CRYSTAL LAKE

CRYSTAL LAKE + MISS MAY I @ LAV – Lisboa Ao Vivo | 11.03.2026 [reportagem]

Acompanhados pelos DIESECT e GREAT AMERICAN GHOST, os MISS MAY I e CRYSTAL LAKE protagonizaram uma noite de metalcore de excelência no LAV – Lisboa Ao Vivo.

Ontem, quarta-feira, dia 11 de Março, o LAV – Lisboa Ao Vivo recebeu um cartaz particularmente representativo de várias correntes do metalcore contemporâneo. No topo do alinhamento surgiam os MISS MAY I e os CRYSTAL LAKE, duas bandas com percursos diferentes mas igualmente consolidados dentro do género, acompanhadas pelos norte-americanos GREAT AMERICAN GHOST e pelos australianos DIESECT.

O formato da digressão, com dois cabeças de cartaz a dividirem o protagonismo, reflete uma tendência cada vez mais visível no circuito internacional. Em vez de um único nome dominante e uma série de bandas de abertura, estas tours procuram construir uma noite equilibrada, onde diferentes propostas partilham o palco e mantêm a intensidade constante. Em Lisboa, essa lógica traduziu-se num espectáculo com mudanças de palco muito rápidas e actuações relativamente compactas, criando uma dinâmica que raramente deixou a sala recuperar totalmente o fôlego.

Ainda antes do primeiro acorde, o ambiente no LAV – Lisboa Ao Vivo era o típico de um início de noite em concertos deste género. Pequenos grupos conversavam junto ao bar, outros observavam o palco a partir das zonas laterais da sala, enquanto os primeiros fãs mais dedicados já ocupavam a linha da frente. O espaço diante do palco ainda tinha margem para crescer, mas essa tranquilidade inicial acabaria por não durar muito.

À semelhança do que tem acontecido ao longo de toda esta rota, coube aos brutalistas DIESECT abrirem esta maratona de actuações. Infelizmente, o arranque não foi totalmente tranquilo para os australianos, que andam pela primeira vez em tour pela Europa: aos primeiros acordes de «Hide From The Light», o som geral apresentou-se bastante desequilibrado, com a bateria e o baixo ultra grave a dominarem o som geral enquanto a guitarra permanecia relativamente discreta.

Ainda assim, a intensidade das músicas impôs-se rapidamente, com os dois temas que debitaram logo a seguir, «Second Death» e «Shura», a revelarem uma banda pouco interessada em subtilezas, que aposta num death/metalcore abrasivo construído sobre riffs compactos e ritmos pensados para provocarem reacção imediata. Verdade seja dita, a plateia ainda se encontrava em fase de aquecimento, mas, nas filas da frente, começavam a surgir os primeiros sinais de movimento.

Alguns fãs arriscavam os primeiros two-steps, enquanto outros observavam atentamente os músicos. À medida que o som se foi ajustando, «Loose Ends» e «Four Walls» ganharam definição, e permitiram que o peso da guitarra surgisse com mais clareza. Portanto, quando os DIESECT chegaram a «There Was Never Light», o tema que encerrou a actuação, o público já estava claramente mais atento e o mais certo é que tenham feito por ali novos fãs. Para uma banda que enfrentava a dura realidade de tocar perante uma audiência que ainda a está a descobrir, os australianos conseguiram transformar um início irregular numa prestação convincente.

Durante a mudança de palco, o ambiente começou a alterar-se com mais pessoas a aproximarem-se da frente do palco, enquanto outros regressavam do bar com copos na mão. No centro da plateia começava a abrir-se aquele espaço vazio que, em concertos deste género, raramente permanece intacto durante muito tempo e, como que por magia, foi precisamente nesse momento que os GREAT AMERICAN GHOST entraram em cena.

O impacto foi imediato, com uma parede sonora dominada pela bateria implacável e as linhas de guitarra bem densas que rapidamente preencheram o espaço da sala. Envergando um casaco com a frase “THIS MACHINE KILLS FASCISTS” pintada nas costas, um slogan que sintetiza sem margem para quaisquer dúvidas o posicionamento político assumido pela banda norte-americana, o vocalista Ethan Harrison revelou-se um verdadeiro maníaco e tudo fez para traduzir a sua atitude com uma presença física intensa, marcada por deslocações constantes de um lado ao outro do palco e incentivos aos fãs para fazerem mosh e crowd surfing.

