyond Heaven’s Gate | 04. Thrash | 05. Glass | 06. Sacrifice Me | 07. Snowlover | 08. Lore | 09. Solara | 10. Terrestrial











Quando os JINJER subiram finalmente ao palco, a resposta da sala foi imediata e ensurdecedora. Apesar da presença frequente em festivais e de vários concertos em nome próprio por cá de há uns anos a esta parte, este concerto funcionou como uma espécie de consagração. Em poucos anos, a transformação foi profunda para o banda ucraniana. Aquilo que em 2019 era visto como uma banda emergente do leste europeu é hoje uma referência central do metal contemporâneo e, inevitavelmente, um rosto artístico associado à resistência cultural do seu país.
Ainda assim, com esta diressão a centrar-se na apresentação de «Duel», lançado no ano passado, 8 dos seus 11 temas integraram o alinhamento, e não houve espaço para política durante a actuação. O tema-título abriu o concerto, numa inversão simbólica que definiu o tom da noite, seguida logo de «Green Serpent», com o ecrã gigante que serviu de pano de fundo ao palco durante o concerto, a servir imagens de serpentes em movimento contínuo, e «Fast Draw», introduzida com uma breve provocação vocal.
Tatiana Shmayluk manteve uma postura algo contida, ainda que afável, ao longo do concerto, limitando-se a interações pontuais com o público, sem qualquer referência directa à guerra ou à situação política da Ucrânia. Essa ausência de discurso talvez tenha funcionado como uma afirmação silenciosa: a presença da banda em palco fala por si, dispensando mais explicações.
Como é habitual, o concerto decorreu com uma fluidez impressionante e destilou um alinhamento de 16 temas, todos marcados por uma execução segura e por uma dinâmica constantemente controlada. Como é sabido, a base sonora dos JINJER assenta num peso grave bem definido e em riffs angulares, mas é na forma como desafiam estruturas e expectativas que se distinguem. Vai daí, a «Teacher, Teacher» assume contornos quase industriais, a «Kafka» tem uma atmosfera introspectiva, enquanto a «Judgement (& Punishment)» surpreende pela incorporação de ritmos que fogem ao vocabulário habitual do metal. Em «I Speak Astronomy», ouviram-se passagens mais etéreas, que ampliam o espaço emocional explorado.










Essa elasticidade estética ajuda a explicar o alcance transversal dos JINJER em palco. Não há espaço para excessos cénicos ou exibicionismos individuais. Tudo funciona como uma máquina bem coesa, onde cada elemento cumpre o seu papel com precisão. E sim, apesar do protagonismo natural de Tatiana, fica claro que esta é uma banda construída sobre um equilíbrio técnico incrível.
Se houve algum defeito a apontar, foi mesmo o facto do alinhamento ter recuado apenas até «Pisces», de «King Of Everything», que encerrou o set principal num dos momentos mais aguardados da noite. O encore tornou-se, claro, inevitável perante uma sala completamente envolvida, e o regresso ao palco foi recebido com um coro colectivo que dispensou todas as formalidades. «Sit Stay Roll Over» foi escolhida para fechar o concerto, com o público novamente em movimento, num último gesto de comunhão.
Dúvidas restassem, os JINJER voltaram a confirmar que a sua maior força reside na forma como conciliam peso e melodia sem comprometerem nenhuma das dimensões. Não só na alternância vocal de Tatiana, mas na própria arquitectura das canções, capazes de sustentar agressividade sem perder clareza ou abertura. No final, enquanto o público demorava a dispersar, a sensação no ar não era a de afirmação declarada, mas de algo mais simples e mais raro: uma banda plenamente consciente do lugar que ocupa e do caminho que escolheu seguir. Os fãs estão cá, como estão em todo o lado em 2026, para os receber de braços abertos.
ALINHAMENTO JINJER:
Prologue | 01. Duél | 02. Green Serpent | 03. Fast Draw | 04. Vortex | 05. Disclosure! | 06. Tantrum | 07. Teacher, Teacher! | 08. Kafka | 09. Judgement (& Punishment) | 10. Hedonist | 11. I Speak Astronomy | 12. Perennial | 13. Someone’s Daughter | 14. Rogue | 15. Pisces | 16. Sit Stay Roll Over











