Em vésperas do regresso a Lisboa ao lado dos KREATOR, CARCASS e NAILS, o guitarrista dos EXODUS revisita o percurso, a motivação e o presente de uma das formações-chave do thrash.
A poucos dias de regressarem a Portugal para darem início a uma nova digressão europeia, os EXODUS chegam a Lisboa numa fase particularmente reveladora da sua longevidade e capacidade de reinvenção. Formados na viragem dos anos 70 para os 80, viveram em plena ebulição do thrash da Bay Area de São Francisco e ajudaram a definir os contornos do género ao lado de nomes como os METALLICA e SLAYER, mantendo uma identidade marcada pela agressividade rítmica e pelo rigor técnicoao longo de mais de quatro décadas.
Essa trajectória, no entanto, nunca foi propriamene linear. Ao longo dos anos, os EXODUS atravessaram uma série de mudanças estruturais, períodos de inactividade e sucessivas alterações na formação — com especial incidência para o lugar de vocalista, uma posição que se tem revelado central na forma como os músicos californianos se apresentam em cada fase. Essa alternância entre diferentes vozes acabou por se tornar parte integrante da própria história do grupo, refletindo tensões internas e a enorme necessidade de adaptação a novas etapas criativas.
É precisamente nesse contexto que surge «Goliath», o mais recente LP de estúdio do grupo, que assinala o regresso de Rob Dukes ao lugar de frontman, vários anos depois da sua saída. A substituição de Steve “Zetro” Souza marca, portanto, mais um capítulo na linha evolutiva dos EXODUS, mas, desta vez, com um discurso particularmente claro por parte da banda: mais que uma ruptura, trata-se de um reajuste natural, sustentado numa dinâmica interna que privilegia a coesão e a afinidade pessoal.
Musicalmente, o novo álbum reflete essa mudança de energia. Gravado num ambiente de convivência intensa, com os músicos reunidos durante semanas fora do contexto habitual, «Goliath» apresenta-se como um trabalho colaborativo, onde a partilha de responsabilidades na composição assume um papel central. O resultado traduz-se numa abordagem mais aberta, onde diferentes sensibilidades se cruzam sem que a identidade dos EXODUS seja diluída. A seguir ao vídeo, podes ler a conversa com Gary Holt, guitarrista e principal compositor do colectivo.
Os bilhetes para o concerto dos KREATOR, CARCASS, EXODUS e NAILS, que se realiza na próxima sexta-feira, dia 20 de Março, na Sala Tejo da MEO Arena, variam entre 45€ (bancada) e 50€ (plateia), disponíveis em primeartists.eu e nos locais habituais.
Como correu a vossa digressão com os Megadeth e Anthrax?
Foi uma experiência excelente, a resposta do público foi incrível. É claro que há sempre aquela fase inicial de adaptação — perceber os horários, os palcos, o ambiente —, mas correu tudo de forma muito natural. Estamos a divertir-nos bastante em palco, e isso sente-se. A única coisa menos positiva foi mesmo o frio, especialmente no Canadá, mas fora isso foi uma tour muito forte para arrancar este ciclo.
Vamos falar então do vosso novo álbum, «Goliath». O regresso de Rob Dukes marca uma mudança importante. Era algo necessário nesta fase da banda?
Sim, e embora possa soar a resposta típica, é a forma mais honesta de o explicar. Estar numa banda é muito parecido com estar num casamento, só que no nosso caso são várias pessoas envolvidas ao mesmo tempo. É preciso que todos estejam alinhados, não só musicalmente, mas também a nível pessoal. Às vezes, essas relações simplesmente deixam de funcionar, sem que haja um motivo dramático por trás.
Com o passar dos anos, tornamo-nos mais conscientes da importância desse equilíbrio. Neste momento, sentimos que a energia dentro da banda é muito forte, muito positiva. O Rob sempre fez parte do nosso círculo próximo, a ligação nunca se perdeu, e isso facilitou muito este regresso. Quando entrámos em estúdio, ele ainda nos surpreendeu pela versatilidade, o que acabou por elevar ainda mais o resultado final.
As canções já estavam delineadas antes do regresso dele ou foram construídas com a nova dinâmica em mente?
Foram todas construídas depois. Eu estou constantemente a escrever riffs, por isso ideias nunca faltam, mas nenhuma música estava verdadeiramente estruturada antes do Rob regressar. Quando começámos a gravar, tínhamos apenas algumas bases — talvez cinco temas com forma definida — e o resto foi sendo desenvolvido no próprio estúdio.
Esse processo acabou por ser muito importante, porque permitiu que todos contribuíssem de uma forma bastante mais directa desta vez. Acabámos por gravar um volume grande de material, até muito mais do que o necessário, precisamente porque fomos criando tudo em conjunto, sem pressa.
Esse método de trabalho mais espontâneo aproxima-vos de uma abordagem mais “old school”?