Como seria de esperar, com «Lost In The Outline» e «Kerosene» os níveis de energia na sala começaram a subir de uma forma bastante evidente. Um olhar à volta revelava cabeças a acompanhar o ritmo em praticamente todas as direcções e a sequência «Echoes Of War»/«Kingmaker» manteve a pressão constante com um som robusto e a bateria a marcar o ritmo de forma quase militarista.

Foi, no entanto, já na recta final que o concerto ganhou uma dimensão diferente. Para terminar, «Writhe» e «Forsaken» trouxeram um momento inevitável e, no centro da sala, abriu-se um enorme mosh pit, com o vocalista a circular entre os fãs. Por essa altura, o ambiente no LAV – Lisboa Ao Vivo já pouco tinha a ver com a calma que tinha marcado o início da noite.

O espaço diante do palco estava agora claramente mais compacto e, quando os MISS MAY I irromperam das sombras com «Shadows Inside», reacendeu-se de imediato o frenesim na plateia. O som apresentava uma clareza impressionante, permitindo distinguir cada ataque de guitarra com uma precisão absoluta e a banda do Ohio, activa desde finais da década de 2000, mostrou rapidamente a experiência acumulada ao longo de anos de estrada.

«Masses Of A Dying Breed» e «Pray For Silence» elevaram os níveis de intensidade, transformando o centro da sala num espaço de movimento constante. A partir daí, o concerto entrou num ritmo difícil de quebrar. «Into Oblivion» e «A Dance With Aera Cura» mantiveram o peso elevado, com cada breakdown a funcionar como um sinal para que o pit ganhasse mais (e mais) velocidade. O impacto físico dos temas e também a nostalgia por parte de quem segue os MISS MAY I há duas décadas, tornou-se evidente em temas como «Architect» e «Relentless Chaos», com a inspiração melodeath das guitarras a amplificar cada momento.

Na primeira fila, vários fãs acompanhavam as letras palavra por palavra, antecipando alguns dos refrões antes mesmo de chegar a hora H. Esse tipo de resposta ajudou a reforçar a sensação de proximidade que um espaço como a Sala 2 do LAV proporciona e a recta final da actuação reuniu alguns dos temas mais celebrados da banda. «I.H.E.» e «Die On The Vine» mantiveram a energia em altas, antes de «Forgive And Forget» provocar uma das reacções mais efusivas da noite. «Under Fire» e «Hey Mister» fecharam o set num ambiente claramente mais efusivo do que aquele que tinha marcado o início da noite.

Quando chegou a vez dos CRYSTAL LAKE, a plateia já estava completamente envolvida na dinâmica do cartaz e, assim que se ouviram os primeiros acordes de «Neversleep», o centro da sala voltou a abrir-se, criando aquele espaço necessário para o impacto do mosh pit. A banda japonesa —  que conta agora com o norte-americano John Robert C. na voz —  surgiu em palco com uma presença intensa e suou (literalmente) as estopinhas, dando tudo na alternância de momentos de peso brutal com secções onde as camadas electrónicas e as backing tracks assumiram protagonismo.

Sem grandes pausas, de seguida ouviram-se «Blüdgod» e «Everblack», e o público aproximava-se cada vez mais da frente do palco, em ondas de sucessivos crowdsurfings, antes de regressar ao centro da sala em novos círculos de movimento. Depois, com «Hail To The Fire» e a muitíssimo celebrada «Six Feet Under», os CRYSTAL LAKE deram o mote para que a turbulência se tornasse constante.

Empurrões, saltos e circle pits sucediam-se sem pausas, acompanhando cada nova explosão que brotava do PA. E, claro, o entusiasmo manteve-se durante «Lost In Forever» e «Open Water», dois dos momentos que melhor demonstraram a ligação entre os CRYSTAL LAKE e a sua crescente base de fãs por cá. Antes do fim, «Watch Me Burn» e «Apollo» antecederam uma versão demolidora de «The Weight Of Sound», que colocou um ponto final no concerto de forma algo abrupta, mas, ainda assim, apoteótica.

No final, ficou clara a eficácia deste formato de digressão conjunta. Os MISS MAY I e os CRYSTAL LAKE apresentam abordagens distintas dentro do metalcore contemporâneo, mas partilham a capacidade de transformar uma sala de prquena dimensão num espaço de energia constante. Com GREAT AMERICAN GHOST e DIESECT a completar o cartaz, a passagem desta European Tour 2026 pelo por Lisboa só veio reforçar a ideia de que este tipo de alinhamento continua a ser uma fórmula muito eficaz: quatro bandas, poucas pausas e uma intensidade que cresceu progressivamente até ao último tema.