DEA MATRONA

DEA MATRONA + THE BATELEURS @ República da Música, Lisboa | 08.03.2026 [reportagem]

Muito bem acompanhadas pelos nacionais THE BATELEURS, as irlandesas DEA MATRONA deram o pontapé de saída para a sua primeira digressão europeia como cabeças de cartaz na República da Música. Pelo caminho, confirmaram o percurso ascendente de uma banda que começou por tocar nas ruas de Belfast.

A Sala 2 da República da Música, em Lisboa, começa a afirmar-se discretamente como uma alternativa particularmente interessante para concertos de menor dimensão. Com capacidade para 270 pessoas, o espaço oferece condições cada vez mais raras na cidade: um som equilibrado, iluminação competente e proximidade suficiente entre músicos e público para criar um ambiente envolvente. Numa altura em que as salas de pequena e média dimensão continuam a escassear na capital, concertos como o desta noite demonstram bem a importância de espaços assim para o circuito de bandas em ascensão.

O cartaz reunia dois projectos que partilham precisamente esse momento de crescimento. De um lado, as irlandesas DEA MATRONA, que iniciaram em Lisboa a sua primeira digressão europeia como cabeças de cartaz depois de se terem estreado por cá como “suporte” aos THE DARKNESS em 2025; do outro, os THE BATELEURS, presença cada vez mais consolidada na cena rock lusa. E, mais que uma simples combinação de estilos próximos, por acontecer no Dia Internacional da Mulher, o cartaz acabou por ganhar também um significado adicional.

É certo que não se tratou de uma programação temática no sentido estrito, mas a coincidência de termos em palco dois grupos liderados por mulheres sublinhou algo que se tem tornado cada vez mais evidente: a presença feminina no rock deixou de ser uma excepção ou curiosidade estatística e passou a fazer parte do panorama com bastante naturalidade. Se durante décadas a narrativa do género foi dominada quase exclusivamente por figuras masculinas, a realidade actual mostra um cenário diferente.

Bandas lideradas por mulheres — ou compostas maioritariamente por elas — surgem com cada vez mais frequência, não como novidade mediática, mas simplesmente como projectos sólidos que conquistam o seu espaço em palco. Esta noite na República da Música reflectiu essa normalidade crescente: duas bandas diferentes, duas abordagens ao rock, mas um denominador comum na forma confiante como as suas líderes ocupam o palco.

A noite começou precisamente com os THE BATELEURS, que apresentaram um concerto compacto, mas muito convincente, assente num blues rock musculado e directo ao assunto. Logo nos primeiros minutos, com «Widow Queen», a abordagem da banda ficou clara: riffs sólidos, andamento seguro e uma secção rítmica que mantém tudo firmemente no sítio. Seguiram-se «A Price For My Soul» e «Best Of Days», dois temas que reforçaram a impressão inicial de um grupo extremamente confortável em palco, composto por músicos claramente rodados e habituados a lidar com diferentes tipos de público.

Entre esses músicos destaca-se o baixista Ricardo Dikk, metade da secção rítmica que cria a base sólida sobre a qual assentam os riffs de guitarra e os solos marcadamente bluesy que atravessam o repertório dos THE BATELEURS. Em «City Of Lights» e «For All To See», essa dinâmica tornou-se especialmente evidente, com a banda a equilibrar momentos de groove com passagens de maior intensidade.

No centro de tudo está, contudo, Sandrine Orsini, dona de uma voz bastante poderosa que se aproxima frequentemente de um registo a pender para a soul, conferindo às canções uma dimensão adicional que ultrapassa o simples exercício de estilo dentro do blues rock. A forma como conduz os temas, alternando entre passagens mais contidas e explosões vocais mais rasgadas, acrescenta personalidade ao material e ajuda a distinguir a banda.

O concerto terminou com «Revolution Blues», num fecho enérgico que sintetizou muito bem aquilo que os THE BATELEURS levam para o palco: rock clássico tocado com convicção, competência e um enorme respeito pelas raízes do género. Dúvidas restassem, ficou mais uma prova de que, quando é assim bem executado, este tipo de som não precisa de rótulos como “retro”. É simplesmente música muito bem feita com os instrumentos fundamentais do rock’n’roll — voz, guitarra, baixo e bateria — sem subterfúgios e truques além do talento dos músicos envolvidos.

