Com 36 anos de percurso, os CONVERGE não parecem interessados em capitalizar o estatuto de lenda. «Love Is Not Enough» não é um exercício de nostalgia nem uma tentativa de reinvenção forçada; é uma reafirmação de princípios.
Três décadas e meia depois de terem redefinido os limites do hardcore, os CONVERGE regressam com um disco que não pede licença, não procura validação e não suaviza o golpe. «Love Is Not Enough» é a reafirmação brutal de uma identidade que, desde «Jane Doe», se tornou canónica — não por decreto, mas por resistência, inteligência e uma consistência artística rara.
Desde que o «Jane Doe» foi informalmente elevado a obra maior do século XXI no universo do hardcore e do metal extremo, os CONVERGE deixaram de ser apenas mais uma banda da cena de Boston. Cada LP subsequente aprofundou a percepção de que havia ali mais densidade, mais risco e mais visão do que na maioria dos seus pares.
Projectos paralelos e desvios criativos, como a colaboração com a Chelsea Wolfe em «Bloodmoon I», mostraram uma ambição estética que já estava latente nos primeiros anos, mas que entretanto ganhou escala e maturidade. Hoje, os CONVERGE são uma referência incontornável — e isso poderia ser um peso. Em vez disso, parece funcionar como combustível.
Se há algo que distingue «Love Is Not Enough» dentro de uma discografia marcada pela experimentação e pela sofisticação estrutural, é a frontalidade. Este é, possivelmente, o registo mais directo e destrutivo que a banda assinou em muito tempo. A essência continua a ser a do híbrido metal/hardcore, mas aqui apresentada com uma crueza quase punk na sua atitude e execução. É um disco resolutamente agressivo, saturado de tensão e impregnado de um ressentimento lúcido que não soa gratuito. Há uma sensação de urgência real, como se cada tema fosse uma reacção a um mundo em decomposição moral e política.
O tema -título, «Love Is Not Enough», abre o álbum com um impacto sísmico. Após a expectativa criada pelo seu lançamento prévio, confirma-se como uma síntese perfeita do que os CONVERGE pretendem aqui: riffs cortantes, ritmo implacável e um refrão que não alivia a pressão. O equilíbrio entre tpda essa inteligência conceptual e brutalidade física, que desde «Jane Doe» se tornou marca registada, volta a estar no centro da equação.
Jacob Bannon mantém-se como uma das vozes mais distintivas do hardcore contemporâneo, e as suas letras continuam a atingir o alvo com precisão cirúrgica. Em «Bad Faith», disseca intenções malévolas com um cinismo corrosivo; em «We Were Never The Same», expõe a resistência instintiva — e muitas vezes silenciosa — à verdadeira solidariedade. O seu grito não é apenas catarse: é acusação.
Musicalmente, a primeira metade do disco constrói-se como um crescendo de animosidade justificada. «Bad Faith» avança com a frieza calculada de um disparo inevitável, os riffs a rodopiarem com uma violência quase maquinal. «Distract and Divide» comprime o caos em pouco mais de um minuto e meio de blastbeats e ódio concentrado, enquanto «To Feel Something» mergulha na dissonância com uma fúria quase indecente. A breve pausa surge em «Beyond Repair», onde uma ambiência vítrea envolve um motivo melódico minimalista, criando um momento de suspensão que não suaviza o conjunto, mas o torna mais pesado pelo contraste. Isto não os CONVERGE no seu melhor.
A segunda metade revela-se ainda mais esmagadora. Os CONVERGE sempre demonstraram particular eficácia quando desaceleram o passo, e «Amon Amok» confirma como o domínio da textura e da atmosfera pode ser tão letal quanto a velocidade. O peso arrasta-se, sufocante, e cada batida parece calculada para maximizar o desconforto.
Em sentido oposto, «Force Meets Presence» condensa um apocalipse em dois minutos, com mudanças súbitas e riffs que evocam o thrash mais descontrolado do final dos anos 80. Já «Gilded Cage» desvia-se subtilmente para territórios de noise rock sinistro, sustentado por um baixo cavernoso e um refrão que explode com violência inesperada.
O fecho não concede qualquer redenção fácil. «Make Me Forget You» avança como um sprint de punk melódico envenenado, antes de «We Were Never The Same» encerrar o disco com ondas densas e repetitivas, carregadas de uma monotonia dolorosa que soa deliberada — quase um lamento colectivo que se recusa a oferecer consolo.
Com 36 anos de percurso, os CONVERGE não parecem interessados em capitalizar o estatuto de lenda. «Love Is Not Enough» não é um exercício de nostalgia nem uma tentativa de reinvenção forçada; é uma reafirmação de princípios. Directo, violento e intelectualmente afiado, o álbum demonstra que a banda continua a operar num patamar próprio, onde brutalidade e consciência caminham lado a lado. Não há concessões, não há diluição. Apenas convicção — e impacto.