Sem dúvida. Já fizemos discos em que chegámos ao estúdio com tudo preparado ao detalhe, mas desta vez quisemos voltar a uma lógica mais orgânica. Alugámos uma casa perto do estúdio, vivemos todos juntos durante as gravações, e isso muda completamente a dinâmica entre todos. Estás a trabalhar em música praticamente o dia inteiro — quando não estás a gravar, estás a discutir ideias, a experimentar coisas novas. Há instrumentos espalhados por todo o lado, alguém está sempre a pegar numa guitarra ou a testar um ritmo. Isso cria um ambiente muito produtivo, mas também muito natural.
E esse ambiente refletiu-se num maior equilíbrio na composição?
Sim, este foi provavelmente o disco mais colaborativo que já fizemos. No passado, eu acabei por assumir uma grande parte da escrita, muitas vezes por necessidade, mas desta vez não foi assim. O Lee teve um papel muito forte, escreveu uma parte significativa da música e também contribuiu com letras. O Tom também entrou nesse processo. Eu acabei por escrever menos do que noutros álbuns, e isso foi algo positivo. Trouxe outras perspetivas para dentro da banda, o que ajudou a tornar o disco mais variado.
Essa diversidade foi algo pensado ou surgiu de forma natural durante o processo?
Surgiu completamente de forma natural. Nunca nos sentamos a dizer que precisamos de uma música mais rápida ou de uma mais melódica. Começamos com um riff e seguimos essa ideia até ao fim, sem impor limites. Isso faz com que o álbum tenha diferentes ambientes, diferentes dinâmicas. Por exemplo, o contributo do Lee trouxe uma componente mais melódica a certos temas, como a «The Changing Me», mas isso aconteceu de forma orgânica.
Ainda há espaço para experimentar ideias fora do registo habitual dos EXODUS?
Sempre. O estúdio é precisamente o lugar onde testamos essas ideias. Podemos tentar coisas que, à partida, parecem não fazer sentido. Na «Violence», por exemplo, começámos com uma batida que tinha quase uma sensação funk, o que não é propriamente o que as pessoas esperam de nós. A minha reacção inicial foi rejeitar isso, mas decidimos explorar essa direcção. Acabou por resultar muito bem, e até trouxe um elemento inesperado à música. É esse tipo de liberdade que ainda nos entusiasma.
Com tanto material criado, já estão a pensar no próximo disco?
De certa forma, sim. Temos várias músicas já praticamente prontas para um próximo álbum, e são tão fortes como as que entraram neste. Isso dá-nos alguma tranquilidade, porque sabemos que não vamos ter de recomeçar do zero. Ao mesmo tempo, também levanta aquela dúvida natural de perceber se fizemos as escolhas certas para este disco, mas isso faz parte do processo.
Com uma agenda tão preenchida, há espaço para parar e descansar?
Neste momento, não muito. A ideia inicial era precisamente preparar dois álbuns e depois tirar algum tempo para descansar, talvez fazer uma pausa real, sem pensar em música. Mas a verdade é que estamos muito envolvidos neste ciclo — acreditamos no disco e queremos levá-lo o mais longe possível. Isso implica estar na estrada durante vários meses. Talvez mais para o Verão haja uma oportunidade, mas, para já, o foco está totalmente nas digressões.
O que podem os fãs dos EXODUS esperar deste regresso aos palcos europeus, começando em Lisboa?
Podem esperar o que sempre fizemos: um concerto intenso, directo, sem concessões. Vamos apresentar material novo, claro, mas sem esquecer os temas que fazem parte da história da banda. A ideia é criar um alinhamento equilibrado, mesmo sabendo que é impossível agradar a toda a gente quando tens tantos álbuns. Ainda assim, a energia em palco está muito forte neste momento, e isso acaba por ser o mais importante.
Depois de tantos anos, o que continua a motivar-te a fazer música?
É uma combinação de várias coisas. O som da guitarra continua a ser algo especial para mim, algo quase inexplicável. Continuo a ter prazer em tocar, em experimentar ideias, em estar com os meus amigos a fazer música. No fundo, ainda me sinto como aquele miúdo que começou a banda. E enquanto isso se mantiver, faz sentido continuar.
Quando olhas para trás, qual foi o momento mais marcante da tua carreira até agora?
Um dos mais recentes foi o concerto Back To the Beginning, em homenagem ao Ozzy. Foi um momento muito significativo, não só pela importância que ele teve na minha vida enquanto músico, mas também pelo ambiente que se viveu naquele dia. Estavam lá muitos músicos de diferentes bandas, e toda a gente estava focada no mesmo objectivo, sem egos. Foi algo especial.
E agora, com este novo ciclo a começar, que expectativas tens para o futuro dos EXODUS?
Não penso muito em termos de objetivos a longo prazo, sabes? Prefiro ir vivendo as coisas à medida que acontecem. Temos uma boa vida, fazemos o de que gostamos, e isso já é um privilégio. Neste momento, o foco é simples: tocar o melhor possível, levar este disco às pessoas e aproveitar esta fase da banda.