Após um breve changeover, o regresso das DEA MATRONA a Portugal arrancou perante uma plateia bem composta e curiosa para descobrir até onde a trajectória de Orláith Forsythe e Mollie McGinn pode ir. A dupla começou por colaborar no liceu e a sua história tem algo de bastante improvável: ambas são multi-instrumentistas, juntaram-se para participar num concurso de talentos e o passo seguinte foi levarem as guitarras para as ruas de Belfast, onde passaram horas a tocar versões de artistas como Fleetwood Mac, Led Zeppelin ou The Chicks.

Poucos anos depois, têm um álbum editado, outro a caminho e andam a apresentar o seu repertório pela Europa fora. A experiência sente-se quando as duas sobem ao palco. Com o concerto a arrancar ao som de «Red Button», um dos temas mais populares do grupo, bastaram poucos minutos para perceber que as DEA MATRONA estão perfeitamente à vontade a fazer aquilo que sabem fazer bem.

A presença de Orláith Forsythe é particularmente expressiva: alternando entre a guitarrista e o baixo, a cantora move-se pelo palco com uma energia quase lúdica, alternando passinhos de dança e pequenos gestos que lembram alguém a cantar diante de um espelho no quarto. Ali ao seu lado, Mollie McGinn assume uma postura muito mais contida, com uma elegância quase intemporal — reforçada pela Fender Stratocaster que empunhou durante boa parte do concerto.

A dinâmica entre as duas é um dos elementos centrais da identidade das DEA MATRONA. Dividem as vozes principais e trocam frequentemente de instrumento com uma enorme naturalidade, sendo que essa complementaridade se tornou evidente em temas como «Black Rain» ou «Wilderness», onde as harmonias vocais se entrelaçam com facilidade e conferem maior profundidade às canções.

Se a química entre as duas é evidente, o repertório revela um conjunto de influências que ajudam a situar o som das DEA MATRONA num território particular. As comparações com bandas como HEART surgem naturalmente — duas mulheres na linha da frente de um projecto de rock marcado por guitarras —, mas há também ecos de artistas que exploram uma estética mais misteriosa, como Stevie Nicks ou Kate Bush. Aí, não deixa de ser apropriado que o próprio nome da banda derive de uma expressão gaélica que pode ser traduzida como “mãe deusa divina”.

Acompanhadas por dois competentes músicos de sessão que acrescentaram guitarra, percussão, bateria e vozes adicionais aos temas, as DEA MATRONA aproveitaram para revisitar algumas das influências que marcaram os seus primeiros anos — ouviram-se versões de «Oh Well», clássico dos FLEETWOOD MAC, e de «Love Buzz», original dos SHOCKING BLUE popularizado pelos NIRVANA — e para apresentarem um par de inéditos, com «Hate That I Care» e «John Doe» a servirem de aperitivo ao segundo LP, que vai ser editado em breve.

A recta final do concerto trouxe uma sequência particularmente eficaz. «My Own Party» e «Get My Mind Off» ajudaram a consolidar a ligação com o público luso, preparando o terreno para «Glory, Glory (I Am Free)» e, já em regime de encore, «Stamp On It», tema marcado por um riff contagiante que demonstrou mais uma vez a capacidade que as DEA MATRONA têm para absorver referências diversas e transformá-las numa linguagem própria.

No final, este concerto confirmou aquilo que a própria Orláith Forsythe já tinha sugerido em entrevista antes da digressão: de um duo adolescente que tocava nas ruas de Belfast apenas para ganhar dinheiro de bolso, a banda transformou-se num projecto cada vez mais confiante, capaz de liderar a sua própria digressão europeia. E, se esta noite da República da Música servir de indicação, este primeiro capítulo como cabeças de cartaz dificilmente será o último.

ALINHAMENTO DEA MATRONA:
Red Button | Stuck On You | Hate That I Care | Black Rain | Oh Well | Wilderness | Nobody’s Child | John Doe | Magic Spell | A Rebel Song | So Damn Dangerous | Love Buzz | My Own Party | Get My Mind Off | Glory, Glory (I Am Free) | Stamp On It